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  Tangará da Serra, 23 de abril de 2017.  
Tangará da Serra - MT


Em 29/10/2016
Zuelina Cadete Bento, a primeira parteira de Tangará da Serra


Uma parte dela era amor. A outra também


O Memória de hoje contará a história de uma das personalidades mais conhecidas de Tangará da serra, Zuelina Cadete Bento, que talvez pelo nome em si não será de imediato lembrada, mas se dissermos o apelido, com certeza os leitores se recordarão imediatamente.
Zuelina é a Tia Lina, nascida em Belo Horizonte, Minas Gerais, em 28/ 09/ 1935, descendente direta de escravos africanos trazidos para o Brasil.
Durante sua trajetória de vida, Tia Lina deixou ensinamentos e um legado de fé e doação ao próximo. Sua vida foi marcada pelo amor e doação a seus semelhantes. Zuelina ainda muito cedo perdeu os pais, que devido aos maus tratos e forçados pelos trabalhos escravos, morreram bem jovens. Perdeu a mãe aos  três meses de vida e ficou órfã de pai aos dezoito meses, o que lhe restou então foi a bondade de estranhos e incerteza de um futuro. “Minha mãe contava para nós que, lembrava ainda de quando vieram buscar ela e um dos irmãos e os pegaram pelos bracinhos e levaram embora”, conta o filho, Hélio Cadete, deixando as lágrimas rolarem pelo rosto saudoso.
Mas, Lina fez da tristeza seu ponto mais forte e  bonito. Buscou levar nesse cenário alegria aos que como ela necessitavam. No orfanato aprendeu as virtudes de amar e servir, bem como, umas poucas letras, até a quarta série primária.
Após longos anos, saiu do orfanato e foi morar com a madrinha, quando conheceu com 13 anos, aquele que viria a ser seu esposo. João Batista Bento, que já era homem feito, mas quando a viu, garantiu que seria sua mulher e assim se fez. Com a recusa da família que cuidava de Lina, o casal optou  por fugir. Quando a família descobre, vai em busca dos dois e realiza o casamento como forma de consertar o erro.
Após o casamento, o casal muda-se para São Paulo, onde moraram ccom os pais de  João. Ele continua a lidar na terra e Lina cuida dos filhos que começam a chegar, sendo no total de 23, dos quais somente oito sobrevivem. sempre companheira e pronta a ajudar o esposo na lida da terra, com a lavoura cafeeira. Ali Lina inicia seus trabalhos de parteira, começa a auxiliar mulheres mais  experientes na profissão, o que aprende com facilidade, descobrindo então, um dos muitos, dos dons a ela confiados.

Tia Lina, a mulher que plantou amor e colheu gratidão

Morando em Naviraí, ficam sabendo de Tangará da Serra e decidem para cá mudar, encantados com a expectativa das lavouras do café. Assim que chegou aqui, Lina percebeu a falta de médicos e remédios, o que fazia com que a população sofresse muito e muitas vidas se perdessem. Compadecendo-se do sofrimento e agora já parteira de profissão, seu nome explode  no povoado, que começa a lhe procurar em busca de tratamento. Com conhecimentos ainda não explicados, Lina inicia sua obra social, preparando garrafadas e distribuindo-as entre os doentes, ficando em pouquíssimo tempo conhecida. “O dom de minha mãe era incrível, pois ela nunca teve quem lhe ensinasse. Quando alguém a procurava ela já dizia o que tinha que tomar e me mandava ir até o mato, dava a local certinho onde encontrar a planta para a garrafada. Nunca cobrou pela consulta ou pelo remédio, apenas pedia que a pessoa trouxesse o litro, que na época era muito difícil. O pagamento era o que a pessoa deixasse sobre a mesa. Minha mãe era incrível”, lembra o filho.
Sua fama foi tamanha que chegava a atender cerca de 100 pessoas por dia, que vinham em busca de toda espécie de conforto, desde o espiritual até os benzimentos.
Pela falta de acomodações, Lina acolhia em sua casa os doentes ou parturientes, o que  inclusive, a fez ampliar sua residência bastante humilde para acomodar os necessitados. Criou seis leitos onde ficavam acomodados até que tivessem condições de voltar para casa, tamanha era sua responsabilidade. “Ela colocou berços e cuidava da mãe e da criança recém nascida até que a mãe pudesse retornar a sua residência. Alimentava e fazia toda a higiene dessas pessoas com recursos próprios. E quando atendia ensinava com toda dedicação e paciência as jovens mães a cuidar do presente que tinham recebido. O dom de minha mãe foi somente dela, porque nem eu que a acompanhei bastante de perto consegui desenvolver o mesmo. Hoje conheço pouca coisa do que aprendi. Ela levou consigo seus ensinamentos”.


Homenagem

Mas no dia seis de novembro de 1986, ainda  aos 51 anos,  apresentou alguns problemas de saúde, que resultaram em um infarto fulminante, que lhe ceifou a vida, deixando famílias inteiras órfãs de carinho e atenção.
Por reconhecimento de seu amor, caridade e dedicação, o Poder Público a homenageou dando seu nome a  creche instalada na Vila esmeralda, que leva educação e esperança de dias melhores aos vários alunos que ali estudam.

>> Rosi Oliveira - Especial DS




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