Diário da Serra

Euclides Geraldo Medeiros, do Triângulo Mineiro para Tangará

Fabíola Tormes / Redação DS 22/10/2019 Memória

Em maio de 1972 a família chega a Tangará da Serra

Aurealisa Freitas Alves e Euclides Geraldo Medeiros

Euclides Geraldo Medeiros, do Triângulo Mineiro para Tangará

Euclides Geraldo Medeiros nasceu no dia 15 de novembro de 1939 em Ituiutaba, Minas Gerais. De família humilde de lavradores do trabalho rural, que era o predominante da época, ele foi o segundo filho do casamento de Geraldino Francisco Medeiros e Carmelita Cândido de Jesus.


Foi alfabetizado no Educandário “Fé e Caridade”, em Capinópolis, no Triângulo Mineiro por dois anos, depois se mudou com os pais para o Estado de Goiás. Em 1951 faleceu sua mãe e seu pai logo se casou (no segundo casamento o pai teve mais três filhos). Sempre trabalhando na roça, mas  com visão na cidade, falava ao irmão Joaquim (Quinca), o mais velho, que não queria limpar roça na enxada, foi então que na juventude, na busca de novos horizontes, iniciou um novo ofício – fazia conserto de arma de fogo e rádio de pilha.


Assim, Euclides Geraldo Medeiros continuou sua juventude, até conhecer Aurealisa Freitas Alves, a mulher com quem formaria uma grande família. Se conheceram bem jovens, aos 20 anos e segundo Dona Aurea foi amor a primeira vista. “Na época que eu o conheci, estava bem pertinho da casa dos  pais dele, porque fiquei morando com a minha irmã mais velha, casada”, conta Dona Aurea. Meses depois ela retornou para a casa dos pais, mas o amor permaneceu.


Então, ambos decidiram se casar – quatro meses depois. “Mas deu uma tal de varicela em nós, que foi preciso atrasar o casamento”.


Assim, mais alguns meses depois – no dia 15 de julho de 1960, Euclides Geraldo Medeiros e Aurealisa Freitas Alves se casaram na antiga cidade de Matera, hoje Paranaiguara, Estado de Goiás. Nesta pequena cidade nasceu a primeira filha do casal, Maria Carmelita Medeiros, em 1961.


Depois a família – Euclides, Aurealisa, Maria Carmelita e Eurípedes de Freitas Menezes (afilhada) – seguiu para Mato Grosso do Sul, em Paranaíba, onde ficaram por 10 anos. Lá nasceram outros quatro filhos do casal: Amauri Alves Medeiros, em 1963; Amarildo Alves Medeiros, em 1965; Martha Alves Medeiros, em 1967 e Paulo Alves de Medeiros, em 1969. Neste período cultivou banana em arrendamento do sogro.


Depois de 10 anos morando no Estado vizinho – Mato Grosso do Sul – a família, então, decide desbravar as promissoras terras de Tangará da Serra.


Vinda para Tangará da Serra – maio de 1972

“Em 10 de maio de 1972 mudamos acampamento para a falada Tangará da Serra, distrito de Barra do Bugres, ficando a afilhada casada. Mudamos com ‘mala e cuia’”, recordam os filhos Amauri e Martha. “Ali viemos em sete pessoas, chegando em Tangará no dia 12 de maio”.


A família veio de ônibus do Estado de Mato Grosso do Sul a Mato Grosso. “Só de Cuiabá a Tangará foram quase 12 horas”, destaca Dona Aurea. Chegando aqui a família foi vivendo provisoriamente na casa da irmã Maria e cunhadas: Antônia (Toca) e Geralda. “Nem a mudança não veio, porque vendemos tudo. Trouxe o que deu para trazer nas malas, com aquele tanto de filho (…) então apadrinhei com os parentes”, relembra a matriarca, ao destacar que a pouca coisa que trouxe foram algumas panelas de ferro e uma máquina de costura, que a ajudou a ganhar um pouco de dinheiro. “Gostava muito de costurar e a precisão estava tomando conta (…) ia arrumar roupa e ganhar um troco para ajudar”.


Já Euclides Medeiros ao chegar em Tangará da Serra trabalhava em serviços gerais, braçal. “Trabalhava na fazenda do cunhado a semana inteira e no final de semana vinha para casa”. Depois de um tempo em Tangará, decidiram se mudar para um sítio, da família, onde Dona Aurea engravidou. “Mas não suportei o sítio não (…) e voltamos para trás. Fomos para casa da minha irmã, aqui na cidade. Era uma casinha que ela tinha e não morava ninguém. Quando era férias não tinha ninguém e em tempo de aula os meninos, para estudar”.


Assim Dona Aurea ficou na cidade cuidando dos seus filhos e os quatro da sua irmã, que moravam com ela para estudar. “E minha barriga crescendo e eu com aqueles 11 filhos e sobrinhos para zelar, aí as panelas tinham que ser grandes”, relembrando, aos risos, esse início de história em Tangará da Serra.


Em solo tangaraense, Dona Aurea e Euclides tiveram mais dois filhos. Em 1973 nasceu Antônio Carlos Alves Medeiros (Tônico) e em 1975, Marilene Alves Medeiros.


Euclides Medeiros e suas múltiplas profissões

Junto a essa ‘correria’ para criar os filhos, Euclides Geraldo Medeiros continuava estudando. “Ele sempre estudando”, recorda Amauri. Segundo o filho, ele acreditava que o futuro vinha através do estudo.


