É devastador. Mas arrisco dizer que o mais devastador não é apenas o número frio da estatística, é o silêncio ensurdecedor que o sustenta
Nos últimos meses, basta ligar a televisão ou rolar o feed das redes sociais para encontrar mais um caso de feminicídio, mais uma mulher que não voltará para casa, deixando filhos, sonhos e um vácuo irreparável. Uma mulher é assassinada a cada 6 horas neste país, simplesmente pelo fato de ser mulher.
É devastador. Mas arrisco dizer que o mais devastador não é apenas o número frio da estatística, é o silêncio ensurdecedor que o sustenta.
Trabalhei seis anos no CREAS atendendo diariamente mulheres vítimas de violência. Foram seis anos ouvindo histórias que ninguém gostaria de ouvir. Histórias que me tiraram noites de sono, que me fizeram entender, na prática, que a violência contra a mulher não é exceção, é rotina. Uma rotina macabra que muita gente, inclusive vizinhos e familiares, finge não existir para não ter que se incomodar.
Entre tantos atendimentos que marcaram minha trajetória, lembro de um, ela entrou na minha sala com o corpo encolhido, a voz baixa, o olhar de quem já tinha desistido de ser vista. Disse:
— Meu marido chega sempre muito bêbado… e se eu não transar com ele, eu apanho. E quando ele bebe demais, dorme em cima de mim. Eu só o empurro para o lado, espero passar e tento respirar.
Imaginar essa cena dói. É o peso físico e simbólico de um homem esmagando a existência de uma mulher. E enquanto essa realidade dilacera vidas, ainda tem quem diga que é exagero, que é “mimimi”, invenção de feminista ou drama da mulher atual. Tem quem diga que “em briga de marido e mulher não se mete a colher”. É muito mais fácil negar e usar ditados populares do que encarar o incômodo de que a violência tem nome, rosto e gênero definidos.
E quem provoca, majoritariamente, essa violência? HOMENS.
Não todos, mas sempre homens. Homens que aprenderam desde meninos que emoção é fraqueza, que mulher é posse, que “quem manda na casa sou eu”. Homens que carregam séculos de um machismo estrutural impregnado no tecido social e que, sem perceber ou questionar, repetem aquilo que viram, aquilo que a família normalizou, aquilo que a cultura reforça nas músicas e nas piadas de bar.
É exatamente por isso que cada pai e cada mãe têm uma responsabilidade gigantesca e urgente hoje: Educar seus meninos para que eles não se tornem os homens que ferem amanhã.