Diário da Serra

Educar Meninas Para Reconhecer o Amor e Nunca Aceitar a Violência

Euller Sacramento 10/12/2025 Artigos

Mostre com atitudes, que amor não machuca, que cuidado não controla e que respeito não se negocia

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Semana passada, falei sobre o peso que os pais de meninos carregam: a responsabilidade de formar homens que não reproduzam violência, que saibam lidar com frustração e que não confundam poder com amor. Mas existe outra parte dessa história, igualmente urgente e delicada: nossas meninas. O que elas aprendem conosco muito antes do primeiro namoro, muito antes do primeiro “eu te amo” fora de casa.

Atendo muitas mulheres que, já adultas, ainda carregam cicatrizes de relações violentas que começaram com pequenos sinais ignorados. E não porque “não perceberam”, mas porque nunca foram ensinadas a reconhecer. Elas aprenderam a ser fortes, responsáveis, independentes… mas não aprenderam a identificar a violência quando ela surge disfarçada de ciúme, de zelo ou de “preocupação”. E ensinar isso não é tarefa da escola, é da família.

É nesse ponto que olho para os pais, sobretudo para nós, homens, com firmeza e cuidado: sua filha aprende o que é amor observando você. Aprende o que é respeito vendo como você trata a mãe dela. Aprende o que é acolhimento percebendo sua presença ou sua ausência.

Não importa se a mãe dela é sua esposa, sua ex, sua parceira atual ou alguém com quem você já não tem relação afetiva. O que importa é o seu comportamento. Porque educação não acontece nas frases bonitas de domingo à tarde; acontece no cotidiano: no tom de voz, na paciência, no silêncio sem agressividade, na maneira como você lida com conflitos.

Muitas mulheres me dizem na clínica:

— Acho que é assim mesmo… meu pai também era assim.

É doloroso perceber como tantas repetem na vida adulta aquilo que viveram na infância, mesmo quando o que viveram foi descuido, desrespeito ou violência. O pai é a primeira referência masculina na vida de uma menina. E ela cresce acreditando que o amor se parece com aquilo que testemunhou dentro de casa, para o bem ou para o mal.

Por isso, ser um homem amoroso, respeitoso, justo e afetuoso não é apenas ser um “bom pai”. É formar uma mulher que, no futuro, não aceitará migalhas de afeto, não tolerará gritos, não normalizará humilhações. Você é a régua emocional dela. É o modelo silencioso que ela usará para decidir se um relacionamento, seja amoroso ou não, é seguro ou perigoso.

Portanto, mostre com atitudes, que amor não machuca, que cuidado não controla e que respeito não se negocia.


Euller Sacramento é Psicólogo Clínico
Instagram: @eullersacramento

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