Diário da Serra

José Corsino e Etelvina Gomes Corsino: Pioneiros eternizados na história de Tangará

Fabíola Tormes / Redação DS 12/09/2019 Memória

“As coisas tangíveis tornam-se insensíveis à palma da mão. Mas as coisas findas, muito mais que lindas, essas ficarão”. (Memória, de Carlos Drummond de Andrade)

Etelvina e José Corsino, em 1979

José Corsino e Etelvina Gomes Corsino: Pioneiros eternizados na história de Tangará

A ocupação da região onde está inserido o Município de Tangará da Serra, segundo o doutor em História e Mestre em Geografia (UFMT), Marcos Amaral Mendes, foi um desdobramento da Marcha para o Oeste, política de interiorização do Governo Vargas durante o Estado Novo, e dos incentivos concedidos pelo Governo de Mato Grosso, a partir da segunda metade da década de 1940, para a ocupação do Estado.


Para isso, na década de 1950 o Vale do Sepotuba foi percorrido por agrimensores do Departamento de Terras e Colonização para demarcar glebas pertencentes a adquirentes de títulos provisórios de terras, sendo então a colonização da área feita através de propagandas. Já em 1960, Joaquim Oléas e Wanderley Martinez fundaram a Sociedade Imobiliária Tupã para a Agricultura (SITA), empresa responsável pela colonização de Tangará da Serra a partir do loteamento das glebas Santa Fé, Esmeralda e Juntinho.


Foi nesta época que o mineiro, José Corsino, foi ‘apresentado’ para Tangará da Serra, cidade em que a família se formou, cresceu e eternizou sua história, como pioneiros e desbravadores – em outubro de 2019 completa 57 anos da chegada da família Corsino a Tangará da Serra.


Nascido em 18 de junho de 1909, em Ubá, Minas Gerais, José Corsino foi casado com Etelvina Gomes Corsino, que nasceu em 18 de agosto de 1914 em Santo Antônio de Pádua, no Rio de Janeiro.


Eles se casaram em 31 de julho de 1935, em Mimoso do Sul, no Espírito Santo, cidade onde nasceram os dois primeiros filhos do casal: Moisés Corsino (nasceu em 28 de julho de 1936. Atualmente reside em Nova Brasilândia-RO) e Nair Corsino de Jesus (nasceu em 27 de agosto de 1938. Atualmente reside em São João da Boa Vista-SP).


Já no Paraná, a família cresceu. Em 23 de abril de 1944, em Ibiporã, nasceu Talita Corsino; em 31 de maio de 1946, em Jataizinho, chega Samuel Corsino; e, em 13 de novembro de 1948, também em Jataizinho, nasce o caçula, Silas Corsino. Atualmente, Talita reside em Bauru-SP e Silas em Curitiba-PR. Já Samuel Corsino faleceu em 25 de setembro de 1992, em Tangará da Serra.


José Corsino faleceu em 25 de setembro de 1986 e Etelvina em 17 de fevereiro de 2002, ambos em Tangará da Serra, onde permanecem até hoje. Seus restos mortais descansam no Cemitério Jardim da Paz.


JOSÉ CORSINO: Homem de garra com espírito desbravador

Em 1940, com dois filhos (Moisés e Nair), e a esposa Etelvina Corsino, saíram de Mimoso do Sul, no Espírito Santo, com destino ao Norte do Paraná (Londrina), em uma longa e penosa viagem de trem até chegarem ao seu destino. Nesse local iniciaram a sua primeira luta em busca de uma pequena área de terra para dar segurança a sua família.


Em 1954, José Corsino empreendeu uma nova viagem com sua família, agora com cinco filhos (além de Moisés e Nair, Talita, Samuel e Silas, nascidos no Paraná), para o Noroeste do Estado do Paraná, mais precisamente para o município de Mirador, próximo a Paranavaí. Lá permaneceram por oito anos, até se mudarem para Mato Grosso.


Essa mudança começou a ser vislumbrada em 1960, quando o patriarca foi procurado por um corretor de terras, contando sobre Mato Grosso e de um local que passaria a se chamar Tangará da Serra, a dois mil quilômetros de distância de Mirador. “Depois de muita insistência, meu pai embarcou nessa aventura – uma penosa viagem de mais de 15 dias em um Jeep DKV”, relata Silas Corsino, ao afirmar que chegando aqui, seu pai nada encontrou, a não ser campos e matas. “Ele não gostou do lugar nem das terras e após voltar afirmou que não compraria nada naquele lugar”.


