Diário da Serra

A centenária Tereza Fernandes forte por natureza, suave por opção

Iolanda Garcia e Rodney Garcia 25/07/2019 Memória

São 56 anos vivendo em Mato Grosso

Dona Tereza em sua residência – jul. 2019

A centenária Tereza Fernandes forte por natureza, suave por opção

Natural de Valparaiso – SP, nascida em 05/03/1919, Tereza Teixeira Fernandes casou-se Miguel Teixeira Franco. Filha de espanhóis.  Em 1945, mudou-se para o estado do Paraná, onde o esposo mexia com leitaria, permanecendo até 1963, quando seu esposo, acompanhando seu compadre Geraldão e o amigo Aristeu, comprou terras em Tangará da Serra e estabeleceu com a família neste município. São 56 anos vivendo nesta terra. Mãe de 11 filhos, sendo um natimorto.  Entre netos, bisnetos, tataranetos e agregados, a família de Dona Tereza supera o número de 100 pessoas. 


De saúde fragilizada pelo tempo, dona Tereza, de expressão serena, convive com o tempo, tecendo-o com olhares e lembranças de uma vida dedicada aos filhos, ao esposo – in memorian – e aos afazeres domésticos. Viúva há 16 anos, é cuidada pelos filhos, em especial, por Claudio, Zulmira e Maria. Prefere morar no sítio, onde se estabeleceram desde a chegada a este município. Com o acompanhamento dos filhos já mencionados, parte das memorias desta senhora que dedicou mais da metade de sua vida a esta cidade pôde ser contada. Mais que transcrições de fragmentos de memorias, a vida se faz presente em seus gestos. Marcado pelo tempo, seu corpo não é impedido de acompanhar, orientar e até fiscalizar o preparo de pratos e de iguarias. Conforme revela Maria: “Se a gente descuidar, a minha mãe prepara a comida dela. Nós temos medo que ela se machuque lidando com as panelas”.


Ao longo dos 36.500 dias vividos, muitas coisas aconteceram. Situações corriqueiras e inusitadas foram vividas, experimentadas. Sentimentos e emoções externados ou contidos. Há muita história para contar sobre as 876.000 horas passadas entre as cidades de São Paulo, Paraná e Mato Grosso. Ao mesmo tempo, com naturalidade, as memorias são ressignificadas pela narrativa, pois traz sobre si marcas individuais e coletivas, passando a fazer parte da própria essência da pessoa, muito embora outros tantos acontecimentos e fatos possam se modificar em função dos interlocutores, ou em função do movimento da fala. Por exemplo, Dona Tereza lembra, entre risos, que seus pais vieram da Espanha para, em seguida, afirmar que as mulheres espanholas não sabiam torrar café: “A mulherada não sabia muita coisa do Brasil, elas não sabiam que café tinha que limpar primeiro para torrar. Aí, colocavam para torrar e pegava fogo, queimava tudo”. 


Dona Tereza veio do Paraná trazendo a mudança em dois caminhões. Um com um Jeep e um carrinho de animal, junto com a mobília e os filhos. “Eu vim dentro do Jeep junto com meu filho. As crianças vieram na cabine e na carroceria”, disse ela, e o outro caminhão veio com animais: porco, galinha, vaca e cavalo. “Nosso Jeep foi um dos primeiros carros a chegar aqui. Resto era caminhão que ia e que vinha trazendo pessoas, mantimentos,” rememora.


A filha Zulmira Teixeira Corsino, que, em boa parte do tempo, cuida de Dona Tereza, contou que “na serra Tapirapuã não tinha estrada; era só um trieiro, tipo uma picada, que a gente usava para chegar até aqui em cima. Tivemos que descer parte dos moveis da minha mãe, porque os galhos que batiam na carroceria do caminhão começaram a quebra-los. Descemos os móveis e subimos a serra a pé...” Relatou que demoram a chegar aqui em Tangará. Declarou que veio no caminho cantando e bem tranquila, a mãe não estava nada contente com a mudança.


Dona Maria, outra filha de dona Tereza, foi quem nos levou até a residência materna, um sítio que fica logo depois do Bairro Alto da Boa Vista. No caminho, dona Maria nos contou que o pai, Miguel Teixeira Franco, quando aqui chegou comprou terra, aproximadamente 300 alqueires: “meu pai comprou muita terra aqui em Tangará, o pagamento foi feito o gado que ele tinha no Paraná, pois o dono da terra era de lá. Lá, meu pai tinha leitaria. Aqui em Tangará ele foi leiteiro por muito tempo... Hoje, tenho um irmão, o Argemiro, que ainda entrega leite de casa em casa, transportando na carroça”.  Chegando à casa da mãe e do irmão Claudio, dona Maria foi cuidar de fazer o almoço para deixar a mãe e a irmã Zulmira à vontade para conversar conosco.


