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Por que fugimos da nossa própria mente?

Anabelly Lima 24/02/2026 Artigos

Diferente das gerações anteriores, que utilizam a tecnologia como uma ferramenta facilitadora, as novas gerações a vivem

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Ao questionar meus alunos em uma aula sobre o que prefeririam perder, o acesso ao Wi-Fi ou o gosto de sua comida favorita, a resposta foi unânime e imediata: todos escolheram o Wi-Fi.

Essa escolha revela que os papéis se inverteram, tornando a perda  o paladar um sacrifício aceitável diante da perda da conexão. Diferente das gerações anteriores, que utilizam a tecnologia como uma ferramenta facilitadora, as novas gerações a vivem. Para elas, a conexão não é um acessório, é uma extensão do próprio ser.

Nas redes sociais, cada informação funciona como um jato de dopamina barata que vicia o cérebro em doses constantes e fáceis. Em contraste, ler um livro ou realizar atividades que exigem mais esforço cognitivo faz com que a dopamina demore mais para ser liberada, pois envolve um processo lento de compreensão, imaginação e gasto de energia. Essa dopamina liberada por etapas gera uma satisfação real e duradoura, mas, quando o cérebro se acostuma com a facilidade do estímulo digital, o esforço de ler um livro parece insuportável.

Experimentos em Harvard revelaram que muitos participantes (67% dos homens e 25% das mulheres) preferiram aplicar em si mesmos choques elétricos dolorosos a passar 15 minutos sozinhos com seus pensamentos. A pesquisa demonstrou que essa escolha não ocorreu.

necessariamente por causa de pensamentos negativos, mas sim porque pensar dá trabalho. Na ausência de estímulos externos, como celulares ou livros, somos obrigados a ser roteiristas e espectadores da nossa própria mente, decidindo e vivendo cenas mentalmente. Assim, o tédio não surge do pessimismo, mas sim porque o esforço de ‘fabricar’ o próprio entretenimento do zero é exaustivo para o nosso cérebro.

A fuga constante do silêncio tem um preço alto: a diminuição de quem somos. Bertrand Russell disse: “Uma geração que não suporta o tédio será uma geração de homens pequenos... homens em quem cada impulso vital murcha lentamente, como se fossem flores em um vaso.” Ou seja, ao evitarmos o tédio, deixamos de evoluir cognitivamente e nos tornamos seres sem vigor.


Anabelly Lima, estudante de Psicologia.
Acesse o artigo completo e referências em:

https://sl1nk.com/SubstackAnabellyLima

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