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Quando o sucesso assusta mais do que o fracasso

Euller Sacramento 24/12/2025 Artigos

O sucesso, ao contrário, desmonta defesas. Ele exige constância, continuidade e, sobretudo, sustentar aquilo que foi conquistado e isso pode ser mais angustiante do que começar do zero.

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O final do ano costuma produzir um efeito curioso: as pessoas olham para trás, fazem balanços, listam conquistas, perdas e, quase automaticamente, prometem que “no ano que vem será diferente”. No entanto, algo se repete de forma silenciosa e persistente. Muitos iniciam projetos, relacionamentos, mudanças de vida. E o mais intrigante: frequentemente dá certo. O trabalho começa a prosperar, o reconhecimento aparece, os resultados surgem. É justamente aí que algo falha. A pessoa desiste, abandona, se desorganiza. E o fracasso, que parecia evitável, se instala.

Costumamos pensar que o ser humano teme fracassar. A clínica mostra algo mais complexo: muitas pessoas não suportam o sucesso. Não por incapacidade técnica, mas por uma dificuldade psíquica de sustentar o lugar que o sucesso exige. Avançar implica sair de posições conhecidas, abandonar narrativas antigas, romper com identidades construídas em torno da falta, da queixa ou da sobrevivência. O sucesso cobra um preço subjetivo alto: responsabilização, exposição e perda das desculpas.

Quando algo começa a dar certo, a pessoa é confrontada com uma pergunta incômoda: “E agora, quem eu sou sem essa dor?” Para alguns, o fracasso é familiar, quase confortável. Ele organiza a vida, justifica escolhas, mantém vínculos e preserva fantasias inconscientes. O sucesso, ao contrário, desmonta defesas. Ele exige constância, continuidade e, sobretudo, sustentar aquilo que foi conquistado e isso pode ser mais angustiante do que começar do zero.

Na prática, o fracasso repetido nem sempre é falta de esforço. Muitas vezes é uma repetição inconsciente: quando a pessoa se aproxima de um ponto de realização, algo o empurra de volta para o conhecido. A desistência surge travestida de cansaço, desmotivação ou “não era bem isso que eu queria”. Não se trata de azar, mas de um conflito silencioso entre desejo e medo de mudança real.

No encerramento do ano, talvez a reflexão mais honesta não seja listar metas grandiosas, mas perguntar: o que, em mim, não suporta que as coisas deem certo? Reconhecer esse ponto não é fraqueza, é maturidade psicológica. Sustentar o sucesso, muitas vezes, é o trabalho mais difícil de todos. E talvez o mais transformador para o ano que começa.


Euller Sacramento é Psicólogo Clínico
Instagram: @eullersacramento

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