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  Tangará da Serra, 20 de agosto de 2017.  
Tangará da Serra - MT


Em 24/06/2017
Dona geralda: entretantos, a esperança


Geralda Serafim


Aquela que domina a lança ou aponta caminhos: a síntese da caminhada em busca da terra prometida. Nos autos de seus 98 (noventa e oito) anos, conclusos em 18 de abril de 2017, foi parteira, cozinheira, lavradora, dona de casa, mãe, farinheira, rapadureira, conselheira, religiosa fervorosa. Esta é Geralda Serafim dos Santos.
Dona Geralda, como é conhecida, é uma dessas pessoas que teve seu percurso iluminado pela esperança, pelo sonho. Se da fome fugiu. Se à situação de bicho não lhe tirou o encanto pela vida e nem a afastou da lavoura; foi dominando a natureza bruta que a fartura à mesa chegou; o frio do corpo afastou. Foram em terras alheias que brotaram o arroz e o feijão que alimentaram seus 06 (seis) filhos naturais e os quatro que a vida lhe ofereceu.
Em busca da terra prometida - Se a precariedade material a fez deixar a terra natal, Água Boa – MG, em busca de um pedaço de chão, na segunda metade da década de 60, foram as terras de garimpo no município de Arenápolis –MT que seu Roque Ferreira dos Santos, esposo (in memorian), buscou o leite e o mel. Sofreram a desventura da prometida fartura pelo ouro e pelo diamante fácil. Neste mesmo município, após as aventuras na mineração, conquistaram um pedaço de terra, de onde mais tarde foram despejados. Aventuraram por Alto Paraguai, em busca do sorriso da sorte na mineração, conseguiram o suficiente para sustentar a família.
O desencanto com as pedras preciosas e o metal reluzente, e da terra retirada, a levou a buscar aconchego em solo tangaraense no início da década de 70, mais precisamente na Vila Esmeralda, adquirindo 02 terrenos, medindo 900 m2, onde edificaram um casebre precário, feito de pau-a-pique, e buscaram as terras “alheias” para lavrar o sustento. Ela relata que, ainda na década de 70, a carne consumida era a de animais silvestres, como, por exemplo, paca, tatu, cutia, capivara encontrados nas redondezas.
Sobre o bairro: olhares bucólicos - Quanto à paisagem do bairro onde escolheu para fixar moradia, dona Geralda lembra que a vila Esmeralda não tinha ruas. Eram picadas, ligeiros aceiros, que davam noção de rua, de quadra; com o tempo, a vegetação ocupava seu lugar de origem. Em suas palavras, era tudo “triero.” As ruas foram abertas em meados de 1980. Quanto à estrada que liga a Vila ao Centro, somente em 1980, com a abertura da MT 358. O acesso até ao centro era feito a pé, de bicicleta, em carroças ou em cavalo. “Como a gente era muito pobre, quase ninguém tinha carroça ou cavalo. Muitos dos moradores traziam suas compras nas costas. Era comum encontrar uma família inteira vindo da cidade para a Vila, cada qual carregando um saco de compra, desde os mais novos até o mais velho”.

Acima da serra: quase paraíso

Com a mata dominada, arroz, feijão, milho, mandioca, batata, quiabo, abóbora brotavam da terra cultivada.  O arroz era pilado, retirado a casca em um pilão, abanado em uma peneira para, em seguida, ser cozido. Da mandioca, além de bolos e trato para animais, era feita a farinha. No terreiro cresciam as galinhas. Nos mangueirões ou chiqueiros, os porcos se multiplicavam. Da colheita, parte ia para o dono da terra. Dos animais criados, não tinha para quem vender. “Era uma fartura de dar gosto,” relembra dona Geralda. Com a terra e para a terra, lembra com saudade, da foice ao machado, da enxada ao enxadão, não tinha tempo ruim. Ela, o marido e os filhos usavam, com propriedade, os instrumentos para roçar, derrubar, carpir, cavar. “Com a gente não tinha tempo para a tristeza”.

