Diário da Serra

IRACEMA RIBEIRO: Na periferia do desenvolvimento de Tangará da Serra

Iolanda Garcia e Rodney Garcia 03/09/2019 Memória

Ela chegou em Tangará da Serra em 1966, com 3 anos

Iracema Ribeiro 

IRACEMA RIBEIRO: Na periferia do desenvolvimento de Tangará da Serra

Iracema Ribeiro, paulista de Pompeia, nascida em 23/01/1963, chegou a Tangará da Serra, com apenas três anos idade, acompanhada dos pais: Maria Lucia Ribeiro e Antônio Bispo dos Santos; dos irmãos: Pedro Ribeiro e Eleonildo Ribeiro (Manguito); dos avós: Lourdes Isabel das Neves e Alfredo Lucio Ribeiro; das tias Margarida e Madalena Ribeiro, para trabalhar na abertura de terras (roçar, derrubar, queimar, encoivarar e requeimar) e no cultivo de lavoura. “Aqui, meus avós, pais e tias e, mais tarde, meus dois irmãos foram trabalhar de meeiros, arrendatários e diaristas nas terras dos outros. Nunca tivemos um palmo de terra para cultivar e dizer que era nosso. Tudo que colhíamos, dávamos a metade pra os donos das terras. Éramos nós que derrubávamos, queimávamos, desencoivarávamos e plantávamos. Era tudo nós que fazíamos. Tinha um que outro fazendeiro que dava sementes para a gente plantar.”


As primeiras memorias: idas e saídas

Iracema Ribeiro contou que sua família, em São Paulo, trabalhava nas terras de Hélio Tavares e que, logo que ele adquiriu terras neste município voltou à Pompeia – SP, em 1966, e trouxe seus pais, seus avós e tias para trabalhar na abertura das propriedades em solo tangaraense. “Em São Paulo, trabalhávamos nas terras de seu Hélio e de Dona Mariquinha. Eles trouxeram a gente e mais seis famílias em dois caminhões FNM’s. Cada família tinha uma média de oito pessoas. Então, pelo que me lembro, deveríamos passar de quarenta pessoas misturadas com roupas, ferramentas e traias de casa. Não sei quanto tempo a gente ficou na estrada. Só lembro que gente parava para comer e dormir,” rememora a entrevistada. 


Quando da chegada a Tangará da Serra, a entrevistada credita parte da memorias infantis à mãe e aos avós: “o que a gente lembra dessa época foram as coisas que minha mãe e meus avós contavam para gente. Éramos muito pobres. Só tínhamos a esperança, o sonho de não passar fome e de não ficar doente. Então, essas coisas – as coisas da viagem – eram contadas para as outras pessoas e a gente, sempre por perto, acabava escutando e guardando na cabeça. E uma das histórias que eles contavam é que a subida da serra foi muito difícil; só subiam os caminhões com as coisas dentro e a gente, aquele mundaréu de gente, com criança no colo, subiu aquele trecho à pé, rezando, cantando, reclamando, chorando, com medo.”


As primeiras colocações

“Quando chegamos a Tangará da Serra, fomos abrir as terras do seu Hélio Tavares, na Comunidade São Paulino; ali, derrubamos, plantamos arroz, feijão, milho e amendoim. A terra produzia com gosto. Era cada espiga de milho que a gente assava para comer... aquilo era uma festa,” informa Iracema Ribeiro. Permaneceram pouco tempo nessas terras – duas safras das águas. Em seguida, mudaram para a fazenda às margens do Sepotuba (acima da cachoeira Salto das Nuvens), ainda com o mesmo patrão. Lá estavam quando a chamada malária atacou parte da população que morava em outras regiões, outras glebas. “lá para as nossas bandas – Sepotuba – não chegou nenhuma doença. A gente ouvia falar sobre as pessoas que tinham febre e morriam... Outras sobreviveram...”
Deixando as terras de Hélio Tavares, foram trabalhar, ainda na região do Sepotuba, para dona Rosa Assuê e seu filho, Antônio Assuê, conhecido como Antônio Japonês. “Nessas terras, a exemplo de outras, foi trabalhando no machado, na foice, na enxada, no enxadão e no facão que tornamos aquela antiga mata em lavoura,” contou a entrevistada. Mais que relatos genéricos, Iracema Ribeiro tem viva algumas passagens como, por exemplo, “Minha avó e minha mãe preparavam a comida para a gente levar na roça. Lá estavam o meu pai, os meus irmãos, o meu avô e as minhas tias, tudo trabalhando no pesado – eles não enjeitavam serviço – A gente chegava com a comida e, tinha dia, que não tinha nenhuma sombra por perto, ‘nem para fazer remédio’. Eles sentavam sobre os tocos e almoçavam. Depois, minha mãe e eu íamos ajudar na roça. Eu carpia, roçava, buscava água na moringa.”


