Diário da Serra

Jornalistas alertam sobre o perigo da desinformação criada para desqualificar o jornalismo

ANJ 18/10/2019 Geral
Geral

Jornalistas e especialistas no combate à desinformação digital alertaram nesta quinta-feira (17), em São Paulo, para os perigos do uso de tecnologia e das mídias interativas para a disseminação de mentiras, boatos, farsas e outras inverdades com o objetivo de desqualificar o jornalismo e o conhecimento científico e, com isso, manipular o debate público, ameaçando a democracia. A advertência foi um dos destaques do seminário DESINFORMAÇÃO: ANTÍDOTOS E TENDÊNCIAS, promovido pela Associação Nacional de Jornais (ANJ), dentro das comemorações de 40 anos da entidade, com o apoio da Google News Initiative, do jornal Propmark e da Unibes Cultural. Durante o encontro, também foram debatidos outros desafios da indústria jornalística, como a busca por mais receitas a partir de assinaturas digitais.

 

Na abertura do seminário, o presidente da ANJ, jornalista Marcelo Rech, destacou que o controle das comunicações e expressões não é o melhor caminho para o embate à desinformação, muito menos por parte de governos. O melhor antídoto à desinformação no curto prazo, assinalou, é valorizar e reconhecer o papel da imprensa profissional. No entanto, por buscar a verdade e o acerto, muitas vezes o jornalismo incomoda aqueles que têm seus interesses contrariados, frisou.

 

Há, segundo Rech, duas circunstâncias novas nos ataques ao jornalismo: a escala de reação instantânea que agora se vale do ecossistema digital para prosperar – com ofensivas coordenadas no Brasil e em muitas partes do mundo contra repórteres, colunistas, publishers e empresas de comunicação; e governantes autocráticos e até de democracias consolidadas em ataques sistemáticos à imprensa via redes sociais com o sentido de tentar remover coberturas inconvenientes para eles. “Vemos isso em toda parte, das Filipinas e Índia à Venezuela e Turquia, da África do Sul e Rússia aos Estados Unidos, passando é claro, pelo Brasil, no que chamamos soft censorship, no fundo uma tentativa de silenciar jornalistas e veículos de fato independentes para que apenas a mensagem oficial seja ouvida”.

 

O presidente da ANJ disse que se avizinha a ameaça da desinformação 2.0, com base em cada vez mais avançada tecnologia, que vai exigir de todos novos remédios e tratamentos inovadores para o enfrentamento do que pode ser uma epidemia devastadora de falsidades. “Muito já vem sendo feito pelos jornalistas, veículos, instituições e outras organizações para o combate à desinformação. Mas é preciso agora estarmos ainda mais preparados e irmos muito além, para enfrentar e vencer a mentira”.

 

Ameaça dos vídeos manipulados por inteligência artificial

Na palestra de abertura do seminário, Sam Gregory, premiado tecnólogo, media-maker, jornalista e advogado, detalhou os riscos dos chamados deepfakes, vídeos manipulados com o uso de inteligência artificial (IA).

 

Para Gregory, além do desenvolvimento de tecnologias capazes de acompanhar as farsas digitais, as sociedades precisam desenvolver ceticismo positivo, e isso passa pelo fortalecimento do jornalismo e do conhecimento em geral e das informações específicas para lidar com essa última geração de manipulação.

 

"As pessoas não devem ver deepfakes como o fim da verdade, mas precisam se prepara para enfrentar a nova onda de desinformação, e jornalistas, verificadores de fatos e ativistas são pontos centrais nessa tarefa", afirmou.

 

Gregory contou que, nos últimos 18 meses, especialistas têm estudado em diferentes países os melhores caminhos para enfrentar deepfakes, o que é possível fazer, quais são as ameaças e como proceder sem pânico. No Brasil, foram elencadas como prioridades a alfabetização midiática (com o rastreamento até a origem do conteúdo fraudulento), melhorar e dar fácil acesso a ferramentas que detectam vídeos manipulados, a capacitação dos jornalistas e o monitoramento do ambiente de desinformação ao redor das deepfakes

 

No entendimento do especialista, o debate sobre o enfrentamento a deepfakes tem de ser global e descentralizado; é preciso garantir que jornalistas tenham acesso a ferramentas contra essas falsidades digitais e, ao mesmo tempo, não se transformem em alvo daqueles que têm interesse em desacreditar os profissionais responsáveis pela verificação dos fatos, criando ambiente ideal para a manipulação por meio da mentira; e responsabilizar as grandes plataformas como Google e Facebook – no Brasil, em especial o WhatsApp, do Facebook.

 

Desinformação e as eleições

No primeiro painel do encontro, "Desinformação nas Eleições", a jornalista Angela Piementa, do PROJOR, destacou as implicações negativas da desinformação para a democracia, tipificadas em três principais eixos: Informação incorreta (Mis-Information), quando informações falsas são compartilhadas, mas sem intenção de dano; Des-informação, quando informações falsas são conscientemente compartilhadas para causar danos; e Mal-informação, quando informações genuínas são compartilhadas para causar danos, muitas vezes através da publicação de informações destinadas a permanecerem privadas.

 

Daniel Bramatti, presidente da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (ABRAJI) e editor do Estadão Dados e do Estadão Verifica, detalhou a atuação do Projeto Comprova durante a eleição de 2018, cujo sucesso permitiu uma segunda edição da iniciativa, em andamento, com a colaboração de mais de 20 redações. Bramatti contou que somente no WhatsApp o projeto reuniu mais palavras do que qualquer livro da série infanto-juvenil Harry Potter, o que dá a dimensão da quantidade de desinformação espalhada nas eleições. O jornalista lembrou ainda do ganho de produtividade nas redações parceiras, que cederam dois a três profissionais e receberam em troca material de mais de duas dezenas de jornalistas.

 

Parceria contra falsidades

A partir da experiência vivida em 2018 em relação ao problema da desinformação direcionada à instituição Justiça Eleitoral, à segurança da urna eletrônica e ao processo eleitoral, a jornalista Ana Cristina Rosa, assessora-chefe de Comunicação do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), afirmou que a corte decidiu debater o assunto mais a fundo e preparar terreno para estabelecer defesas à desinformação digital que deve ser novamente um problema na eleição de 2020.

 

A ação passa pela criação de uma rede. “Hoje estamos com 35 parceiros e no começo da semana que vem, dia 22, Facebook, Whatsapp, Google e Twitter irão aderir ao programa subscrevendo o termo de adesão. Nós entendemos que a desinformação é inimiga da democracia. Mas é importante salientar que a atuação da Justiça Eleitoral esteve restrita ao âmbito da desinformação diretamente relacionada à segurança do processo eleitoral Brasileiro. Sabemos que não temos estrutura para fazer frente ao problema como um todo, aliás não só nós, mas instituição alguma. De maneira isolada, não há como enfrentar o problema da desinformação”, disse Ana Cristina.

 

Diante do entendimento de grandes redes sociais de que o conteúdo pago por políticos (impulsionamento) por políticos não pode ser derrubado, o TSE estuda impulsionar também informações verídicas, como contraveneno a mentiras digitais.

Notícias da editoria