Porém, após conversar com a família, o irmão mais velho – Moisés Corsino – e o cunhado Valdir de Jesus decidiram fazer a mesma viagem em 1961, com o mesmo corretor para conhecer o local onde seria essa nova cidade. “Voltaram decididos a comprar uma pequena propriedade”, recorda Silas, ao afirmar que o pai, após conversar com a família, tomou a decisão de juntos adquirirem uma propriedade maior e enfrentar as lutas que havia de advir.


“Decisão tomada, compra efetuada, vendemos nossas propriedades e em 24 de setembro de 1962 empreendeu-se a última aventura rumo a Tangará da Serra onde chegamos em 2 de outubro de 1962”.


A viagem e chegada em Tangará da Serra

Para fazer a viagem de dois mil quilômetros, em oito dias, de Mirador a Tangará da Serra, contrataram um caminhão Mercedez Benz, e em quatro famílias saíram em uma viagem chamada “Pau de Arara”. “Dormindo ao relento, cozinhando no improviso, nos banhando em águas correntes, sujeitos a chuva e sol, viajando em estrada poerenta e todos os riscos possíveis que uma viagem desse tipo poderia oferecer”, rememora o caçula da família, Silas Corsino, que na oportunidade estava com quase 14 anos.


Segundo ele, o pior trecho da viagem foi a balsa para atravessar o Rio Paraguai, em Barra do Bugres. De lá até Tangará não havia estrada, e sim um caminho. “Foi o primeiro caminhão a superar a subida da Serra, trecho amedrontador! Não havia mais caminho, mas apenas dois trilhos no campo que marcava por onde seguir”.


“Chegamos, enfim, sem fogos”, brinca, ao relembrar que em toda a região só haviam 12 famílias, das quais cinco moravam na cidade: Jonas Lopes e família; Francisco Dantas e família; Joaquim Aderaldo e família; Antônio “Gato” e família e João “Bufinha” e família. Algumas das famílias que residiam no sítio eram: Arlindo Lopes e família, José “Japonês” e família, Sebastião de Oliveira e família (sogro do “Tonhão” e Darci) e João Cardoso e família.


2 de outubro de 1962 – “Chegamos em Tangará”

“Chegamos em Tangará da Serra em 02 de outubro de 1962. Ficamos por um tempo na sede, em um barracão emprestado pelo senhor Jonas Lopes, até que fizéssemos a queimada e construíssemos nosso rancho no sítio. Digo isso porque era um barraco de tábuas de Mulungu (um tipo de paineira), coberto com tabuinhas e iluminado pela luz do luar. Feito isso mudamos para o sítio que ficava a quatro quilômetros da sede, Estrada da Reserva, Córrego Palmital. Lá encontramos nosso vizinho, Sebastião de Oliveira, família finíssima e pessoas muito amáveis. Recomeço muito sofrido, sem nenhum dinheiro e isolados do mundo! Selva a perder de vista”, conta Silas. “Sair para algum lugar, era impossível. Só trabalho sob sol e chuva. Abandonei a escola, sonhos e amigos para junto da família construir uma nova história. Ficamos com esse sítio de 40 alqueires por quatro anos e que tinha um solo ruim para a agricultura”.


Mudança para Córrego das Pedras 
Em 1966, com o descontentamento pelas ‘terras ruins’, veio então uma nova mudança. “O senhor Hortolani (administrador de Tangará), então já com alguns recursos, ofereceu ao meu pai uma nova área de terra de igual tamanho no Córrego das Pedras e uma casa grande na sede, que prontamente foi aceito”.


“Começamos tudo de novo. Eram 15 quilômetros de estrada ruim, e dois quilômetros de trilha no meio da mata. Tudo era carregado nas costas até fazer a derrubada, esperar para a queima e construir o barraco. Neste período, ficávamos nós quatro (meu pai e os três filhos) semanas e semanas no mato. Minha mãe ficava sozinha na pensão com três crianças que tivemos de criar (Dejanira, Raquel e Odete). Eram filhas do Sr. José Diogo dos Santos, então empregado no primeiro sítio, pois a esposa havia morrido no parto do quarto filho”.


Anos de nuvens escuras, febre amarela, malária, onde centenas de mortes ocorreram. A irmã, Nair e seu marido Valdir, foram embora para São João da Boa Vista-SP, em 1963, pois ele havia ficado muito doente. A outra irmã, Talita Corsino, casou-se e logo voltou com seu marido para o Paraná. Anos depois, Talita e o marido retornaram para Tangará.


O despertar do Tangará

A partir de 1967, Tangará começa a despertar. Já com razoáveis comércios, escritórios, serrarias, máquina de beneficiar arroz e escola, dando sinais de desenvolvimento.


