Maurício era um boêmio de carteirinha. Sempre ‘fugiu’ da rotina, do óbvio, do tédio. Era fácil de ver ele nas noites de sexta-feira cheio de energia e amor pra dar. Homem de riso fácil, expressão franca, amigo aberto à conversa, ao novo, ao mundo
Há histórias que se entrelaçam com o chão que pisam – esta é a de um paulista que chegou cheio de coragem e ajudou a escrever o destino de uma cidade que antes era sonho e pó, e que hoje é amor e realidade.
A história de Tangará da Serra é de audácia e desbravamento. Em meio ao cerrado mato-grossense, entre as serras Tapirapuã e dos Parecis, caravanas adentraram nas décadas de 1960 e 70, vindas principalmente do sudeste e uma pequena parte do sul do Brasil, derrubando mato, abrindo clareiras, construindo com encanto e muita força e fé, cantos de esperança carregados de sonhos e desafios.
Tangará surgiu da junção de algumas glebas formadas por esses sonhadores, como a gleba “Santa Fé” e as glebas “Esmeralda” e “Juntinho”, sendo depois loteada pela empresa Sociedade Imobiliária Tupã para Agricultura (SITA) que vislumbrou nesta terra fértil no inóspito e triste chapadão do Parecis um futuro promissor.
Em 13 de maio de 1976, depois de muita luta e suor derramado, Tangará foi elevada à condição de Município, passando a se chamar oficialmente Tangará da Serra, uma homenagem a um pássaro-dançarino e às duas serras que a circundam.
É nesse chão de coragem, suor e sonhos que Maurício Ribas Trevisoli, o nosso homenageado de hoje, veio escrever sua história.
Nascido em 19 de fevereiro de 1958, em São João do Pau d’Alho, em São Paulo, Maurício era o primeiro filho de Laide Trevizoli Ribas e Emílio Ribas; teve cinco irmãos: Nelson, José, Claudemir, Reinaldo e Adriana.
Em 1980 serviu no Exército em Caçapava-SP; em 1981, desiludido com as greves do ABC Paulista, abandonou o emprego na empresa Brastemp, em Santo André, e aceitou o chamado da terra.
No dia 15 de julho de 1981 ele chegou a Tangará da Serra – sem dinheiro, sem conhecer a cidade, apenas com a vontade de acreditar e o dom de construir o novo. A família seguiu cerca de 30 dias depois para o Sítio Diamante, de propriedade de Devanir Barbato, onde buscariam trabalho no café, a esperança econômica para muitos na época.
Mas Maurício reconheceu logo que “roça” não era seu feitio, não era seu forte, não era seu dom. Preferiu cidade, atividade diferente das habituais por aqui na época, mas que se identificava mais. E assim, percorreu a Avenida Brasil de cima a baixo até conseguir emprego no antigo Banco Financial, em outubro de 1981.
Foi ali que ele começou uma nova história, que com o tempo teve muitos desdobramentos, contados a partir de agora por Neuzinha, sua eterna esposa.
Em abril de 1982, Maurício conheceu Neuza Maria de Almeida (Neuzinha); casaram-se em 26 de novembro de 1983. Tiveram três filhos: Marcel (40 anos), Camila (38 anos) e Jéssica (33) – todos formados em Engenharia Florestal. Duas netas nasceram como sementes do futuro: Isadora (12 anos) e Lívia (7 anos).
Neuzinha, que recebeu esse jornalista na mesma chácara que o Maurício sempre amou, conta que ele era um marido dedicado, um pai exemplar e um avô apaixonado.
“Amigo de verdade para quem precisasse, presença sólida para os momentos bons e ruins”.
Na chácara, encontrava refúgio: cultivava árvores e plantas ornamentais, presenteava quem amava com vida que brota da terra, e descobriu na cozinha um novo território de alegria e partilha.
Era também salão de festas, luz de conversa na noite de sexta-feira, câmera em punho para capturar os dias que merecem ser lembrados – guardião de memória tão essencial quanto o pioneiro que veio para ampliar horizontes.
Maurício trabalhou na Comercial Santa Rosa, na Associação Comercial de Tangará da Serra (Acits), na Serra Dourada, na Prefeitura Municipal, no Posto Galli e até em Sapezal. Demonstrou sempre compromisso, iniciativa, presença.
Associado ao Lions Clube de Tangará da Serra desde 1998, presidiu no ano leonístico 2004/2005 com o lema “Companheirismo com união e alegria”. Em 2010/2011 foi Tesoureiro de distrito.
Em 23 de maio de 2012, recebeu o título de Cidadão Mato-grossense pela Assembleia Legislativa (AL/MT), reconhecimento que sela o que a gente já sabia: Maurício fez e sempre fará parte da construção dessa cidade e seu legado será eterno.
Aliás, a Tangará que hoje avança, produtiva e vibrante, foi entrelaçada com gestos como os dele – esforço cotidiano, olhar para o outro, vontade de ver o município crescer.
