Diário da Serra

Carla Righetto – Uma trajetória de pioneirismo no paisagismo e na preservação ambiental

Clairton Weber / Especial DS 10/06/2022 Memória

Carla Tonelli Righetto empresta o nome ao Viveiro Municipal, mantido pela Prefeitura municipal de Tangará da Serra

Memória

Carla Righetto - Uma trajetória de pioneirismo no paisagismo e na preservação ambiental

O passamento prematuro de Carla Tonelli Righetto, aos 34 anos de vida, se deu em três de maio de 1998, ao enfrentar por seis meses um câncer raro e agressivo. Carla nasceu em Nepomuceno-MG e fez faculdade de Agronomia em Lavras (a terra dos ipês e das escolas), também no Estado de Minas Gerais. Hoje, Carla Tonelli Righetto é o nome do Viveiro Municipal mantido pela Prefeitura municipal de Tangará da Serra.

Mais de duas décadas se passaram e hoje, as informações que temos e que serão reportadas aqui, nesta reportagem, vêm do companheiro Pedro Righetto, 58. Também engenheiro agrônomo, Righetto nasceu em Jaú-SP e conheceu aquela que viria a ser sua esposa e mãe das duas filhas Talissa, 29, e Milena, hoje com 25 anos, na faculdade de Agronomia em Lavras, onde estudaram juntos entre 1983 e 86.

Carla Righeto era mestre na área de café e sua aptidão para o cultivo desta fruta – sim, café é uma fruta – está intrinsecamente ligada à sua história, a história de sua família e consequentemente a vinda para Tangará da Serra. Pedro Righetto explicou que depois de formados o casal viveu por três anos em Jussara – GO, de 1988-91, só então fixaram residência em Tangará da Serra.

Conforme o engenheiro agrônomo Pedro Righetto, o pai, Marcolino Righetto, possuía propriedade na Gleba Amor, próximo ao Distrito de Progresso.

“Tangará da Serra tem o melhor clima do mundo para produzir. As condições aqui são muito favoráveis”,
observa,

aduzindo que, na ocasião dos fatos narrados a situação econômica do país era desfavorável, especialmente para quem queria investir na produção agrícola. Pedro é um dos oito filhos de Marcolino e todos, de alguma maneira estão ligados à agricultura até hoje.

“As experiências que tínhamos até então moldaram nossa perspectiva de vida. Queríamos um lugar para morar, produzir. Sempre fomos ligados à terra. A Carla talvez até mais do que eu”,
disse o agrônomo

que foi também funcionário da extinta Cooperativa Agropecuária Mista Vale do Seputuba (Coomivale).

Carla foi a primeira engenheira agrônoma da recém-criada Secretaria Municipal de Agricultura. Aqui também teremos um traço de pioneirismo. Há 25 anos haviam poucos engenheiros agrônomos no município, quase ou todos eles homens. Pedro Righetto explicou que os caminhos da nossa personagem poderiam ter sido diferentes. A formação acadêmica (mestrado na área da produção de café) rendeu um convite para fazer doutorado numa universidade da França. Contudo, a vontade de se instalar e produzir nas lavouras de Tangará da Serra falou mais alto.

Nos primeiros anos que o casal esteve em Tangará da Serra a lavoura cafeeira tinha grandes incentivos do município. O então Prefeito Municipal, Saturnino Masson, produtor rural, tinha grande apreço pela atividade e via na cafeicultura uma vocação do município que poderia ser retomada com êxito. Portanto, ter uma especialista na variedade era plenamente justificável. Mas a engenheira Carla não ficou só às voltas da cafeicultura. Teve papel importante na instalação da Faculdade de Engenharia Agronômica que existe até hoje no campus da Unemat e foi idealizadora do Bosque Municipal existente no centro de Tangará da Serra e que oficialmente se chama: Parque Natural Municipal Ilto Ferreira Coutinho.


Plantio dos ipês nas avenidas foi coordenado por Carla Righetto 

Quem visita Tangará da Serra na época da florada dos ipês, entre os meses de junho e setembro fica maravilhado pela beleza das flores. Em toda a cidade temos ipês roxos (principalmente nos meses de junho e julho), ipês amarelos (julho e agosto), ipês de cor rosa (final de agosto), ipê brancos e ipês amarelos (setembro). A florada dos ipês não segue exatamente estas datas, pois a influência do clima é determinante para que as árvores entrem em período de reprodução. O que poucos sabem é que em tudo isso (as árvores no canteiro central das Avenidas Brasil e Tancredo Neves e o Bosque Municipal) tem uma participação ativa da engenheira agrônoma Carla Tonelli Righetto.