Antes de morar em Tangará da Serra, ele já tinha feito vários cursos e aqui fez um de Agrimensura. Assim, começou a trabalhar como topógrafo, melhorando a vida da família. Conseguiu comprar uma casa em 1976, na Rua 6 – Manoel Dionísio Sobrinho – esquina com a Escola Emanuel Pinheiro. “Uma casinha de quatro peças e nós já éramos um punhado. A filha que deixei, adotiva, que era casada, ficou viúva (…) veio morar com a gente, com uma filha e eu já tinha os meus tudo. Mas a situação já estava mais balanceada, financeiramente”.


Ele tinha seus cursos por correspondência nas áreas de Fotografia, pela Escola Associadas Magistral de SP, em 21 de fevereiro de 1968 e em 27 de setembro de 1971; em Desenho Arquitetônico, pelo Instituto Universal Brasileiro, em 1969; de Indústria em Cosméticos no Curso Politécnicos de Ensino Livre – Guanabara em 9 de junho de 1969; e Agrimensor pela Escola Internacionais da América Latina em 10 de novembro de 1975.


Sempre adquiriu material para trabalho nesses cursos, comprou seu teodolito (aparelho de medição de terras), trabalhando autônomo e com parceria com engenheiro civil Luiz Gonzaga Chaves (Luizinho), fez medições de fazendas e abrindo loteamento na cidade, loteou Vila Portuguesa, Vila São Pedro ou Santa Lucia, Jardim Atlântida. “Deve ter uma meia dúzia de bairro aqui que foi ele quem loteou, até mesmo algumas ruas da cidade, que ele fazia a planta, os papéis, e tinha que colocar nome, ele quem colocou o nome (…) estava sem nome e precisava identificar, então ele colocava nome”, conta o filho. “A Rua São Paulo, a Avenida Mauá [hoje José Manzano] foi ele quem deu”.


Ele também trabalhou por pouco tempo na Companhia de Desenvolvimento do Estado de Mato Grosso – CODEMAT, prestou serviço em Cuiabá e Juína, depois vindo a trabalhar na prefeitura de Tangará, gestão de Antônio Porfirio de Brito. Desligou-se da Prefeitura e continuou trabalhando por conta própria e no início de 1987 ele abriu sua primeira empresa ME no ramo de cosméticos (perfumaria).


Euclides foi ainda um dos fundadores do Movimento Democrático Brasileiro (MDB), com seus amigos: Tatão, Jaime Cândido Borges, Jovino, Tuim (Antônio Almeida), Professor Geraldino, Tião Paulista, sendo a favor da emancipação de Tangará de Barra do Bugres no Plebiscito.


A família – o marido, o pai e o avô

Euclides Geraldo Medeiros era considerado um homem muito calmo. “A calma era fora de série. Deus me livre. Aquilo de irritava”, brincou Dona Aurea, ao revelar que ela era o oposto. “Eu nunca tive muita calma, acredito que por isso a gente viveu muito bem, 27 anos (…)”.


A família cresceu com a ajuda desta grande mulher, que segurou a barra de uma grande família. “Ele conversava muito com a gente (…) e a mãe segurava a rédea”, afirma o filho Amauri, ao reconhecer a grande participação da mãe, Aurea, na criação desta grande família. “De 75 para 76 a gente foi melhorando de vida. Meu pai teve uma chacrinha, comprou um Fusquinha, tinha uma [Ford] Rural, comprou uma Picape para trabalhar. Vendia um carro, comprava outro. Comprou um terreno com casa. Dali para frente fomos morando no que era nosso”.


Quando ele faleceu, em 1987, deixou dois terrenos para Dona Aurea e uma casa grande. “Que acabou de criar os filhos”. Naquele tempo os dois filhos mais velhos já estavam casados. Os demais, ficaram sob os cuidados da matriarca. Ele teve sete filhos de sangue e uma adotiva.


Em fevereiro de 1987 nasceu a primeira neta, que Euclides mesmo sugeriu o nome, sendo de um livro que ele leu o nome Maira e aceito pelos pais Amauri e Ivonete. “Foi a única neta que conheceu”.


Euclides e Dona Aure tem 11 netos – Maira, Mariane, Maiara, Talita, Ricardo, Gabriel, Ana Paula, Paulo Júnior, Ana Maria, Danilo e Dione; e três bisnetos – Valentina, Lucas e Luiza.


Um grande legado

“Ele gostava muito de inovação”, destaca o filho, ao garantir que era um homem afrente de seu tempo. “Ele ouvia rádio internacional, sem saber o que estava ouvindo, mas gostava de ouvir. (…) estudioso demais, gostava de descobrir coisas além da atualidade, da época”.


Assim, ouvindo rádio e fazendo seus pedidos de cursos e livros por correspondência, Euclides Geraldo Medeiros colecionou cursos e ensinamentos. “Sempre tirava um pouquinho do dinheiro que ganhava para comprar livros, as coisinhas dele (…) ele queria crescer, queria ver o mundo grande”.


Depois que ele faleceu, relembra a filha Martha, por anos a família recebeu cartas, respostas de correspondências mandadas por Euclides para diferentes países. “Foram mais de anos recebendo cartas, de onde ele pedia livros”.


“Nos deixou exemplo de vida, de paciência, de tolerância, saber conviver com lados opostos (…) Isso é o que ele deixou para nós”, resume Amauri.


Homenagem

Euclides Geraldo Medeiros faleceu em 16 de junho de 1987, com 47 anos, vítima de Acidente Vascular Cerebral (AVC).


Por sua contribuição ao município de Tangará da Serra, os vereadores José Delcaro e Sebastião de Oliveira Pinto apresentaram o Projeto de Lei nº 034/87, em 17 de setembro de 1987, que após aprovação do plenário e sansão do prefeito Antonio Porfírio de Brito, nominou a Rua 13 como ‘Euclides Geraldo Medeiros’.



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