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MEMÓRIA – Henrique Felipe de Oliveira, o motoboy que entregava sonhos e desejos em uma bag

Rosi Oliveira / Especial DS 05/11/2025 Memória

Henrique foi atropelado e morto aos 24 anos de idade

Memória

Henrique Felipe de Oliveira, o motoboy que entregava sonhos e desejos em uma bag

Entender os desígnios de Deus não é nada fácil, ainda mais quando esse desígnio recai na partida de um filho na flor da vida, levando em consideração que o ser humano vê no fato a quebra da ordem natural da vida, que é o mais velho partir antes do mais novo.

Essa é a história de Henrique Felipe de Oliveira que partiu precocemente, arrancado do seio de sua família ainda muito jovem.

Henrique nasceu no dia 03 de maio de 2000 em Tangará da Serra, e foi o primeiro de dois filhos de Jaire Nascimento de Oliveira e de Maria Raimunda Felipe de Oliveira. Viveu cercado de amparo e principalmente de muito amor ao lado do irmão Gustavo Felipe de Oliveira. Não foi criado no luxo, mas sempre dentro dos preceitos de educação e fé. Era alegre e por onde passava era impossível que alguém ficasse ou continuasse triste. Era dono de um astral contagiante. Iniciou os estudos e passou por diversas escolas do município, mas apresentava muita vontade de ter sua independência financeira, queria trabalhar para comprar o que desejava.

“Meu filho era diferenciado, ele pensava em ter o dinheiro dele para não ficar pedindo para nós”,

conta a mãe.

Como os pais não achavam que fosse uma boa ideia o filho trabalhar tão cedo, iam tentando despertar no adolescente outros gostos. Desde menino, fazia escolinha de futebol com o Xiruca, e quando foi ficando maiorzinho participou também do Projeto Judô Estrela da Serra com Sensei Wilson Verta. Aos 14 anos, após muitas conversas, os pais cederam, até para ensinar a responsabilidade. Começou a trabalhar com o pai como Office boy e auxiliar contábil. O serviço de pagamentos, busca e entrega de documentos era todo realizado sobre uma bicicleta, que passou a ser sua fiel escudeira. Conhecia as ruas e bairros como ninguém e de pedalada em pedalada adquiriu um condicionamento físico que o despertou para o ciclismo, esporte que realmente ganhou seu coração.

“Mas o sonho dele era comprar uma moto, que seguramos até quando pudemos”,

conta Maria.

Embora amasse pilotar sua moto, Henrique acabou por causa de um acidente, ficando parado, e, para não perder tempo, fez um curso de operador de empilhadeira. Voltou tempos depois às ruas, e por ter gostado do curso, continuou se aprofundando e fez também o curso de Operador de Máquinas Agrícolas, passando a alimentar planos de trabalhar nessa profissão.

A combinação imperfeita que tirou a vida de um caloroso numa noite fria

Henrique seguia a vida, foi envolvido com a igreja e em acampamentos, o que lhe rendeu muitas amizades e conhecimento.

“Meu filho era um ser de luz e todas as vezes que teve oportunidade, fez o bem”,

pontua Raimunda entre lágrimas e sorrisos. Aos 22 anos iniciou o trabalho de motoboy e adquiriu sua primeira motocicleta.

“Ali ele se encontrou. Amava o que fazia, ele era apaixonado pela profissão, embora outras oportunidades aparecessem, ele não abandonava as entregas”.

Seguia levando pedidos a um ponto e outro da cidade e possuía consigo um senso de responsabilidade tão grande que mesmo que o tempo não estivesse propício, ele saía para suas entregas. Não gostava de faltar e quando a moto não queria ir, ele a convencia.

“Às vezes ela dava problema e ele corria para dar um jeito de arrumar, e, era no mesmo dia”.

Não tinha sol, não tinha chuva que segurasse Henrique em casa, nem mesmo uma sopinha quentinha, oferecida pela mãe. É assim que Maria Raimunda se recorda do filho, oferendo uma comidinha quente para que ele não saísse em uma noite dos mais frias já registradas em Tangará da Serra. Ao convite, respondeu que voltaria mais cedo para casa e pediu mais uma meia para a mãe por causa do frio intenso. Saiu, e por volta das 20h30, partiu de forma abrupta.

As informações contidas no Boletim de Ocorrência dão conta de que Henrique Felipe de Oliveira, de 24 anos, realizava uma entrega na Rua 05 do Jardim Europa, quando ao parar a motocicleta em que estava para realizar a entrega foi colhido por um veículo que transitava sentido Centro ao bairro onde aconteceu o atropelamento. O impacto da colisão foi tão violento que lançou o jovem a vários metros de distância, causando múltiplas fraturas e sua morte instantânea.

O Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) acionou a Polícia Judiciária Civil que, ao chegar ao local do acidente, encontrou o suspeito do crime com sinais visíveis de embriaguez. O suspeito que dirigia um Palio recebeu voz de prisão no local, onde passou pelo teste de alcoolemia (bafômetro) que constatou a ingestão de 1,01 mg/l de álcool, quando a tolerância é zero.

Um caso que segue sem desfecho, mas jamais esquecido

O caso, até hoje, não teve o desfecho esperado. É tratado como homicídio culposo, que ocorre quando alguém causa a morte de outra pessoa de forma não intencional, mas por negligência, imprudência ou imperícia ao dirigir um veículo. O Código de Trânsito Brasileiro tem a punição para quem dirige depois de beber, que deu origem à chamada Lei Seca. Sem efetividade no início devido à falta de obrigação de fazer o teste do bafômetro, as regras foram sendo endurecidas ao longo dos anos até chegar a uma das legislações contra o álcool no volante mais duras do mundo.

No caso de Henrique, sua breve passagem pela Terra foi para despertar a mãe que não cessa de clamar por justiça e de levar no peito a dor na foto do filho. Maria pegou para si o que Henrique iniciou, um grito contra os excessos na condução de motos e veículos. Henrique, que foi vítima de um acidente anterior, havia feito diversos adesivos alertando que pilotar não é perigoso, perigoso é beber e dirigir. Após sua partida esse se tornou o lema da vida de sua mãe que dia e noite busca alertar para a combinação trágica, entre álcool e direção, e, fazendo com que a memória do filho jamais seja esquecida.

Henrique se foi, mas seu nome ainda ecoa toda vez que acontece um acidente em Tangará da Serra, tão marcante foi a tragédia. Ecoa tanto que foi homenageado na Câmara Municipal de Vereadores por duas vezes. Uma como motoboy e outra com nome de rua, sendo esta inclusive, a rua onde cresceu e viveu até sua partida. A homenagem partiu do vereador Professor Sebastian Ramos que destacou a Rua Sete, no Jardim Nossa Senhora Aparecida, para levar o nome de Henrique Felipe de Oliveira, que partiu no dia 14 de maio de 2024.



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