Nos primeiros anos da década de 90, Carla esteve envolvida em quase todas as atividades que envolveram o plantio de árvores na área urbana. Os ipês que hoje florescem na Avenida Brasil e na Avenida Tancredo Neves, na área central da cidade, foram plantados pelo Leo Clube Tangará da Serra ainda em 1993, sob a supervisão da engenheira agrônoma Carla Righetto, então servidora pública e responsável pelo projeto.

Podemos citar por outro exemplo: o plantio de árvores feito pelo Leo Clube na área onde hoje temos a Feira do Produtor. O espaço já foi uma praça, onde os produtores montavam suas barracas para comercializar seus produtos. Quem visitar a feira ainda poderá observar uma placa de metal contendo uma poesia de Moisés Bispo dos Santos (falecido em 2022). É deste poeta uma homenagem à Carla Righetto, reconhecendo seu esforço para ver consolidado o Bosque Municipal.


Do diagnóstico a morte - seis meses apenas

Pedro Righetto mora na mesma casa construída pelo casal na última década do século XX. Nela criou as duas filhas que hoje moram em Minas Gerais e recomeçou a vida ao lado de uma nova companheira. Nesta residência, quase 25 anos depois nos recebeu para a entrevista. Com muita serenidade informou já nos primeiros momentos que estava disposto a falar sobre todos os momentos, inclusive aqueles que foram os mais difíceis: o período que vai da descoberta da doença e o falecimento. Seis meses apenas, mas, intensos sem dúvida.

Pedro Righetto contou que a esposa se queixava constantemente de dores na região lombar e naqueles anos Tangará da Serra não estava tão bem servida de profissionais e equipamentos médicos que permitissem um diagnóstico preciso. Depois de algumas consultas e exames chegaram a um que apontou o tipo de câncer raro, agressivo e sem tratamento que causou a morte da companheira. O diagnóstico foi compartilhado e confirmado por especialistas de São Paulo.

A perspectiva de morte próxima aproximou o casal mais ainda. Righetto contou que viveu os últimos seis meses de vida da companheira praticamente ao seu lado 24 horas. Não foram dias fáceis:

“[...] era preciso ter serenidade. Eu sabia que precisaria continuar. As crianças eram pequenas... claro que tive o apoio incondicional da família, da minha e dos familiares da Carla e ela mesmo me ajudou a aceitar isso”,
disse,

aduzindo que um pensamento nunca o abandonou. Que haveria algo maior envolvido nisso. Um sentimento de justiça que está além da compreensão.

“Então eu pensava: calma, que dá certo”.

Depois do falecimento da esposa, foco no trabalho:

“tocar em frente, sem vitimismo”,
pontuou Righetto.

Relembrando os primeiros anos de casamento com Carla disse ainda que não havia um planejamento específico, mas o sonho era e sempre foi ser produtor rural. Ter uma propriedade que fosse viável sem ultrapassar os limites da ética, preservando ao máximo o meio ambiente. Isso sempre esteve no campo de visão da falecida esposa. Quando juntos, foram suinocultores, plantaram café e cultivaram envolvimento muito grande nas questões ambientais da cidade que começava a crescer.


AMIZADE – “Seguramente uma mulher frente do seu tempo”, afirma amiga

Em busca de algumas fotografias que pudessem ilustrar a passagem da nossa personagem pela Secretaria Municipal de Agricultura, encontramos a funcionária pública Letícia Teixeira Nunes e colega de trabalho de Carla Righetto. Letícia descreveu nossa homenageada como uma mulher muito inteligente, comprometida e de profundo conhecimento na sua área técnica, apaixonada pela agronomia:

“[...] seguramente uma mulher à frente do seu tempo. A grande maioria dos projetos que temos hoje na área ambiental e da agricultura foram moldados quando ela passou por aqui”,
disse,

com os olhos marejados pela lembrança da colega de trabalho que se tornou grande amiga.

O engenheiro agrônomo Mário Sérgio dos Santos foi Secretário Municipal de Agricultura nos anos de maior atividade da nossa personagem. Ele conta que os principais projetos foram desenvolvidos com apoio da Empresa Mato Grossense de Pesquisa Assistência e Extensão Rural (Empaer), mas a sua grande maioria capitaneada por Carla Righetto:

“Dedicação extrema ao trabalho. Liderou todo o projeto de retomada do plantio de café em Tangará da Serra. Sua contribuição está aí para todos verem. Na área ambiental e com maior ênfase na paisagística. A florada dos ipês sempre vai nos lembrar dela”,
disse Mário Sérgio.
  • Links para consulta

    • Lei que nomina o Viveiro Municipal mantido pela Prefeitura municipal de Tangará da Serra. (CLIQUE AQUI)
    • Lei que denomina o Parque Natural Municipal Ilto Ferreira Coutinho. (CLIQUE AQUI)


Notícias da editoria