Mãos que guiam

Entre uma e outra travessia, dona Geralda exerceu um dos ofícios por ela considerados mais nobre de todos. Contribuiu para que muitas crianças vissem a luz do mundo e mulheres tantas tivessem partos assistidos. A data ela não sabe precisar. Ela declara que começou ofício, herdado da mãe, em Água Boa – MG, por ocasião do nascimento do primeiro filho, quando teve que ajudar sua genitora a atender uma senhora em trabalho de parto. Ou seja, foi parteira por mais de 60 anos. Segundo ela, também fez partos nos municípios de Alto Paraguai, Arenápolis e Tangará da Serra – MT. Não sabe precisar, mas afirma que teve semana que mais de três crianças vieram ao mundo através de suas mãos. “Não tinha hora. Era só chamar e a gente deixava o que tava fazendo e ia ajudar no trabalho de parto,” declara.

Do culto ao templo

Como ela afirma: “Foi muito amor, meu filho. Muito amor que nos fez viver e servir à Deus!” Expressão recorrente de Dona Geralda para amenizar os contratempos e os constantes recomeços que marcaram a trajetória da família. Uma das memórias foi a iniciativa para arrebanhar potenciais fieis para a fundação da igreja Assembleia de Deus, na Vila Esmeralda. “A gente saia de casa em casa convidando as pessoas para ir ao culto lá em casa. O culto era celebrado a cada domingo... a gente vinha da roça um dia antes para preparar tudo para a celebração... era uma maravilha!” Relembra. Conforme seus relatos, na casa precária, construída na segunda metade da década de 70, tinha um espaço, por ela chamado de quarto, onde eram realizados os primeiros cultos.     
Se, por um lado, o empenho em organizar um rebanho ocupava parte de seu tempo e a enchia de alegria. Por outro, viu seus parcos bens serem dizimados pela voracidade do fogo. Segundo seus relatos, “o fogo queimou tudo... A gente já não tinha nada, e o pouco que tinha o fogo levou. Ficamos sem documento, sem comida... sem cama... sem nada”. Segundo ela, ainda sobre os escombros, a, então, prefeita Thais Barbosa, enviou parte da madeira para levantar outra casa. Com a ajuda do seu Stelo (in memorian), dono de uma serraria local, o restante do material foi doado. E das cinzas, uma casa de madeira, através de muitas mãos, foi levantada.
Recomposto o lar, o trabalho pastoral prosseguiu. Em contato com um dos responsáveis pelo loteamento Vila Esmeralda, conseguiu a doação de um terreno para a edificação de um templo. Em contato com o Pr. Jonas Moreira, a documentação foi regularizada e a construção da igreja Assembleia foi iniciada.  “A água, minha filha e eu carregamos da casa do Júlio, popular Fumaça, (in memorian). Levávamos nos baldes à tardezinha ou de madrugada. Quando os homens chegavam, os galões já estavam cheios... E hoje temos aquela maravilha, que é nossa Igreja ali na Rua Três.”

Dos sabores da cana  ao sustento da família

Dona Geralda relata que seus conhecimentos com a produção de derivados de cana-de-açúcar supriram as necessidades da família; conta que aprendeu a tirar as impurezas da garapa em processo de fervura; a dar ponto no melado; a fazer açúcar mascavo; e a bater o melado para fazer uma massa pastosa que, levado à forma, aguardado o resfriamento  e desenformada,  terá uma boa rapadura. Seus conhecimentos nessa área, a levaram a ser convidada por um fazendeiro que montou um engenho e tinha problemas com a qualidade da rapadura; chegando lá, ela ensinou aos funcionários o processo de depuração, o cozimento, o ponto, a apuração até ao produto final: a rapadura.

>> Iolanda e Rodney Garcia - Especial DS




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