Diário da Serra

Simplicidade e sabedoria: a luta pela vida

Iolanda Garcia e Rodney Garcia 20/08/2019 Memória

Dona Luzia, no auge de seus 60 anos, dedicou 54 anos de sua vida a esta terra

Dona Luzia

Simplicidade e sabedoria: a luta pela vida

Aos seis anos de idade, Maria Luzia Gonçalves da Silva deixa a pacata São Domingos das Dores-MG, hoje com menos de dez mil habitantes, para, acompanhando os pais – Norberto Barcelos Gonçalves e Maria L. de Jesus – e nove irmãos, desembarcar nestas terras no dia 12 de agosto de 1965, onde tinha uma farmácia coberta de sapê e parede de pau-a-pique, uma mercearia de secos e molhados, uma loja que vendia roupas e alguns barracos de lona ou de palmito, cobertos com folhas de coqueiro ou de sapê, para abrir terras, derrubando matas e trabalhar na agricultura, cultivando para os outros, na condição de boia-fria, peão ou meeiro.


Antecedentes, motivações e trajeto

A decisão de vir para Tangará da Serra está relacionada ao irmão mais velho – José Gonçalves, in memorian – que tinha vindo anteriormente trabalhar no desmatamento e no cultivo da terra. Naquele ano (1965), retorna para lá e fala sobre as maravilhas de Tangará. “A gente, e mais um monte de gente, não tinha quase nada. Vimos à oportunidade de melhorar de vida e de não termos medo de passar fome... Era meu pai que ‘morria de medo’ de sua família passar fome... então, quando meu irmão contou o tamanho das árvores, das frutas, tipo mamão, abóbora, melancia; e que o arroz, o feijão e milho eram graúdos, meu pai não teve dúvidas. Reuniu a família, conversou com amigos, e saímos de lá em trinta e cinco famílias, distribuídas em nove caminhões”, descreveu a dona Luzia.


Migrantes no próprio território 

Ao chegarem nesta terra, já com indicação de onde seriam ‘colocados,’ foram trabalhar na linha da Reserva, para Antônio Português, onde derrubaram matas, queimaram, encoivaram, queimaram de novo, e cultivaram lavoura branca por 05 anos. “A gente era pequena e não podia ir para roça; a minha mãe, com medo, deixava os pequenos fechados em casa, enquanto os ‘grandes’ iam trabalhar e nós não podíamos sair no terreiro, pois, a onça poderia comer a gente, ou cobra ou aranha picaria as crianças. Quanto completei oito anos de idade, comecei a trabalhar na roça. Aprendi a capinar desde cedo, a cortar arroz, a plantar e a colher feijão, milho, só não gostava de desbrotar café,” relatou, entusiástica de sua condição de lavradora.


Decorridos cinco anos, a família foi trabalhar em outra propriedade na região conhecida, à época, como Córrego do Cedro, onde lidara com plantio, a manutenção e a colheita de café. Permaneceram pouco tempo nessa localidade. Em seguida, seu irmão – José – comprou 03 hectares de terra no distrito de São Joaquim – à época, Joaquim do Boche – para onde a família foi deslocada; lá permaneceu um ano. O irmão vendeu a terra e rumou para Pimenta Bueno-RO, anos mais tarde, viria a óbito por problemas cardíacos. 


Sem ter para onde ir, a família mudou para o, hoje, distrito de Progresso, onde trabalhou na lida com a terra para a família de dona Idalina Tayano e outras famílias na região. Nos termos da entrevistada, a família passou o tempo todo ‘buscando colocação’ em sítios e fazendas para garantir o sustento. Com o óbito paterno, em decorrência da idade, em 1976, a mãe, também idosa, depois de perambular por terras alheias juntamente com os filhos, mudou para cidade de Tangará da Serra. Já com saúde debilitada, falecendo anos mais tarde (década de 90).


As lembranças do pai e da mãe

Conforme dona Luzia, seu pai, Norberto Barcelos Gonçalves, era um homem de costumes simples, trabalhador, gostava de tocar viola, cantar e contar historias para entreter aos filhos e aos amigos. “Em noite de lua, a gente sentava no terreiro ao redor de meu pai, ele, com violão, nos divertia cantando, contando historias e causos. Ele contava dessas historias que a gente vê em livro, como a Chapeuzinho Vermelho, a Cinderela, os Três Porquinhos e muitas outras. Contava causos de assombração... a gente, tinha dia, que ficava com medo, mas, a gente gostava,” conta a entrevistada, para, em seguida, relatar que gosta de contar historias e causos que aprendeu com o pai, e que os usa para educar o neto que vive sob sua responsabilidade.


Católicos fervorosos, em casa, em casa de vizinhos ou na igreja da comunidade, sempre tinha uma novena, uma reza, um terço, um culto ou uma missa e “a gente ia. Minha mãe não deixava a gente faltar a uma reza, a um terço, a uma missa... Foi a fé da minha mãe que me livrou e livrou meus irmãos de um monte de coisas,” contou.


