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Ari Gonçalves de Azevedo – O leiteiro que com uma charrete, conheceu as mansões de Tangará da Serra

Rosi Oliveira / Especial DS 13/02/2026 Memória

Ari chegou a Tangará em 31 de julho de 1980; Sebastiana foi exímia artesã em Tangará da Serra

Memória

O leiteiro que com uma charrete, conheceu as mansões de Tangará da Serra

Ari Gonçalves de Azevedo nasceu em 11 de maio de 1943, no município de Malacacheta, no estado de Minas Gerais, mas foi criado em Teófilo Otoni, e já nasceu com a missão de ser diferente.

 Filho de lavrador, iniciou cedo sua lida na roça e sabia como ninguém, como gerir a terra e tudo que ela dava de retorno. Criado em uma família numerosa, iniciada pelos pais Joaquim Xavier e Emília Gonçalves, cresceu ao lado dos irmãos Sebastião Xavier Martins, João Xavier Bertolo Gonçalves, Getúlio Gonçalves Martins, José Fabiano Azevedo, Margarida Gonçalves de Azevedo, Tereza Martins, Maria dos Anjos Martins, Maria Xavier Martins, Rita de Jesus Azevedo, Elizabete Martins de Azevedo e Maria Salete Gonçalves.

Desses, era um do meio, que muito cedo decidiu construir seu próprio caminho. Tanto que aos 16 anos deixa o pai em Minas Gerais e se muda o Paraná.

“Quando chegou lá, já arrumou umas terras para trabalhar”,

conta a filha Maria Aparecida Gomes de Azevedo.

Ao conseguir trabalho, mandou informar o pai, que veio ao seu encontro com toda a família.

“Eles moraram ali na região de Maringá”.

A mudança se deu pelos idos de 1952, onde passaram a se dedicar ao cultivo de café, arroz, milho e algodão. 

Depois de algum tempo, Ari se muda para Santa Elisa, onde arrendou um sítio. Ali, conhece Sebastiana Gomes. O namoro teve início em 1966 e em 25 de maio 1968 se casaram, recebendo 10 meses do enlace, a primeira  filha, Maria Aparecida, que conta a história do pai. Depois dela o casal teve mais quatro filhos, sendo: José Américo Gomes de Azevedo, Izaltino Donizete Gomes de Azevedo, Antônio Marcos Gomes de Azevedo e Agnaldo Gomes de Azevedo. 

A família agora já maior seguiu trabalhando a terra, e com muito esforço, conseguiu comprar a propriedade que havia arrendado.

“Com três anos que meu pai tinha feito esse arrendamento, ele já comprou essa propriedade. Foi a primeira propriedade que meu pai teve”,

narra a filha. 

Nesse sítio a família viveu até julho de 1980, quando se mudou para o estado de Mato Grosso, estabelecendo-se na cidade de Tangará da Serra, onde já havia familiares.

“Tinha o irmão do meu pai, Sebastião Xavier, uns primos que moraram na Gleba Triângulo, onde tinha a Comunidade dos Mineiros. A maioria da turma lá era a família do meu pai”.

Embora os familiares estivessem estabelecidos na Gleba Triângulo, Ari ao vir conhecer Tangará da Serra já comprou as terras na região do Ararão.

“Pegamos nossa mudança e viemos, eu, meu pai, minha mãe e meus dois irmãos de ônibus, e o restante em um caminhão com a mudança”,

conta. 

“Chegamos aqui no dia 31 de julho de 1980”,

lembra Cida.

No dia 1º de agosto chegou o caminhão com a mudança e um burro.

“Meu pai falava que tudo o que ele tinha, ele agradecia a Deus, à minha mãe e esse burro, porque na época não tinha trator, era tudo no braço e então tinha o arado. E arava a terra, tudo com o burro”. 

“Aqui a gente morava no meio da mata, não tinha cidade. Na primeira colheita de café que nós fizemos aqui, deu 100 sacas por mil pés. Tinha uma lavoura de 10.800 pés de café”.


O homem que honrava o fio do bigode e que não era rico só de dinheiro

Aos poucos Ari se tornou imensamente conhecido em Tangará da Serra, onde plantava, colhia e vendia. Ao lado da família foi abrindo a terra e por conta de muito esforço, acabou sofrendo um acidente, que em muito o prejudicou para lidar no pesado. 

Em conversas com um amigo, a quem entregava leite para revenda, assumiu os clientes e assim, se fez ainda mais conhecido.

“Ele entregou leite por 25 anos. Eu lembro dele na charrete. E nessa ‘entregação’ de leite, nós fizemos muitas amizades, porque a molecada adorava andar de charrete”. 

Com os filhos saindo de casa e formando suas famílias, optou por criação de gado branco, e passou a residir na cidade, mas sem abrir mão do sítio, seu grande amor.


Um inesperado adeus

Ari Gonçalves de Azevedo faleceu no dia 28 de abril de 2018, vítima de um infarto.

“Estava em casa, sentado na cadeira de fio, e reclamou a minha mãe que ele estava com alguma coisa na garganta sufocando ele, o que na verdade, já era um infarto”.

 Quem o conheceu, como essa humilde redatora, se fartou de um ser humano incrível. De um humor contrastante com seriedade irrepreensível. Apesar do pouco estudo, tinha de sobra a humildade que falta em muitos. Andava sempre na simplicidade de um trabalhador, com camisa de botão (tempos antigos), calça de alfaiataria vincada, chapéu, botina e entrava em qualquer lugar, sem se importar para luxos. A cor da roupa não refletia sua conta bancária e seu jeito sistemático de comprar somente o que realmente precisava, realçava com sua sistematicidade de quase nunca a prazo. Quem o via as vezes podia imaginar uma conta bancária de zero real, mas não sabia que o homem simples e humilde partiu sem deixar uma conta para trás e podia comprar o carro que quisesse, mas preferia sua charrete.

