Diário da Serra

O peixinho

Euller Sacramento 04/08/2020 Artigos

 O luto é um sofrimento necessário e não pode ser tirado da criança, seja ele por um bichinho de estimação ou por um ente querido

Artigo 'O peixinho'

Ano passado demos um peixinho para nossa filha, como ela gosta de pescar pensamos que iria gostar, então minha esposa comprou um beta vermelho, aqueles peixinhos de aquário solitário. Começaremos por ele se ela gostar compramos outros.


 Fizemos uma surpresa, ela amou e o batizou de Pepê. Este era um peixe aparentemente tranquilo, com o passar do tempo ela deixou de interagir com ele, mal olhava como no início, pensei, não sei para que fomos dar um peixinho para ela, nem brinca com o peixe, até esquece que ele existe.


 Convenhamos, o que eu queria que ela fizesse, rolasse com peixe, o jogasse para cima, pulasse de bico no aquário??? Até porque o beta é um tipo de peixe que se fica mexendo muito ele estressa, então não tinha muito o que fazer.


 Nesse meio tempo, minha filha foi passear na casa dos avós, na semana em que ela estava fora o Pepê morreu e veio o grande dilema: contamos para ela por telefone, esperamos chegar ou compramos outro igual (ela nem perceberia)? Decidimos esperar e pensei comigo, ela nem vai sentir falta, mal interagia com ele mesmo.


 Ao chegar em casa para nossa surpresa, foi direto olhar o Pepê (acreditam nisso?) quando ela não o viu, olhou para nós e perguntou:


— Mamãe, Papai cadê Pepê?


 Explicamos que ele tinha morrido e tinha ido para o céu dos peixinhos. Ela começou a chorar e foi um choro intenso, lágrimas escorrendo e muito soluço, para minha surpresa, pois como ela aparentava não se importar com ele eu não esperava aquela reação. Na verdade, ela sempre se importou da maneira dela, eu que tinha compreendido.


Após a notícia, ela soluçava e falava, o Pepê morreu papai, mamãe o Pepê morreu, durou uns 5 minutos um choro intenso, a abraçamos com todo o carinho do mundo e explicamos o que tinha acontecido. Após este episódio, ela entendeu que o Pepê não estaria mais conosco e que foi para o “céu dos peixes”. Minha filha viveu e sofreu o luto dela pela partida do seu peixinho, cujo nome havia batizado de Pepê.


 Se dependesse dos pais amorosos, os filhos jamais sofreriam, se possível colocariam numa bolha para que as maldades e sofrimentos do mundo não os atingissem, mas infelizmente existem alguns sofrimentos que eles precisam passar, não podemos tirar isso deles, para o bem do desenvolvimento deles.

 

O adulto tende a esconder o luto, pois acredita que a criança não suporta, muito menos sabe lidar com tamanho sofrimento e de fato, se não lhe explicarem, ela não saberá lidar e lhe será tirado a oportunidade de viver e elaborar esta emoção.

O luto é um sofrimento necessário e não pode ser tirado da criança, seja ele por um bichinho de estimação ou por um ente querido


O luto é um sofrimento necessário e não pode ser tirado da criança, seja ele por um bichinho de estimação ou por um ente querido (principalmente). A criança precisa viver o luto, ela precisa saber dos acontecimentos em que esteja envolvida diretamente.

Euller Sacramento é psicólogo e atende na Imaginare Clínica Integrada. Instagram: @eullersacramento.



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