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Quando recomeçar ainda é motivo de alegria

Euller Sacramento 04/02/2026 Artigos

A escola, para ela, não é apenas um lugar de tarefas e horários, mas um espaço de encontros, pertencimento e descobertas

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Na noite anterior ao início das aulas, minha filha foi dormir mais cedo do que o habitual. Estava inquieta, com os olhos brilhando de expectativa. Falava dos amigos que iria reencontrar, dos colegas novos, das professoras que tanto gosta. Colocou o despertador para às cinco da manhã, mesmo sabendo que sua aula começa apenas às treze horas.

Enquanto a observava, pensei em algo que nós, adultos, vamos perdendo com o tempo: a capacidade de esperar algo bom com o coração inteiro. A escola, para ela, não é apenas um lugar de tarefas e horários, mas um espaço de encontros, pertencimento e descobertas. Para muitos adultos, os recomeços já não carregam esse brilho. Vêm acompanhados de cansaço, cobranças e preocupações.

O retorno às aulas vai além de cadernos novos ou rotinas ajustadas. Trata-se, sobretudo, de reinícios emocionais. Para as crianças, é voltar ao mundo fora de casa, aos vínculos, às pequenas vitórias cotidianas. Para os pais, é também revisitar memórias, expectativas e, muitas vezes, inseguranças que nem sempre percebemos que trazemos.

Enquanto minha filha dormia em paz, pensei também nas crianças e adolescentes que retornam à escola levando medos silenciosos, angústias e dores que não aparecem nos boletins. Nem toda ansiedade é visível. Nem todo silêncio indica tranquilidade. Muitas vezes, a mochila mais pesada não é a de livros, mas a emocional.
Costumamos perguntar: “Fez a tarefa?”, “Foi bem na prova?”, “Como estão as notas?”. Mas raramente perguntamos: “Como você se sentiu hoje?”, “Teve algo que te entristeceu?”, “O que te deixou feliz?”. A saúde mental também começa na escola. Começa na escuta, no acolhimento e na validação dos sentimentos, mesmo quando não sabemos como resolver.

A empolgação da minha filha me lembrou que aprender não é apenas acumular conteúdo, mas construir identidade, segurança e pertencimento. A escola ensina matemática e português, mas também ensina convivência, frustração, empatia e coragem.

Talvez a maior lição da volta às aulas esteja no modo como olhamos para nossos filhos. Eles nos ensinam que recomeçar pode ser leve, que confiar ainda é possível. Cabe a nós proteger essa chama, oferecendo segurança emocional e lembrando que nenhuma criança aprende bem quando não se sente segura.


Euller Sacramento é Psicólogo Clínico
Instagram: @eullersacramento

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