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João Zanata – O homem que acreditou no futuro e ajudou a desenvolver Tangará da Serra

Alexandre Rolim / Especial DS 23/01/2026 Memória

Em abril de 1980, João Zanata chegou ao Mato Grosso

Memória

João Zanata – O homem que acreditou no futuro e ajudou a desenvolver Tangará da Serra

João Zanata foi um homem do seu tempo, mas também muito à frente dele. Visionário, trabalhador incansável e profundamente ligado à família e à comunidade, ajudou a escrever parte importante da história de Tangará da Serra e da região Médio-Norte de Mato Grosso. Sua trajetória é marcada por coragem, mudanças, recomeços e, sobretudo, pela capacidade de acreditar onde muitos ainda tinham dúvidas.

João Zanata nasceu em 24 de junho de 1934, Dia de São João Batista — daí o nome — na Fazenda Duas Covas, uma fazenda de café localizada onde hoje é o município de Andirá, no norte do Paraná. À época, Andirá ainda era distrito de Cambará, município já constituído.

Filho de Ângelo Zanata e Ana Pereira, João foi o sétimo entre dez irmãos, numa família simples, numerosa e trabalhadora. Os pais não eram proprietários da terra, mas viviam da lida no café, contando com um pequeno pedaço de chão para a subsistência. A infância foi marcada pelo trabalho desde cedo, pela união familiar e pelo cuidado da irmã mais velha, Benedita Zanata (tia Dita), a quem João sempre se referiu como sua “segunda mãe”.

Por volta dos 11 anos, a família deixou a fazenda e se mudou para a cidade de Andirá, onde o pai abriu uma pequena venda de secos e molhados na Rua São Paulo. Foi ali que João foi alfabetizado — mais tarde do que o comum — mas rapidamente demonstrou grande facilidade para aprender.

Organizado, dedicado e curioso, logo se destacou. Ainda adolescente, começou a trabalhar em uma farmácia, onde, aos 15 anos, já aplicava injeções e atendia pessoas doentes em casa, revelando desde cedo seu senso de solidariedade e responsabilidade.

Aos 17 anos, João serviu o Tiro de Guerra em Cambará, deslocando-se diariamente por estrada de chão. Logo depois, aos 18 anos, ingressou no Banco do Estado do Paraná, em Andirá, como contínuo. Sua competência e facilidade com números fizeram com que crescesse rapidamente dentro da instituição.

Aos 21 anos, já auxiliava na contabilidade do banco. Foi nesse período que conheceu Maria Luiza Polo Zanata, com quem se casou aos 26 anos, em 1961. No mesmo ano, foi promovido a gerente bancário e transferido para Mandaguari (PR), onde nasceu o primogênito, João Carlos Zanata, em 27 de dezembro de 1961.


Família, transferências e formação acadêmica

A carreira no banco levou João Zanata a diversas cidades do Paraná. Em Santa Mariana (PR) nasceu a filha Ana Maria Zanata, em 12 de dezembro de 1965. Depois, a família passou por Terra Rica e Nova Esperança, onde nasceu o filho caçula, Carlos Augusto Zanata, em 17 de abril de 1969.

Mesmo com rotina intensa, João buscou formação superior. Entre 1971 e 1975, cursou Economia na Universidade Estadual de Maringá, conciliando trabalho durante o dia e faculdade à noite, viajando cerca de 67 quilômetros diariamente.

Em Cianorte (PR), João deixou o banco e assumiu a Secretaria de Finanças do município. Em 1976, candidatou-se a prefeito, mas foi derrotado. O período que se seguiu foi de dificuldades financeiras e profissionais, agravadas pelo contexto político da época.

Mas foi justamente dessa fase que nasceu a maior virada de sua vida.


A chegada ao Mato Grosso e o espírito desbravador

Em abril de 1980, João Zanata chegou ao Mato Grosso, assumindo a gerência da Fazenda Jatobá, em Diamantino. Em julho de 1980, a família se mudou definitivamente. Ali, João participou dos primeiros movimentos da agricultura moderna no estado, defendendo, ainda no início dos anos 1980, que a soja poderia prosperar no cerrado com a correção do solo — visão que o tempo confirmou.

Em 1983, João Zanata foi convidado a integrar o projeto da Coprodia, tornando-se o funcionário número 1 da cooperativa. Atuou diretamente na elaboração de toda a estrutura técnica, administrativa e burocrática para a implantação da destilaria em Campo Novo do Parecis, quando a cidade ainda dava seus primeiros passos.

Entre 1985 e 1990, morou em Cuiabá, coordenando a chegada de equipamentos e a montagem do complexo industrial.


Tangará da Serra: a cidade do coração

Em 1990, João Zanata chegou a Tangará da Serra, onde morou por dez anos, até 2000. A cidade vivia um período de forte crescimento, e ele participou diretamente desse processo, atuando na Coprodia, na maçonaria, no Lions Clube e em diversas ações comunitárias.

Construiu laços profundos, amizades duradouras e deixou contribuições marcantes. Viveu inicialmente na Vila Alta e depois na Avenida Tancredo Neves. Seu carisma, facilidade de diálogo e espírito agregador fizeram dele uma figura respeitada e querida.

Também foi pioneiro na avicultura, implantando aviários, presidindo a associação do setor e ajudando a estruturar uma atividade que se tornou importante para a economia de Tangará da Serra.

Após morar em Campo Novo do Parecis entre 2000 e 2010, João Zanata e Maria Luiza Polo Zanata decidiram retornar definitivamente para Tangará da Serra, em 2011, cidade que consideravam especial e que marcou profundamente suas vidas. Aqui viveram até 2021, quando João Zanata faleceu, aos 86 anos, vítima da Covid-19.


SAUDADE, LEGADO E RECONHECIMENTO

João Zanata deixou três filhos, sete netos e quatro bisnetos, todos com raízes fincadas em Mato Grosso. Seu legado permanece vivo no desenvolvimento regional, nas instituições que ajudou a fortalecer e, principalmente, na memória afetiva de Tangará da Serra.

Em reconhecimento à sua trajetória, a Loja Maçônica Estrela de Tangará nº 11 fundou, no dia 5 de abril de 2025, a Loja de Lowtons Tio João Zanata nº 05, em homenagem a importante membro que contribuiu com a instituição por mais de 50 anos.

Em Campo Novo, a maçonaria também criou a Comenda João Zanata e em 2025 a Câmara e a Prefeitura de Diamantino denominaram uma ponte localizada na Travessa da República, sobre o Rio Ribeirão do Ouro, como “Ponte João Zanata”.



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