Ari foi reconhecido pela vereadora Dona Neide como cidadão contribuinte para o município que alimentou muitos tangaraenses e que deixou filhos, netas, netos e bisnetos que carregam com orgulho o sobrenome Azevedo.

Pelo reconhecimento, teve seu nome eternizado a Rua 10, do Bairro Reserva do Parque, que foi nominada oficialmente como Rua Ari Gonçalves de Azevedo.


Sebastiana Gomes de Azevedo – Um esteio para uma família que ainda não aprendeu a dizer adeus

Sebastiana Gomes de Azevedo nasceu em 31 de janeiro de 1948, no município de Campestre, no estado de Minas Gerais e assim como a maioria das moças de sua época, teve como brinquedo uma enxada e um campo para cultivar. Criada aos moldes antigos, desde cedo acompanhava os pais à lavoura, bem como os 12 irmãos: Lucia Gomes, Lourdes Gomes, Dirce Gomes, Diva do Carmo Gomes, Francisca Gomes, Celia Gomes, Nelson Gomes Rodrigues, Laércio Gomes, Gerson Gomes, José Gomes, Sinésio Gomes e Pedro Aparecido Gomes.

Com o sistema de antigamente, o foco de Sebastiana não foi o estudo, o que não impediu de aprender da vida, do zelo, do capricho e do amor. Era cozinheira exímia. Sua casa reluzia limpeza e as roupas eram tratadas como novas a cada lavada. Eram passadas com cuidado e vincos, além de perfume a brancura.

Sebastiana, em 1966, mudou-se para o estado do Paraná, onde passou a residir na zona rural, juntamente com a família. Na terra cultivavam arroz, milho e criava bicho-da-seda. 

Como divertimento os moradores tinham as festas de comunidades, onde conheceu Ari Gonçalves de Azevedo, com quem namorou por dois anos, casando-se em seguida. Os dois se conheceram em Santa Elisa, onde também se casaram, em 25 de maio 1968. Dessa união, nasceram cinco filhos: Maria Aparecida Gomes Azevedo, José Américo Gomes Azevedo, Izaltino Gomes Azevedo, Antônio Marcos Gomes Azevedo e Agnaldo Gomes Azevedo. 

Sebastiana trabalhou ao lado do esposo sem esmorecer e mesmo grávida, não deixava de ir à lavoura. Tanto que a primeira filha quase nasceu embaixo dos pés de cafés.

“Ela até falava que eu não nasci na roça porque no dia 25 de março, antigamente, era dia da Anunciação de Nossa Senhora, e os católicos guardavam esse dia”,

conta Maria Aparecida, primeira filha do casal.

“Daí, meu pai tinha saído, foi na cidade para comprar umas coisas e minha mãe passou mal”,

relata.

Quem acabou por socorrer Sebastiana foi um vizinho que chamou a parteira.

Trabalhadeira que era, levava a filha à roça. Ali, acomodava-a embaixo dos pés de cafés e a lida seguia.

“O meu segundo irmão nasceu sozinho, só com a minha mãe em casa”,

conta. 


A mulher que ensinou as artes

Em julho de 1980, o esposo Ari que já possuía parentes em Tangará da Serra resolve vir à localidade a fim de conhecer. Aqui, se hospeda em um hotel, onde conhece um senhor que fazia o serviço de corretor e aponta a Ari terras à venda. O esposo fica por uma semana olhando as terras e escolhe uma propriedade no Ararão. Após isso, retorna e busca a família.

Ao chegar a Tangará da Serra, Sebastiana ajudava o esposo, mas como a família já era mais numerosa, passou a se dedicar ao lar, o que não tinha nada de menos trabalhoso. A casa sempre esteve cheia de gente, aos que atendia com almoço, jantar e merendas, sempre com muita satisfação.

Quando os filhos já estavam maiores, atuou como feirante, vendendo café e hortaliças. Participou ativamente da criação e educação de seus netos mais velhos, ensinando-lhes o valor do trabalho, da culinária, do bordado e da costura. Em 2008, mudou-se para a cidade, saindo do sítio, onde passou a se dedicar ao artesanato. Suas peças eram vendidas com orgulho na Casa do Artesão, localizada na antiga praça da prefeitura.


Num de repente, o adeus

Com o passar dos anos a saúde já não era mais a mesma e passou a apresentar alguns problemas que eram acompanhados de perto pela família. Sebastiana apesar de perder o esposo, continuou cuidando dos seus e ajudando em tudo que podia.

Mas como dizem, o coração é traiçoeiro, e assim foi com a jovem senhora cheia de vida e vaidade. Necessitou de um cateterismo, mas não foi alertada da gravidade de seu caso.

“Corria o risco de ela não aguentar a cirurgia, como de fato aconteceu”.

Quando os cardiologistas aguardavam a família para informações mais precisas, teve um infarto, que os médicos conseguiram reverter com a reanimação. Mas ao segundo, infelizmente, não resistiu.

Um dos pontos fortes que recordo, pois a conheci, era sua segurança em relação ao seu matrimônio. Sebastiana não era de festas, mas jamais privou o esposo de ir aos bailes de que gostava muito, uma vez que era grande ‘dançador’.

“Escolhia e passava as roupas para ele ir. E quando ele voltava, era recebido com carinho”.

Sebastiana Gomes de Azevedo faleceu no dia 8 de agosto de 2021, deixando um legado de amor, trabalho e sabedoria às gerações que formou e inspirou. Reconhecendo seus feitos, a Rua 8 do bairro Reserva do Parque, foi nominada oficialmente como Rua Sebastiana Gomes de Azevedo, através da vereadora Dona Neide.



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