Diário da Serra

Gisely Nogueira dos Santos – Mulher forte e destemida que teve morte prematura três dias antes de completar 23 anos

Alexandre Rolim / Especial DS 28/06/2022 Memória

Gisely teria sua vida marcada por muita luz, desafios, conquistas, responsabilidade precoce e morte prematura

Menina de sardas no rosto e olhos cor de mel

Mulher forte e destemida que teve morte prematura três dias antes de completar 23 anos

Em 28 de julho de 1981 nascia na capital mato-grossense, Cuiabá, uma criança que teria sua vida marcada por muita luz, desafios, conquistas, responsabilidade precoce e morte prematura: Gisely Nogueira dos Santos.

“Ela era um ser incrível, responsável, que desde cedo era irmã, pai e mãe”,
relata o irmão dela, Adriano,

que procura falar pouco sobre sua partida:

“Isso gera muito sofrimento”,
afirma.

A subtenente Mirian Berbel, da Polícia Militar de Mato Grosso, que colaborou para que um pouco da história de Gisely fosse contada por essa reportagem, explica que Gisely e sua trajetória estão imortalizadas nos anais do Batalhão de Rondas Ostensivas Tático Móvel (Rotam) e em homenagem rendida a ela em 2021 com a inauguração da Sala 3º Sargento PM Gizely Nogueira Santos, destinada a Patrulha Maria da Penha, na sede do 7º Comando Regional da Polícia Militar de Tangará da Serra.

Mirian conta que Gisely, menina de sardas no rosto e olhos cor de mel, teve uma infância humilde e cheia de responsabilidades. Bem cedo, ainda na adolescência, surgiu o primeiro grande desafio de sua vida, que foi a separação dos pais. Gisely, então com 12 anos, assumiu a chefia da família, trabalhando em uma empresa de fabricação de álbuns para sustentar sua mãe e seus dois irmãos mais novos do que ela.

Mesmo com toda essa responsabilidade em casa, na família e no trabalho, aos 16 anos a menina prodígio ingressou na Escola Técnica Federal onde concluiu um curso de telecomunicações e aos poucos vai se mostrando ser uma mulher forte num corpo esbelto. Ela já almejava ingressar na carreira militar.

No ano 2000, quando ela tinha entre 18 e 19 anos, prestou o primeiro concurso da Polícia Militar e passou. No mesmo ano prestou vestibular na Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) e passou para o curso superior em Educação Física, o qual concluiu com louvor, sempre com um sorriso fácil e cativante.

Sua força e valentia logo se destacaram. Logo, Gisely foi transferida para o serviço especializado da Polícia Militar, o qual serviu com orgulho e dedicação. Era fácil vê-la, junto a seus companheiros de serviço, debaixo do sol escaldante, com os punhos cerrados, fazendo a tão temida flexão de braço.

Os colegas contam que ela era uma policial Militar diferente das demais, pois lutava por igualdade e para não ser tratada como sexo frágil. Inclusive, seu ‘nome de guerra’ era seu sobrenome: “N. Santos”. Normalmente, policiais do sexo feminino são identificadas com seu primeiro nome.

No ano de 2003, Gisely foi aprovada em concurso interno de sargento da Polícia Militar de Mato Grosso.

“Mulher de não apenas beleza e sim de notório intelecto, tudo isso para um futuro promissor, com uma carreira brilhante, futuro que ela nunca viveria”,
dizem seus colegas de profissão.

Vítima de violência psicológica, Gisely teve morte precoce

Gisely foi vítima de uma violência que não deixa lesões visíveis, pois não é física e sim psicológica. Ela se apaixonou e se envolveu com uma pessoa, um colega de profissão, que lhe fazia juras de amor eterno, fazendo-a acreditar em um mundo que se tornou doentio e cheio de dor e desprezo. Seu companheiro lhe proferia ofensas e críticas, tinha ciúme excessivo, a impedia de se relacionar e ter convívio social, inclusive com a restrição ao uso de roupas consideradas por ele impróprias.

Impedida de viver sua vida, de tocar seus projetos e de realizar seus sonhos, Gisely tomou uma decisão drástica, escreveu uma carta de despedida e cometeu suicídio no dia 25 de julho de 2004, apenas três dias antes de completar 23 anos.

“Ela já tinha comprado bolo [de aniversário], convidado vários amigos para comemorar. Lembro dela encomendando o bolo, porém, algo não estava normal”,
conta o irmão Adriano.
“Pelo azar do destino foi se envolver com um cara doente, violento e possessivo, que ainda está na polícia e ela só os ossos no cemitério”,
desabafa o irmão.
“Ela recebeu vários elogios de excelente policial militar”,
completa.
  • Gisely deixou carta onde se despediu da família, dos amigos e expôs sua dor e sofrimento

“Aos meus amigos, com quem fui muito feliz e aprendi que amigos são pedras preciosas que alguns têm a sorte de encontrar. Que sejam muito felizes com suas famílias porque eu não sou!”,

diz trecho da carta de despedida deixada por ela na ocasião de sua morte.

“Ela apagou para sempre o brilho de seus olhos amendoados, (...) nos ensinando a importância das amizades, que ela descreve como tesouro, e as várias formas que a violência doméstica encontra para atingir o corpo e a alma de uma mulher”,
relata homenagem de colegas de profissão.

Homenagem e reconhecimento

No dia 22 de fevereiro de 2021, o comando da Polícia Militar de Tangará da Serra instituiu a Sala 3º Sargento PM Gizely Nogueira Santos, destinada a Patrulha Maria da Penha no município. O espaço, que foi criado para dar suporte nas ações de combate aos crimes de violência contra a mulher, fica na sede do 7º Comando Regional da Polícia Militar. O prefeito Vander Masson e a primeira-dama, Silvana Ló Masson prestigiaram a inauguração que contou com a presença do coronel PM Carlos Eduardo Pinheiro, Subchefe de Estado Maior da PM de Mato Grosso, do comandante do CR VII, coronel PM Antônio Nivaldo de Lara Filho, e da subtenente Mirian Berbel, coordenadora da Patrulha Maria da Penha na cidade.



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