Diário da Serra

MEIO SÉCULO DEDICADO A ESTA TERRA, NESTA TERRA

Iolanda Garcia e Rodney Garcia 15/10/2019 Memória

Solto a voz nas estradas Já não quero parar Meu caminho é de pedra Como posso sonhar [...] (Milton Nascimento e Fernando Brant, 1967)

Fidelina Souza Matos da Silva (Dona Fia)

Meio século dedicado a esta terra, nesta terra

Migrante no próprio país

Fidelina Souza Matos da Silva (Dona Fia) é uma das muitas mulheres anônimas que dedicaram sua vida a cuidar dos filhos e do esposo, a trabalhar em terras alheias e aguardar a conclusão de seu ciclo com as mãos vazias e o coração cheio de sonhos ufanistas. No auge de seus setenta e sete anos, entre buscas, acertos e desencontros, rememora acontecimentos e explicações relacionadas ao processo de ocupação da nova fronteira agrícola que recebeu migrantes fugitivos da escassez de comida ocorrida em vários estados brasileiros, nas décadas de sessenta e setenta.

 
Nascida em 13 de fevereiro de 1942, na pequena Jacaraci – BA, nome de origem tupi-guarani (jacaracy: vertente ou manancial curto), casou-se, aos dezesseis anos, com Benedito Otávio da Silva (in memorian), na discreta Rinópolis – SP, Deste enlace, derivaram seis filhos (três homens e três mulheres), sendo quatro paulistas e dois mato-grossenses, nascidos em solo tangaraense. Após seu casamento, permaneceu por dez anos em terras paulistas.


Em busca de sonhos: a travessia 

O seu cunhado, José Soares, em 1968, veio para Tangará da Serra – MT, para derrubar mato nas terras de Hélio Tavares. “Meu pai e meu esposo ficaram para trás, colhendo café para os nossos patrões”. Reitera que o marido de sua irmã ficou deslumbrado com a produtividade dessa terra e, junto com a necessidade do patrão por mais mão-de-obra, voltou para Rinópolis – SP, no mesmo ano, e de lá “[...] viemos em sete famílias, distribuídas em cinco caminhões, para trabalhar nas terras de Hélio Tavares. Eram três caminhões com as mudanças e as ferramentas para trabalhar na roça; e dois caminhões cobertos de lona, onde ficavam as mulheres, as crianças, os homens e os idosos. A lona era para proteger a gente do sol quente, da poeira e servir de abrigo para dormirmos à noite. Foram cinco dias de viagem. A gente parava para comer farofa. Quem tinha algum dinheiro, comprava alguma coisa em uma dessas vendas à beira da estrada. Quem não tinha, comia farofa e bebia água. Cada família tinha sua lata de farofa. Tinha farofa de carne bovina. Tinha farofa de carne de frango. Tinha farofa de carne de porco. Parávamos para tomar banho no rio, fazer as refeições, lavar roupa, ‘ir ao mato’ e dormir. De madrugadinha, a gente comia farofa, bebia café e partia. Rodava até certas horas; parava, e começava tudo de novo. Foi assim até chegarmos a Tangará da Serra”.


A entrevistada relatou que, ao chegar ao ‘pé da serra’, não soube precisar o dia do mês de agosto, os caminhões trucados não conseguiam subir, tiveram que tirar as rodas do truck, descer a metade das mudanças para que os caminhões fizessem o percurso da Serra Tapirapuã. “Parte do pessoal ficou lá no ‘pé da serra’ cuidando das coisas, enquanto a outra subia, seguindo à pé, para descarregar a parte da mudança e esperar aqueles caminhões descerem para buscar o resto das coisas. Parecia uma eternidade aquele tempo de espera. O medo tomava conta da gente. A gente imaginava um monte de coisas ruins: do caminhão caindo à onça atacando o pessoal que ficou cuidando das mudanças.”


 Mas, conforme a entrevistada, mais que a baldeação, o desafio era subir aquela serra, passar na beiradinha daqueles precipícios sobre os quais elevavam a estrada. Tudo mata lá em baixo. De um lado e de outro da estrada, uma árvore maior que a outra. Dona Fidelina lembra que estava grávida de oito meses, com aquele barrigão, a qualquer momento poderia dar a luz ao Claudinei, e teve que subir tudo aquilo caminhando. Vencidos a apreensão e o medo, chegaram a Tangará da Serra e foram, as sete famílias, para a Comunidade São Paulino, trabalhar na abertura e cultivo das terras de Hélio Tavares, onde permaneceram por dois anos. 