Dentre as poucas conversas de dona Tereza, ela nos disse “estou aqui nesse sertão porque meu véio gostava muito de gado, aqui dava para criar muito gado.” A filha Zulmira emenda: “tenho saudades do tempo em que meu pai tocava boiada e a gente era acordada com o som do berrante da comitiva que chegava à frente para avisar que vinha o gado e para preparar alimentação para  comitiva.” Aqui instalados, lembra a filha, que  seu pai ia comprar o que faltava em casa na cidade de Nova Olímpia que, à época, era uma currutela à beira da estrada, mas que quase tudo era tirada da própria terra e dos animais que criavam.

 

Entre os caminhos da roça e a cidade


Dona Zulmira, até hoje, vem pouco na cidade. Prefere o sossego do mato, a tranquilidade dos animais e os cuidados com a mãe. Ela conta que sempre fez esse caminho a pé e nunca teve medo. Também afirma que nunca encontrou nenhum bicho que a fizesse correr de medo. “Certo dia, eu vinha da cidade para cá e no caminho, no meio trieiro, vinha um homem com uma mala. Eu olhei, olhei e não tinha para onde correr,  pois o único caminho era aquele. E o homem já tinha visto a mim. O jeito era ir de encontro com o homem. Quando eu cheguei bem pertinho, ele colocou a mala no chão e gritou meu nome. Aí, fiquei aliviada, se sabia meu nome, era conhecido. Era o Chico, amigo da família, que estava indo embora para outra fazenda.”


Outra história que dona Zulmira contou remete à sua juventude. Ela, os irmãos e os colegas, brincavam muito em uma mata entorno da região onde, hoje é a Vila Alta, “a gente se juntava com a Neuza, Lainha, Maria, Lindalva, Ivone, Marli, Tonieta (Antonietea) e saiamos catando frutos do cerrado: pequi, mangaba, murici, cajuzinho, amora verde para a gente comer.” Além das brincadeiras de crianças, Zulmira conta que também trabalhou na colheita da poaia. Enquanto traquinagens de criança, conta que, certa vez se perdeu na mata e, deste então, aprendeu a usar a bússola. 


Claudio, por sua vez, relatou os cuidados da mãe em proteger os filhos da severidade do pai. “Ela era mais protetora. Meu pai, mesmo severo, também tinha seu lado bom. Mas, toda vez que a gente aprontava alguma, minha mãe saia na defesa da gente.” Lembrou que na propriedade já produziram muita rapadura e que era difícil comercializa-la. Falou sobre os restos da moenda que está tomada pela vegetação. Destacou o gosto pela criação de porcos, galinha e vaca.



  A conversa com dona Tereza foi maravilhosa. Ela é uma pessoa carinhosa e prestativa. As filhas Maria e Zulmira e o filho        Claudio contribuíram com a prosa, trazendo lembranças da infância e auxiliando dona Tereza em seus dizeres. Filhos com      olhares atentos, palavras zelosas e cuidados especiais. Uma vida dedicada à mãe. “Minha filha, venha um dia para a gente    comer um frango. Só não vem no domingo, porque aqui fica cheio de gente. Se vier em outro dia, vai sobrar mais frango        para a gente comer”.

 

 

  As filhas lembram que a primeira casa em que moraram chovia muito dentro. Depois, conseguiram construir uma casa de      madeira coberta de tabuinha; mais tarde, construíram uma casa de alvenaria no sítio; e dividiam o tempo entre a casa da        cidade e a casa da roça. Trajeto da casa da cidade para o sítio era feito à pé. “A gente ia de manhã e voltava à tardezinha...    Na época, em Tangará tinha poucas casas, era um sertão grande, com quase ninguém morando,” lembra Zulmira.

 

 

 

Dona Tereza, muito cuidadosa com suas visitas, nos oferecia a todo o momento, um café, um bolo, um queijo e frutas. Com muita alegria, lembrou que o neto já foi à Espanha e trouxe uma boneca e uma vaca de presente. O quarto dela é arrumado com todo carinho e sobre a cama há várias há bonecas, inclusive, a espanhola. Não é possível descrever o valoroso sorriso que Dona Tereza, com mais de 100 anos de vida, deixa fluir com pureza ao pegar no colo e acariciar as bonecas. Ela, definitivamente, revela a criança que o tempo não levou. Um maravilhoso reencontro.



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