Diário da Serra

NILSON DALLA PRIA: A cruzada de Andradina à Tangará da Serra

Paulo Desidério / Especial DS 27/09/2019 Memória

Jovem veio para Tangará com a família ao final da década de 70 e morreu antes de completar 18 anos

Memória

Em 24 de junho de 1979, a família Dalla Pria chegava em Tangará da Serra, vinda da distante cidade de Andradina, no Paraná. Após quatro cansativos dias de viagem num caminhão de mudança, Nelson Dalla Pria, esposo de Maria dos Santos Dalla Pria, desembarcaram no distrito de São Jorge, na zona rural do ainda jovem município mato-grossense. Junto do casal estava seus filhos Nilton Dalla Pria, ainda criança de colo, e Nilson Antônio Dalla Pria, que tinha apenas 4 anos de idade.

 

O começo em solo tangaraense não foi nada fácil para a família. Um incêndio intencional com objetivo de derrubar a mata e limpar a área para plantio, prática comum à época, acabou dando errado e se tornou um grave problema. Muitas das coisas que os Dalla Pria trouxeram na mudança se perderam, como pertences e até mesmo roupas que foram consumidas pelo fogo incontrolável.

 

“Entrei dentro de casa, peguei a malinha dos documentos, peguei os dois meninos pelos braços e saímos da queimada. Era uma mata muito grande, de 10 alqueires, e o meu velho no meio da mata sem eu saber onde ele estava”, relata Maria, ao relembrar o quão desesperador foi passar pela situação.

 

Só com a roupa do corpo, a família ficou a ver navios. Com tudo acabado pelo fogo, não restou alternativa a não ser seguir para a Triângulo, onde um irmão de Maria residia. Assim, os quatro foram acolhidos. A comunidade ajudou a família doando roupas, mesmo que algumas delas ficassem apertadas ou largas demais.
 

“Minha cunhada pegou uma camisa do meu irmão e deu para meu marido vestir. Outra roupa ela pegou e costurou no jeito para o meu corpo. Aí nós fomos para Tangará e com a reservinha que nós tínhamos no banco, compramos um colchão, uma panela e fizemos um ranchinho de madeira lá na São Jorge”, narra, ao relembrar que a estrutura tinha somente um cômodo, com um fogão a lenha.

 

Aos poucos, a chuva recuperou toda a mata que havia queimado. Foi isso que ajudou a família a “descorvarar” a mata à base de machado e serra elétrica. Os meninos ficavam embaixo de uma figueira, dentro de um caixote, enquanto Maria e Nelson trabalhavam. Com o esforço, conseguiram plantar feijão, milho, entre outros cultivares.

 

“Só de milho, ‘tiremos’ dois caminhões para Tangará e aí começou a fartura de Deus”, destaca Dona Maria.

 

Sacas e mais sacas de grãos eram colhidas e comercializadas, sendo que desde cedo, os filhos Nilton e Nilson ajudavam, compartilhando o valor do trabalho, mas sem deixar de lado duas coisas indispensáveis na vida de uma criança: brincadeiras e educação.

 

“Eles brincavam. Sempre dei a hora de eles brincarem. De manhã cedo quanto eles levantavam, tomavam o café da manhã e iam para a escola. Chegavam da escola, almoçavam, descansavam. Sempre cuidei deles. Sempre fui caprichosa com meus filhos, fazia o que eles precisavam comer, um bolo, um pão (...). Mas eu também botava para trabalhar porque aquele que trabalha, Deus abençoa”, relembrou, aos risos.

 

E foi com suor e dedicação que a família paranaense foi cultivando grãos e, ao mesmo tempo, amor por Mato Grosso e Tangará da Serra.

 

Nilson Dalla Pria: trabalhador desde cedo

Assim como seu irmão mais novo, Nilton (hoje vereador e popularmente conhecido como Niltinho do Lanche), Nilson Antônio Dalla Pria pegava no batente desde cedo, muito por conta dos valores transmitidos pelos seus pais. Para se ter ideia, aos 14 anos de idade, o jovem Nilson já possuía sua própria lavoura e um pedaço de terra para ele mesmo cuidar.

 

Niltinho pontua que a convivência com o irmão era bastante saudável e que os dois dividiram muitos momentos juntos, desde as refeições, trabalho em conjunto, até as diversas vezes em que os dois iam a pé, todos os dias, para a escola Petrônio Portela, onde estudavam.

 

O amor entre os integrantes é marca registrada na família Dalla Pria, como ressalta o hoje vereador.

 

“Ele era um ano e sete meses mais velho que eu. A gente sempre foi da luta. A gente nunca abandonou o pai e a mãe em tudo que a gente fez na vida. Se ia para a roça, a gente cuidava das galinhas, dos porcos, apartava os bezerros para dar o leite do dia a dia. Sempre estive agarrado com a família, como estou até hoje”, conta, ao memorar com saudade o irmão.

 

Por meio do projeto de Lei Nº 8 de 2015, na Câmara Municipal de Tangará da Serra, Niltinho conseguiu homenagear seu único irmão. Assim, deu-se novo nome à antiga Alameda das Acácias no bairro Morada do Sol, que passou a se chamar Rua Nilson Antônio Dalla Pria.

 

Morte aos 17 anos: uma partida precoce

Antes mesmo de completar a maioridade, Nilson Antônio Dalla Pria já havia trabalhado muito na vida. Já morando na zona urbana de Tangará da Serra com os pais, em uma residência no Jardim Shangri-Lá, o jovem trabalhava na antiga concessionária de energia elétrica em 1992, a Rede Cemat.

 

De bicicleta, ele fazia entrega das contas nas casas dos tangaraenses. Raçudo, percorria uma longa extensão para fazer o seu trabalho. Eis que no triste 23 de outubro de 1992, por volta das 18 horas, que a trajetória iniciada em 04 de julho de 1975 terminou de maneira trágica.

 

Um caminhão Ford azul, que pertencia à Assistência Social, acabou atropelando o jovem trabalhador, que veio a falecer. O acidente aconteceu no cruzamento da Avenida Brasil com a rua Jaci Bohn. Dona Maria lembra com enorme tristeza do dia em que recebeu a notícia. Após ter passado mal, ela lembra que não conseguiu acompanhar o velório, nem o sepultamento do filho.

 

“Eu não vi mais nada, não posso falar mais nada. Foi feito o velório dele lá em casa e eu não vi mais nada. Levou ele para enterrar e eu não vi mais nada. Eu era muito agarrada com ele”, disse.

 

Segundo a mãe, o projeto que o garoto tinha para o futuro era o mesmo do pai: ser produtor rural e constituir família.

 

“O projeto dele era o caminho do pai dele. Ter um lugarzinho, plantar, colher. Ele também queria casar, ser igual o pai. Namorava e até hoje tenho cartinha de amor dele, lencinho de beijinho, tudo eu tenho. Ele era romântico, mas era muito querido, tenho tudo guardado”, recorda, carinhosamente.

 

Com o corpo enterrado no Cemitério Jardim da Paz, Nilson ganhou de seu pai uma árvore para proteger e fazer sombra em sua sepultura. A data de seu sepultamento é recordada sempre por ter sido um dia de tristeza, mas também pelo carinho que os muitos amigos tiveram com a família no último adeus.

 

“A maior lembrança do meu filho é que ele sempre estava comigo. A gente tinha admiração nele e ele tinha admiração em mim, na roça. Tudo o que a gente mandava fazer, ele fazia. Ele morreu que nem homem. Assim também quero morrer um dia, como homem”, declarou o pai Nelson, emocionado.

 

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