Os dissabores iniciais

Conforme a entrevistada, em Tangará da Serra, à época (1968), tinha a farmácia do Joaquim Surdo. Posteriormente, veio o Herotildes da farmácia. Umas e outras casas de madeira ou de palmito, cobertas com tabuinhas ou sapê. As compras eram feitas no armazém do Zé de Melo; a conta só ia crescendo. Quando da colheita, a gente vendia os mantimentos – arroz, feijão, milho – e, com o dinheiro, pagava o mercado. Relatou ainda que, enquanto o marido trabalhava na roça, ainda na Comunidade São Paulino, ela e o filho mais velho, Sérgio Roberto, vinham ao centro fazer as compras para o mês e as levavam nas costas, caminhando mais de dez quilômetros com aquela carga. 


“A gente tinha casa que não era da gente. A gente tinha lugar para trabalhar, mas aquele lugar não era da gente. Aquela terra não era da gente. Só a semente que a gente plantava era da gente; a colheita, a metade era do patrão. O que a gente tinha? Coragem para trabalhar! Entrávamos, com nossos corpos e nossa saúde, naquelas matas para roçar, derrubar, desencoivarar e queimar aquele mundaréu de madeira. Tinha dia que a gente só tinha mandioca, palmito ou mamão verde cozido para dar de comer às crianças. O meu marido ia trabalhar na roça e comia mamão maduro para saciar a sua fome. A carne que a gente comia era de bicho do mato ou de peixe. Da gente, era só o medo da fome, da onça, da cobra, da doença e da morte; a esperança e a fé nos mantinham de pé. Os nossos filhos eram nossa motivação. Por eles e com eles, não deixávamos o desânimo vencer. Esse perrengue durou pouco tempo; até a primeira colheita. Mas, com a malária, foram dias de muita aflição e de necessidades”.


Os dissabores iniciais

Conforme a entrevistada, em Tangará da Serra, à época (1968), tinha a farmácia do Joaquim Surdo. Posteriormente, veio o Herotildes da farmácia. Umas e outras casas de madeira ou de palmito, cobertas com tabuinhas ou sapê. As compras eram feitas no armazém do Zé de Melo; a conta só ia crescendo. Quando da colheita, a gente vendia os mantimentos – arroz, feijão, milho – e, com o dinheiro, pagava o mercado. Relatou ainda que, enquanto o marido trabalhava na roça, ainda na Comunidade São Paulino, ela e o filho mais velho, Sérgio Roberto, vinham ao centro fazer as compras para o mês e as levavam nas costas, caminhando mais de dez quilômetros com aquela carga. 


“A gente tinha casa que não era da gente. A gente tinha lugar para trabalhar, mas aquele lugar não era da gente. Aquela terra não era da gente. Só a semente que a gente plantava era da gente; a colheita, a metade era do patrão. O que a gente tinha? Coragem para trabalhar! Entrávamos, com nossos corpos e nossa saúde, naquelas matas para roçar, derrubar, desencoivarar e queimar aquele mundaréu de madeira. Tinha dia que a gente só tinha mandioca, palmito ou mamão verde cozido para dar de comer às crianças. O meu marido ia trabalhar na roça e comia mamão maduro para saciar a sua fome. A carne que a gente comia era de bicho do mato ou de peixe. Da gente, era só o medo da fome, da onça, da cobra, da doença e da morte; a esperança e a fé nos mantinham de pé. Os nossos filhos eram nossa motivação. Por eles e com eles, não deixávamos o desânimo vencer. Esse perrengue durou pouco tempo; até a primeira colheita. Mas, com a malária, foram dias de muita aflição e de necessidades”.


A malária

Nos anos de 1970 a 1971, a família Silva trabalhou nas terras do senhor João Queima-Pé, na região onde, hoje, está localizada a Estação de Captação e Tratamento de Água (ETA) que abastece a cidade. Nessa propriedade, as terras para cultivo já estavam abertas. “Só tinha uma juquira braba para roçar. Depois de roçada e queimada, era plantar as sementes e aguardar a colheita”, contou a entrevistada. Nesta propriedade, cultivaram arroz, feijão, milho e algumas criações, como, por exemplo, porcos e galinhas.