Perda e Susto 

Na lida com a terra na propriedade dos Assuê (1970 a 1973), Iracema Ribeiro passou por duas situações extremas: a perda do pai e a doença da mãe. Deslocamentos em busca de colocação para garantir o sustento da família. Para além desse período, há a luta para comprar um terreno e construir uma casinha. Ou seja, “a gente tinha que se mexer para garantir a comida na mesa. Minha mãe, meu pai, meus avós, minhas tias e meus irmãos trabalhavam de sol a sol tentando melhorar de vida,” registra a entrevistada.


“Certa vez, minha mãe e eu chegamos à roça com a comida. Meu pai estava colocando fogo nas coivaras. Já era quase umas dez horas. Sol do mês de setembro estralando. Não tinha uma sombra por perto. Só resto de madeira amontoada para ser queimada. Assim que ele nos viu, deixou o serviço e foi até onde estava a moringa. Abaixou para beber água e nunca mais levantou.” A entrevistada faz uma breve pausa para respirar. “eu posso dizer que meu pai morreu trabalhando nas terras dos outros. Ele deixou os patrões ricos e colocou comida na nossa boca.” Não soube precisar o ano que o pai faleceu: “Eu só sei que ele morreu no dia do aniversário da minha mãe. E isso foi antes dela ficar doente e de mudarmos para as terras do João Queima-Pé.”


Relatou que, após o óbito paterno, sua mãe foi acometida de uma doença conhecida por fogo selvagem. Segundo a entrevistada, essa doença (pênfigo) provocou bolhas na pele que se espalharam pelo corpo e arrebentaram, deixando-a em carne viva. “Minha mãe gritava de dor, de tanto que aquelas feridas ardiam.” Conforme relatos da entrevistada, dona Maria foi levada para ser tratada em um Hospital em Campo Grande. “Minha mãe foi levada para lá embrulhada em folhas de bananeira, pois seu corpo não tinha mais pele; era só ferida.” Lá permaneceu por um período de seis meses em tratamento e plena recuperação. Sobre a pronta recuperação materna, declarou: “Graças a Deus, ela sarou e pôde voltar para casa.” 


Outras colocações e a casinha

Com a perda paterna, a doença da mãe e o rompimento do contrato com os Assuê, a família consegue ‘colocação’ próxima ao perímetro urbano. Na efervescência das discussões entorno da emancipação político administrativa de Tangará da Serra, foram trabalhar nas terras de João ‘Queima-Pé,’ na beira do córrego que, hoje, abastece a cidade, e tem a mesma alcunha – ‘Queima-Pé’ – onde se estabeleceram para cultivar em terras já amansadas. “Foi a primeira vez que fomos trabalhar em uma terra que não precisamos derrubar, limpar para, depois plantar,” informou. Trabalhando nesta propriedade, conseguiram ganhar o suficiente para comprar um terreno no, hoje, Jardim Esmeralda, onde construíram uma casa de casqueiro. “A gente ia à Serraria do seu Stello buscar casqueiro para cercar a casa. O casqueiro é a parte da madeira que é cortada para acertar as toras para tirar tábuas, caibros, vigas, mata-juntas. Então, com aquele material de refugo, construímos nossa primeira casa, e continuamos a trabalhar na roça... Naquela época, décadas de 70 e início da de 80, aqui na vila tinham algumas casas boas (de tábua); o resto era tudo barraco fechado com casqueiro.” Iracema Ribeiro relatou que trabalhou na lavoura de café, na propriedade de João Diogo. Também trabalhou em viveiro no preparo de balainhos para produção de mudas de café. Seus irmãos, quando jovens, foram trabalhar com silagem, carga e descarga de caminhões. Entre 1984 a 1989, Iracema Ribeiro trabalhou na Escola Pedro Alberto Tayano na manutenção da infraestrutura escolar. “Comecei a trabalhar na escola na primeira faxina. Fomos nós quem fizemos a limpeza da escola para receber os primeiros alunos. Naquela época, a água para a escola era difícil, a gente levava as vasilhas para serem lavadas no córrego Figueira. Foi um trabalho prazeroso; melhor que trabalhar na roça.” 