Em 1969, iniciou-se a primeira turma do então Ginásio Estadual de Tangará da Serra (GETS), que tinha mais ou menos 15 alunos. “Tínhamos aulas em uma garagem que improvisamos como sala de aula. O primeiro diretor foi o Pastor Albino Ferraz e o secretário José Onofre Batista da Costa (Jôta B). Em 1970 passamos a estudar em uma sala cedida pelo colégio Manuel Pinheiro”.


Tangara já despertava interesse por grandes empresas. A agropecuária toma corpo. A independência política desperta o sentimento dos tangaraenses. “Em 1972, eu já era professor primário e estava concluindo o Ginásio. Começamos a luta ferrenha para a criação do segundo Grau, que junto com outros colegas e muitas viagens à Rosário do Oeste e Cuiabá conseguimos com êxito, abrindo assim, novos horizontes para o ensino em Tangará da Serra”, se entusiasma Silas Corsino, que, em Tangará, juntamente com seus pais e irmãos, foi agricultor, carroceiro, empregado em comércio e escritório e professor. “Lutando incessantemente para o progresso de Tangará. Meus pais sempre lutando sem descanso, pois apesar das terras, a Pensão Mineira garantia parte do sustento da família”.


A partida

Em 1973, convencido por amigos e pais, Silas Corsino permaneceu em Tangará e cursou o primeiro ano do segundo grau. “Em janeiro de 1974, tomei a grande decisão: partir em busca de novos caminhos, realizar sonhos, enfrentar o desconhecido e lutar com a mesma garra dos meus pais na conquista de novas vitórias. Eu já tinha dado a minha contribuição à Tangará.Hoje tenho lembranças, saudades e alegria de ter participado do nascer e o crescer de uma linda cidade”.


Apesar da idade, os pais ficaram trabalhando na Pensão até 1979, quando José Corsino teve o primeiro AVC, o deixando sem fala e movimento, vindo a falecer em 25 de setembro de 1986, em Tangará da Serra. “Após o falecimento do meu pai, minha mãe dependia do cuidado dos filhos. Ela permaneceu em Tangará até o falecimento do meu irmão Samuel, em 1992. Após isso, passou a estar fora de Tangará, pois os outros filhos residiam no Estado de São Paulo, Curitiba e Rondônia. Assim ela passou a levar sua vida, uma temporada em cada lugar, mas sempre que possível, voltava à Tangará para rever os amigos”.


Em 1999, ela decidiu voltar definitivamente para o lugar que tanto amava, pois lá queria terminar os seus dias e ser sepultada junto ao seu amado, com quem teve sua linda história. Etelvina Gomes Corsino faleceu em 2002 e foi sepultada junto ao seu companheiro de vida, com quem permaneceu casada por 51 anos.


Ruas que se cruzam, eternizando a contribuição da família Corsino

Marcando a contribuição da família ao município tangaraense, a família Corsino eterniza seus nomes em três diferentes ruas.


O patriarca da família – José Corsino – eterniza seu nome em uma das principais ruas de Tangará da Serra. Por autoria do vereador Luiz Reis Garcia (Projeto de Lei nº 24, de 5 de abril de 1989) e sancionada pelo então prefeito Manoel Ferreira de Andrade, a movimentada Rua 12 passou a se chamar José Corsino.


Vinte e três anos depois, através da aprovação do Projeto de Lei nº 42/2012, de autoria do então vereador Roque Fritzen, a Rua 29, no Jardim Shangri-lá, em toda sua extensão, recebeu o nome de Rua Etelvina Gomes Corsino.


Antes, porém, em 1996, a Rua  27 dos bairros Jardim Shangri-lá e Rio Preto, passou a se chamar Samuel Corsino (Projeto de Lei nº 34, de 1996, por autoria do vereador João Batista de Morais).


“Isso muito me orgulha de saber que somos parte da história de Tangará. Confesso que sou paranaense, porque aqui nasci, mas meu coração pertence a Tangará, pois boa parte da minha vida doei a este lugar”, finaliza Silas Corsino, ao agradecer, primeiro a Deus, por poder contar a história de lutas, dor, doenças, lágrimas, vitórias, sorrisos, amigos, sonhos, saídas e chegadas; aos amigos e colegas, que juntos partilharam de momentos alegres (outros nem tanto), sonhos, lutas, projetos e trabalho; e também aos pais, por serem dignos, honestos, honrados, guerreiros, sábios, justos, amigos e exemplo a serem seguidos com orgulho.


 



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