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Muito além do iPhone

Euller Sacramento 25/11/2025 Artigos

Porque no dia em que você para de correr atrás do que brilha por fora, começa a encontrar o que realmente ilumina por dentro

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Esses dias viralizou um vídeo no Paraguai: uma multidão espremida na porta de uma loja, gritando, empurrando, correndo como se a própria vida dependesse daquilo. O motivo? Um iPhone 16 por 199 dólares. Quando as portas abriram, parecia cena de desespero, gente tropeçando, caindo, passando por cima dos outros, como se ali estivesse a promessa de felicidade, validação, status, pertencimento.

E enquanto assistia, veio a reflexão para este artigo. Não era sobre o iPhone. Nunca é. Era sobre a fome. A fome de ser visto, de ter o que o outro tem, de postar para provar, de não se sentir para trás, de mostrar para o mundo, eu também consigo. Porque, no fim das contas, o objeto virou símbolo. Um passaporte social. Uma tentativa desesperada de preencher um vazio que nenhum celular, por mais caro que seja, vai resolver.

Vivemos numa época em que as pessoas topam se machucar, humilhar, correr risco, só para segurar na mão um aparelho que, meses depois, já estará “ultrapassado”. Uma época em que muitos preferem entrar numa confusão por um produto do que enfrentar o silêncio da própria vida. Porque mostrar que tem virou mais urgente do que perceber quem você é. E isso diz muito sobre o atual momento.

Viramos dependentes de validação. Reféns de curtidas, stories, do “nossa, que top”. A tecnologia, que deveria nos aproximar, virou palco de competição. E, sem perceber, trocamos o essencial pelo imediato. A paz pela performance. O cuidado pelo consumo. O valor pelo preço.

Mas o que realmente me fez refletir foi o seguinte: Quantas vezes fazemos exatamente isso, não numa loja, mas na vida? Nos empurramos para caber em padrões. Corremos para não parecer menos. Aceitamos migalhas emocionais para não ficar sozinhos. Viramos multidão tentando entrar em promoções que não nos pertencem, acreditando que ali, naquele “produto”, está a resposta que tanto procuramos.

Só que felicidade não está em um lançamento. Nem em uma marca. Nem em um objeto que te promete ser alguém. Felicidade nunca vem na caixa. Ela vem de dentro, quando você finalmente entende que nada, absolutamente nada, tem mais valor do que sua paz, sua dignidade e a forma como você escolhe viver, mesmo que ninguém esteja olhando.

Porque no dia em que você para de correr atrás do que brilha por fora, começa a encontrar o que realmente ilumina por dentro.

Euller Sacramento é Psicólogo Clínico
Instagram: 
@eullersacramento

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