Os momentos de lazer e recreação

“À medida que a gente foi crescendo, fomos fazendo amigos. Meus irmãos aprenderam a jogar bola. Eles jogaram na Ponte Preta, o time da Esmeralda, que era também chamado de time da Macaca porque seus jogadores eram negros e também porque este animal é a mascote da Ponte Preta Sport Club. Então, a gente ia para outras comunidades, amontoados em um caminhão para assistir jogo: Progresso, Joaquim do Boche, São Jorge; para nós, à época, aquilo não era perigoso. Era divertido.” Nem só de futebol foram feitos os momentos juvenis entre as décadas de 70 e de 80 na periferia tangaraense; a religiosidade e os encontros fraternos eram recorrentes nos finais de semana. Iracema relata que, aos sábados iam para a reunião de grupo de jovens, na igreja, e depois iam para o baile, animado à sanfona, zabumba e reco-reco, que seu Mário fazia na beira do campo; ele tinha um barracão coberto de sapê e era lá que a gente reunia para dançar, conversar, paquerar. Outros momentos marcantes dessa época eram os banhos na cachoeira e no poção do Queima-Pé: “A gente acertava com os amigos e as amigas e íamos aquele mundaréu de gente para a beira do córrego... A gente gostava muito da cachoeira,” relatou. 


As primeiras letras

Iracema Ribeiro afirmou que passou a frequentar escola com mais de dez anos de idade. “Quando a gente veio trabalhar com João Queima-Pé, entre 1974 a 1978, passamos a ir para a escola. Saíamos lá do Queima-Pé, abaixo da cachoeira, e íamos caminhando, cerca de quarenta minutos, até a escola que ficava no sítio do seu Zequinha, pai do Zé da Pinta. Quanto a gente chegava em casa, comíamos e íamos para a roça trabalhar. A gente, meus irmãos e eu, teve pouco estudo; aprendemos a escrever o nome, a fazer algumas contas e ler alguma coisa. Só depois de grande é que eu conclui o ensino médio.”


Coisas da infância 

“Quando a gente mudou para o Queima-Pé, íamos para a cidade à pé. Uma vez por mês a gente acompanhava o meu avô e a minha avó  para fazer compra no centro. Quando voltávamos, as mulheres e as crianças traziam os pacotes menores. Sobrava para o meu avô trazer o grosso da compra nas costas. Era um saco cheio de coisas para a gente comer durante o mês que meu avô carregava; ele era um homem muito forte. Naquela época não tinha ônibus.... nem estrada que prestasse tinha... na época chuva, tinha muito atoleiro nesse caminho,” declarou Iracema, enfatizando as aventuras vividas nesse percurso para buscar na cidade o que roça não oferecia.


A esperar

Em seu jeito simples, rodeada por plantas, animais – três cães – e sobrinhos, Iracema Ribeiro divide seu tempo entre uma e outra diária que faz para manter a pequena casa, que divide com a tia – Madalena. Quanto perguntada sobre Tangará da Serra, declarou: “Eu acho que essa terra é uma benção. Mesmo a gente sendo pobre, com alguns problemas de saúde, morando na periferia, eu espero arrumar minha casinha: rebocar, pintar, colocar piso; e uma mobília. Nossa família ajudou a construir a riqueza dessa cidade, e temos tão pouco.” 



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