Ao mesmo tempo em que se dedicava à família, amigos, à comunidade, Maurício era torcedor fervoroso: corinthiano de carteirinha, membro da Torcida Organizada Garra Corinthiana desde 1978, e também acompanhava o União, time de futebol tradicional dos antigos amigos de Tangará.
“Ele levava até uma bandeira pro campo”,
conta a esposa.
Amava o esporte em todas as modalidades – futebol americano, tênis, basquete, sinuca – e transmitiu esse espírito aos filhos, sobrinhos, jovens da comunidade.
“Ele assistia golfe, sabia as regras de tudo, do tênis, do futebol americano, do golfe, ele era assim, um apaixonado por todo tipo de esporte”,
relata Neuzinha.
Entusiasmado por tecnologia, robótica, novos sistemas, cinema, séries, culinária – nunca se contentou com o óbvio, sempre queria mais do que apenas as coias do cotidiano.
A música também era um dos grandes amores de Maurício. Sexta-feira era seu dia sagrado: saía para prestigiar as bandinhas de Tangará, acompanhando com alegria o som que embalava a cidade. Onde houvesse música – fosse na Prime, na Bodega ou em qualquer cantinho com um palco e um violão – lá estava ele, sorrindo, celebrando a vida ao som do rock e do pop rock que tanto amava.
Maurício era um boêmio de carteirinha. Sempre ‘fugiu’ da rotina, do óbvio, do tédio. Era fácil de ver ele nas noites de sexta-feira cheio de energia e amor pra dar. Homem de riso fácil, expressão franca, amigo aberto à conversa, ao novo, ao mundo.
“Sua alma era grande como o céu tangaraense, e essa amplitude se refletiu nas pequenas e grandes escolhas da vida”,
comenta a esposa.
“Se eu tivesse que dar outro nome pra essa cidade, seria Shangri-lá (um lugar fictício paradisíaco, um refúgio de felicidade e longevidade criado pelo escritor inglês James Hilton em seu romance "Horizonte Perdido", em 1933)”,
poderia ter dito Maurício, segundo a esposa — porque ele viveu Tangará como raros vivem: com gratidão, serviço, pertencimento. E o Shangri-lá era seu reduto, seu chão, seu céu cheio de estrelas.
A cidade que ele escolheu lá nos primeiros anos da década de 1980 ainda tinha muitas ruas e estradas de chão batido, “picadas abertas por pioneiros” segundo relatos históricos no facão e no machado. Ele sabia da luta, da fé, da transformação e ele acreditava que aquela terra de poeira e mato fechado muito em breve se transformaria nesse belo rincão.
E Tangará, por sua vez, o acolheu: foram décadas de crescimento, de pés de cafés e pés de arroz, de “cultivos que abriram o caminho para o agronegócio”, para a agroindústria, o comércio e a pujança da gleba que se transformaria mais tarde num polo regional.
Hoje, quando Tangará respira, no auge de seus 50 anos e com mais de 120 mil habitantes, ela carrega também a vibração de pessoas como Maurício, que transcenderam solo e tornaram-se alma da comunidade.
“O Maurício era apaixonado por fotografar e filmar eventos da família, registrava e guardava tudo da família, imagens que viraram memória para as nossas novas gerações, para os filhos, netos e que servirão para a eternidade”,
fala Neuzinha.
Ela conta que o marido descobriu tarde o prazer de cozinhar, mas era um verdadeiro ‘master chef’, desses que todo mundo quer na cozinha. Fazia pratos doces e salgados e transformou a cozinha da chácara em um palco de alegria, prazer, degustação e amizade.
Outra de suas paixões, cujo legado ainda é visível até hoje na chácara onde ele viveu, eram as plantas.
“Plantava árvores como presente vivo, ‘para quem gosto’, dizia, e cada muda era promessa de vida”,
conta Neuzinha.
Segundo ela, nessas rodas de conversa sempre surgia o tema política.
“Ele gostava muito de política, mesmo desconfortável com rumos que viu ao longo da história, sua paixão era pelo Brasil, pelo local onde vivia, nesse caso Tangará, e pelo humano”,
relata.
Maurício até sonhou morar à beira mar. Não chegou a dar esse passo, mas assentou suas raízes no interior, e delas brotou algo ainda maior: esse vínculo com a terra, com a gente, com o tempo, com a vida, com o povo de Tangará da Serra.
Em 2 de maio de 2021, Maurício partiu, aos 63 anos. Em sua homenagem, o viveiro de mudas do Lions Clube de Tangará da Serra, onde há plantio de ipês e outras plantas para doação, recebe o nome de Maurício Ribas.
Maurício deixa mais que história e legado. Ele era novo ainda, jovem de corpo, alma e espírito – partiu, mas deixou rastros que não se apagam e um legado que jamais será esquecido. As tardes fagueiras, os momentos na cozinha, a lida com a terra, o abraço nos amigos, o carinho na esposa, nos filhos, nas netas.
Não faltou quase nada na vida de Maurício, além de tempo, pois ele deveria ter vivido mais e mais para continuar levando e trazendo a todos sua alegria, leveza, inteligência e o exemplo de que para se viver bem basta amar, cuidar e ter amigos e paz.