Diário da Serra

Olívio de Lima: um homem sonhador e audaz

Fabíola Tormes / Redação DS 05/09/2019 Memória

Buscando dias melhores, com toda a família, ele desbrava Tangará da Serra

Olívio de Lima e Dirce da Silva Queiroz de Lima, em Tangará

Olívio de Lima: um homem sonhador e audaz

Olívio de Lima, nasceu em 25 de abril de 1924, no município de Iepê, no Estado de São Paulo. Sonhador e audaz, ele iniciou sua vida e família em sua pequena cidade natal (hoje com pouco mais de 8 mil habitantes), localizada no Oeste Paulista.


Em Iepê casou-se com Dirce da Silva Queiroz de Lima, com quem teve seis filhos, sendo um adotivo: Maria José de Lima (falecida ainda pequena), Lázara Lima de Araújo, Paulo Manoel de Lima (falecido em 19 de setembro de 1981, em Tangará), Celso Manoel de Lima, Teodoro Manoel de Lima (falecido em 1969, com apenas 11 anos, em São Paulo) e Ricardo Ferreira. “Tínhamos um pequeno sítio lá em Iepê, pequeno mesmo, e meu pai trabalhava também num táxi, era taxista”, relembra Celso Manoel de Lima, conhecido como Celso da Paraíso, quem nos conta a história da família.


Buscando dias melhores, a família, com toda a mudança e sonhos, segue em 1964 para o norte do Paraná, mais precisamente para Cruzeiro do Oeste, onde permaneceram até início de 1970, quando então se mudaram para Mato Grosso. “Naquela época o Paraná estava começando e meu pai dizia ‘se a gente quer crescer na vida, nós temos que enfrentar’. Assim fomos todos para o Paraná. Ficamos em Cruzeiro do Oeste, até que ele falou ‘agora Mato Grosso é o tchan da história’. Perguntou a todos nós se queríamos vir junto e na hora todos os irmãos ficaram entusiasmados. ‘“Vamos quando? Vamos quando?’”, relembrou, com os olhos brilhando, ao recordar o momento.


“Aí reunimos tudo e viemos”. Todos juntos, dentro de uma kombi azul, para uma viagem rumo ao ‘Paraíso’. “Eu era moleque… Tem gente que lembra dia, mês, hora, ano, mas eu não lembro nada disso, pois estava encantado com Mato Grosso, mas a única coisa que me lembro é que tivemos um pequeno probleminha para subir a serra e ficou registrado em minha memória”, brinca Celso. Naquela época, a dificuldade para subir a Serra Tapirapuã era vivida por todas as famílias que, na maioria das vezes, tinham que descer dos carros e caminhões, e fazer o trajeto a pé.


Porém, conta Celso Lima, a vinda de fato para Tangará demorou uns anos. Primeiro o pai, Olívio de Lima, veio ao município para conhecer e ver possíveis terras, depois para efetuar a compra da fazenda, novamente para construção da casa onde moraram durante anos e, finalmente, a mudança. “Quando vim aqui pela primeira vez, voltando para Cruzeiro falei: ‘Mãe, a lua de lá é uma coisa impressionante. Lá a gente lê jornal de noite, a luz da lua’. A minha mãe debochou de mim, mas quando mudamos para cá, no dia em que deu uma lua bonita, chamei minha mãe e li um jornal para ela, no escuro, somente com a luz do luar”, recorda. “E ainda hoje é possível fazer isso. A lua é a mesma, há 50 anos”.


Em Tangará da Serra encontram o ‘Paraíso’

A história da família Lima com Tangará da Serra começou a ser escrita em 1969, quando Olívio de Lima veio para Mato Grosso para comprar uma pequena terra. “O dinheiro que meu pai tinha era curto, não conseguia comprar terra de cultura. Então, o que tinha? Cerrado. E cerrado aqui, naquela época, eles davam de graça. Ninguém queria, porque não produzia nada, nem calango. Mas meu pai veio e comprou só cerrado. Falavam ‘veio um paulista doido e comprou só cerrado’. E compramos, fomos lutando e hoje tenho certeza de que meu pai deu uma acertada danada”, conta o filho Celso Manoel de Lima, ao recordar a compra da Fazenda Paraíso, em que 90% dela era cerrado.


Depois da negociação fechada, Olívio de Lima voltou para o Paraná e nos anos que seguiram, 1970 e 1971, voltou a Tangará para construir uma casa de madeira – que até hoje guarda a história da família Lima.


Já instalados na terra dos Tangarás, para se manterem, a primeira ideia era de trabalhar com gado, mas foram mudando ao longo dos anos. “(…) Quando chegamos aqui, não havia lavoura mecanizada e eu não sei onde meu pai viu lavoura mecanizada, que falou que ia mecanizar aqui também. Pregamos pau, trator derrubando, pondo calcário (…) e os outros viram que o cerrado produz, que é bom também. Plantávamos arroz e isso virou o boom de Tangará e todo mundo começou a mecanizar e Tangará pegou embalo (...) Isso foi entre 72 e 74”.


Em Tangará, a história de Olívio de Lima foi escrita na Fazenda Paraíso, localizada a Rodovia MT-358, Km 8, Distrito de Progresso, local onde até hoje está a casa de madeira que acolheu a família paulista – pais, filhos e avó Maria Madalena de Souza. Todos em busca de um futuro promissor, que Tangará da Serra prometia. “Aqui fomos vivendo, até que meu pai faleceu. Moleque ainda, fomos tocando a fazenda, com minha mãe junto. Depois faleceu o irmão, avó e mãe (…) mas continuamos sonhando, até hoje”. O irmão Paulo Manoel de Lima morreu em 19 de setembro de 1981, a avó Maria em 23 de outubro de 1983 e a mãe, Dirce da Silva, morreu em 14 de janeiro de 1991.


Dos filhos, Celso Manoel de Lima e Ricardo Ferreira ainda moram em Tangará da Serra, porém, somente Celso, que aqui chegou adolescente, segue os sonhos do pai. Lázara Lima de Araújo mora em Cuiabá. “Aqui cresci, casei, formei minha família e, se Deus quiser, enterrarei minha ‘carcaça’”. Hoje ele trabalha na criação de gado, além de arrendar parte da fazenda para plantios diversos.


Celso Manoel de Lima é casado com Sandra Maria Rosolem Lima há quase 35 anos. Tem três filhos – Janaina, Samara e Celso Júnior, e uma neta, a pequena Cecília.

Olívio de Lima morreu em 1979, em trágico acidente

Todos sabemos que a morte faz parte da vida, mas ela consegue sempre nos surpreender. Assim, no dia 5 de maio de 1979, aos 54 anos, o visionário Olívio de Lima morreu em um trágico acidente de avião, fretado, para locomoção de Cuiabá para Tangará da Serra. “O avião em que meu pai estava bateu em um CB [um cúmulo-nimbo – um tipo de nuvem caracterizada por um grande desenvolvimento vertical] e caiu perto de Porto Estrela”, lamenta Celso, ao destacar que, mesmo com sua partida precoce, seu pai conseguiu em poucos anos revolucionar a pequena e em ascensão, Tangará da Serra. “Meu pai mostrou como se faz agricultura mecanizada. Mostrou uma opção, o caminho para erguer a cidade (…) Nós contribuímos para o desenvolvimento de Tangará. A nossa parte fizemos e ainda estamos fazendo”.


Assim, por sua audácia e coragem, o nome do pioneiro Olívio de Lima foi eternizado em uma das principais ruas de Tangará da Serra – a Rua 4, por meio do Projeto de Lei nº 456, de 1989.



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