Diário da Serra

Fé na Luta

Emanuel Filartiga 18/05/2020 Artigos

Os direitos nascem no suor, na luta diária, no fôlego…

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Eu saí de casa, fui pra longe por sonhar… por esperançar…“pela vontade amorosa de mudar o mundo”.


Eu não estava sozinho, e não estou… carrego as pessoas e circunstâncias que me fizeram, todos elas. A rua está comigo, as gentes estão comigo.


Agora, em minha sala, em meio ao isolamento, não posso evitar que minha história quase me arranque daqui e me leve pra lá, momentos antes vividos por mim; momentos e situações muitas, cheio de pessoas diferentes.


Das anônimas gentes, sofridas e esquecidas, aprendi sobretudo que a luta é fundamental (a luta para ter paz). “Aquela paz inquieta, que não nos deixa em paz (…) que denuncia a paz do cemitério e a paz dos lucros fartos(…)”(Pedro Casaldáliga)


O hoje que vivemos explode, coloca em exposição, removendo o véu de seda que revestia, o mundo das injustiças e suas vítimas. Indiferença, um desprezo arrogante, soberba… uma violência mascarada. O mundo segue despedaçado. “Eu sou eu e minha circunstância, e se não a salvonão me salvo.”


Ouvi de uma Juíza, Raquel R. Amaral, servidora pública, de quem fui estagiário, que “os direitos são feitos de fluido vital! Pra se fazer o direito mais elementar, a liberdade, gastou-se séculos e milhares de vidas foram tragadas, foram moídas na máquina de se fazer direitos, a revolução! Tu achavas que os direitos foram feitos pelos janotas que têm assento nos parlamentos e tribunais? Engana-te! O direito é feito com a carne do povo! Quando se revoga um direito, desperdiça-se milhares de vidas… Os governantes que usurpam direitos, como abutres, alimentam-se dos restos mortais de todos aqueles que morreram para se converterem em direitos!”


Os direitos nascem no suor, na luta diária, no fôlego… É preciso mesmo um “brigar amoroso” para que tenhamos o mínimo de transformação.


Daí a necessidade fundamental do cidadão exigir dos poderes público o interesse público, a justiça, participar da “administração da coisa pública”. O cidadão sujeito, aquele responsável pela história que o envolve. Sujeito ativo na cena política, sujeito reivindicante ou provocador da mutação do direito. Pessoa envolta nas relações de força que comandam a historicidade e a natureza da política. Enfim, cidadão como ser, sujeito e pessoa a um tempo. O cidadão é o agente reivindicante possibilitador da floração contínua de direitos novos, lembra Clemerson Merlin Cleve.


Como escreveu Ihering, em livro clássico, A luta é o trabalho eterno do direito. Se é uma verdade dizer: — Comerás o teu pão com o suor da tua fronte, — não o é menos acrescentar também: — É somente lutando que obterás o teu direito.


Eu morreria feliz no bom combate. Viver entusiasmado de lutar pelo que acredita! A luta conosco mesmo; a luta dos que querem ser e não podem; a briga pela decência; a briga contra a sem-vergonhice e o desamor; lutar por uma educação de qualidade; por uma saúde que nos atenda; a luta, que não pode ser mais procrastinada, contra a fome e a pobreza…


O homem que recebeu o Prêmio Lenin da Paz em 1954, Bertolt Brecht, prêmio que reconhecia indivíduos que tinham trabalhado para o fortalecimento da paz entre os povos, tem oração lapidar, cuja correnteza carrega estas palavras:“Há homens que lutam um dia e são bons, há outros que lutam um ano e são melhores, há os que lutam muitos anos e são muito bons. Mas há os que lutam toda a vida e estes são imprescindíveis.”

 

Emanuel Filartiga é Promotor de Justiça em Mato Grosso

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