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Um dia ela não vai mais me chamar para dormir

Euller Sacramento 04/03/2026 Artigos

Um dia ela não vai mais caber no meu colo. Mas hoje cabe. E é hoje que eu escolho aproveitar

Um dia ela não vai mais  me chamar para dormir

Hoje acordei tomado por uma saudade que ainda nem aconteceu. Ainda era cedo quando passei pelo quarto e vi minha filha dormindo. O cabelo espalhado no travesseiro, a respiração tranquila, o corpo pequeno encolhido como quem ainda cabe inteiro no mundo. Fiquei ali parado, em silêncio. E, como acontece tantas vezes, o texto da Paula Jácome me visitou outra vez: “Aproveite o amor de pertinho…”

É estranho como certas palavras ganham vida quando a gente olha para um filho dormindo.

Um dia, assim, sem aviso, ela vai parar de me chamar para deitar ao lado até pegar no sono. Vai fechar a própria porta. Vai dizer que consegue sozinha. Um dia vai aquecer o próprio café da manhã, organizar a mochila sem pedir ajuda, resolver os próprios conflitos. Vai trocar as bonecas por conversas longas no telefone. Vai crescer. E eu vou me orgulhar disso. Muito.

Mas hoje… hoje ela ainda me chama para brincar. Ainda pede cócegas. Ainda atravessa a casa correndo só para me contar algo que, para o mundo, pode ser pequeno, mas para ela é gigante. Hoje ela ainda cabe no meu colo. E, se eu deixar, cabe também na minha pressa, nas minhas distrações, no meu celular.

A infância não avisa quando está indo embora. Ela vai se despedindo em detalhes: o último desenho na geladeira, a última vez que pede ajuda para tomar banho, o último “pai, dorme aqui”. E a gente só percebe depois.

O texto fala sobre aproveitar o cansaço, o barulho, a bagunça, a falta de espaço na cama. E é verdade. Porque um dia a cama fica arrumada demais. A casa silenciosa demais. O colo vazio demais. E o que sobra é a memória, doce e dolorida ao mesmo tempo.

Amar um filho é viver essa contradição constante: querer que cresça e, ao mesmo tempo, desejar que o tempo pare. É celebrar cada autonomia conquistada e, em segredo, sentir falta da dependência que um dia existiu.

Enquanto eu a observava dormir, senti um nó na garganta. Não por tristeza, mas por consciência. Consciência de que o agora é o único tempo que realmente temos. De que o amor precisa ser vivido de perto, com presença, com atenção, com entrega.

Um dia ela não vai mais caber no meu colo. Mas hoje cabe. E é hoje que eu escolho aproveitar.

Porque, quando o silêncio chegar, que ele encontre um coração cheio de lembranças e não de arrependimentos.


Euller Sacramento é Psicólogo Clínico
Instagram: @eullersacramento

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