A mãe, Maria L. de Jesus, conforme relatos de dona Luzia, era uma benzedeira conhecida na região. “Minha mãe gostava de benzer crianças. Benzia crianças com quebrante, mau-olhado, vento virado... Ela fazia as rezas dela, pedia para Nossa Senhora e para Jesus Cristo protegerem aquelas crianças. E elas eram curadas. Benzia gente grande também. Minha mãe foi muito boa; muito justa.” Mas, reitera a entrevistada, sua genitora, dona Maria Benzedeira, ficou afamada pelas crianças que trouxe ao mundo. “Tinha semana que a minha mãe fazia parto todo dia. De quando a gente chegou aqui (1965) ela fez muitos partos enquanto tinha saúde.” Relata a entrevistada, entusiasta dos feitos materno: “Acho que foram muitas crianças que a minha mãe ajudou a nascer nesse Tangará, sem contar as que ela ajudou em Minas”.


A vida de Maria, a portadora de dor e de luz

Quando adolescente, Luzia e parte da família foi acometida pela malária. Ela relata que quase morreu. Mas, graças às orações de sua mãe, ela e a irmã se recuperaram. Relatou que, como aqui não tinha hospital, “gente vinha para cidade e ficava nas casas das pessoas esperando sarar ou morrer. A gente via filas de caixões com gente morta sendo levada para o cemitério. Mas, com a graça de Deus, a gente ficou boa”.


Luzia, ainda jovem, casou-se com Alcides Mariano da Silva, com quem teve três filhas em oito anos de relacionamento. Seu Alcides era um senhor viúvo, dono de uma ‘venda’ e tinha uma filha, ainda nova de seu primeiro casamento. Este relacionamento tinha tudo para ser coroado com perfeição. Os ‘poréns’ surgiram em forma de tragédias e percalços. A filha mais velha do marido e a do casal, brincando no quintal da casa, no distrito de São Joaquim, encontraram alguns pacotes de suco jogados no chão: “as meninas pegaram aqueles pacotes abertos e lamberam. Mas, aqueles pacotes tinham o veneno Furadan, que foi colocado ali para matar rato. Elas não sabiam de nada e comeram aquele resto de suco envenenado. Logo, em seguida, começaram a passar mal. Trouxemos para o hospital. Elas não resistiram. Morreram com, respectivamente, quatro e dois anos de idade,” relata, com olhar tomado pela dor da perda. 


Dona Luzia relatou que o desespero tomou conta de si. Não queria mais viver, chorava noite e dia. Mas, graças a ajuda e a fé de sua mãe, conseguiu conviver com a perda. “Meu filho, foi a fé da minha mãe que me salvou. Ela me ajudou muito. Pediu muito a Deus e a Virgem Maria que me ajudassem. Me deu muito conselho. E, com isso, eu consegui levantar.”


Mas, três anos depois, problemas cardíacos levaria seu esposo. “Foi outro sacrifício. Foi muito doído para mim. Perder duas crianças e o marido em tão pouco tempo. Mas, graças a Deus, eu tive forças para continuar,” enfatizou dona Luzia. Viúva, com duas filhas pequenas – Marineia (03 anos) e Adriana (02 anos) – trabalhou por dois anos na fazenda Guanabara, arrancando capim colonião. Outros três anos, trabalhou em diversos lugares, na lida com a terra, desempenhando variadas ocupações para garantir seu sustento e o da prole.


Em 1989, deixa a lida com terra para cuidar da mãe enferma. Seus irmãos garantiram seu sustento e o das filhas para que ela se dedicasse a essa nova ocupação. Enquanto cuidava da mãe, conheceu Paulo Teixeira Delmondes, com que viria a casar. “Foi Deus quem colocou Paulo no meu caminho. Ele é um homem bom, trabalhador. Cuida de mim. Só por Deus que ele veio até mim. Ajudou a cuidar e a criar as minhas filhas. Estamos juntos a 30 anos e nunca tivemos um desentendimento sério,” contou a entrevistada.


Dona Luzia, no auge de seus 60 anos (03/07/1959), dedicou 54 anos de sua vida a esta terra. Aqui, conheceu o amor, a dor, a perda, o acolhimento, o recomeço e o reencontro. De modos simples e autênticos, de poucas letras, não renuncia ao seu modo de ser e ao seu modo de sentir. Religiosa fervorosa, católica praticante, mãe de 03 filhas, avó de 07 netos, bisavó de 02 bisnetos, dedica seu tempo a cuidar de um neto, da casa próxima ao Parque Figueira, do esposo – Paulo Teixeira Delmondes – de dois gatos e de dois cachorros; e do coração e da bílis que requerem cuidados especiais.


 



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