Neste mesmo período, certo dia, as crianças, ao chegarem ao córrego Queima-Pé, relatou à entrevistada, voltaram correndo para casa e a chamaram para ver a quantidade de peixe boiando no córrego: “era um mundaréu de peixe morto. Aquilo era de cortar coração! Eu nunca tinha visto tanto peixe morto. Dava dó!”. Refeito o susto da mortandade de peixe, vieram a morte de aves e pequenos animais: “Depois disso, a gente via pássaros e mais pássaros mortos; tudo soltando as penas, quase pelados. Macacos? A gente achava de monte, tudo morto, já com a pele derretendo... o animal acabava de morrer e a pele começava a derreter...”


Com o avanço da doença, da suposta doença, uma vez que havia a suspeita de que uma grande fazenda teria usado produtos químicos para desmatar, as pessoas começaram a adoecer, a perecer. Segundo a entrevistada, “o povo começou a morrer... Tinha dia que morria quinze pessoas... Lá em casa, adoeceram meu marido e meu filho mais novo... Foram mais de cinquenta dias, a gente pelejando com os dois... graças a Deus, sobreviveram. Teve sítio em que a família inteira foi colhida pela morte. Nessa época, na cidade, não entrava e não saia ninguém; a não ser ajuda médica e o deslocamento de pacientes para Cuiabá. Até o doutor Sebastião e uma enfermeira, que não lembro o nome, adoeceram; levaram os dois para Cuiabá, mas, não teve jeito”. 


Com a enfermidade do esposo, para diminuir a dívida junto ao comércio e continuar alimentando a família, dona Fidelina teve que desfazer de anéis, pulseiras, correntes e brincos. “Meu filho, era o único jeito da gente continuar a comer. Não tínhamos de onde tirar dinheiro; meu marido doente. As crianças todas pequenas e a dívida só crescendo; então, vendi minhas joias ‘para fazer comida’. Ou a gente fazia isso ou não tinha o que comer”. Vencida a doença, o esposo voltou a trabalhar e a situação financeira da família se normalizou.


Novas colocações: o cultivo do café

No ano de 1973, a família vai trabalhar nas terras de João Diogo Garcia, onde derrubaram cerca de dez alqueires para a cafeicultura. A entrevistada relatou que seu esposo, juntamente com mais dez peões, trabalhou no cabo do machado para colocar aquele mundaréu de árvores no chão para, em seu lugar, plantar café. Nesse período, as crianças eram incumbidas de levar água e comida para os homens que estavam na roça. “Os meninos mais velhos já trabalhavam na roça”, informou Fidelina. Conforme informações prestadas pelo seu filho, Sérgio Roberto, foram plantados 14.000 (quatorze mil) pés de cafés nessa área recém-derrubada. Enquanto a florada não chegava, entre as fileiras, a família cultivava arroz, feijão e milho. Essa nova atividade agrícola também foi na condição meeiro. Cuidavam da lavoura, colhiam e a metade da produção era destinada ao proprietário. Além da lavoura branca,  criavam porcos, galinhas e algumas vacas leiteiras. Nestas terras permaneceram por mais de vinte anos.


Considerações de dona Fidelina

A trajetória da família se resume em abertura de terras, a vencer a fome, a criar seis filhos, a admirar 12 netos e curtir 15 bisnetos. Seu legado não rendeu honrarias municipais. O trabalho do esposo, Benedito Otávio da Silva, amansar mato, não integra a memória do município; apenas familiares e amigos lembram seu legado, encerrado em 1997. Sua função matriarcal consistiu em preservar os valores da família ao longo de cinquenta e um anos dedicados a esta terra, cujo patrimônio se resume a uma modesta casinha na periferia de Tangará da Serra. Mas, o legado de sua mãe, Maria de Souza Matos (Maria Baiana, a parteira), caminha pelas ruas da cidade, uma vez que ela foi parteira por mais de 20 anos, entre 1968 e 1980; através de suas mãos, novos tangaraenses ganharam a luz e o calor deste solo, desta gente.



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