Um dia ela não vai mais caber no meu colo. Mas hoje cabe. E é hoje que eu escolho aproveitar
Hoje acordei tomado por uma saudade que ainda nem aconteceu. Ainda era cedo quando passei pelo quarto e vi minha filha dormindo. O cabelo espalhado no travesseiro, a respiração tranquila, o corpo pequeno encolhido como quem ainda cabe inteiro no mundo. Fiquei ali parado, em silêncio. E, como acontece tantas vezes, o texto da Paula Jácome me visitou outra vez: “Aproveite o amor de pertinho…”
É estranho como certas palavras ganham vida quando a gente olha para um filho dormindo.
Um dia, assim, sem aviso, ela vai parar de me chamar para deitar ao lado até pegar no sono. Vai fechar a própria porta. Vai dizer que consegue sozinha. Um dia vai aquecer o próprio café da manhã, organizar a mochila sem pedir ajuda, resolver os próprios conflitos. Vai trocar as bonecas por conversas longas no telefone. Vai crescer. E eu vou me orgulhar disso. Muito.
Mas hoje… hoje ela ainda me chama para brincar. Ainda pede cócegas. Ainda atravessa a casa correndo só para me contar algo que, para o mundo, pode ser pequeno, mas para ela é gigante. Hoje ela ainda cabe no meu colo. E, se eu deixar, cabe também na minha pressa, nas minhas distrações, no meu celular.
A infância não avisa quando está indo embora. Ela vai se despedindo em detalhes: o último desenho na geladeira, a última vez que pede ajuda para tomar banho, o último “pai, dorme aqui”. E a gente só percebe depois.
O texto fala sobre aproveitar o cansaço, o barulho, a bagunça, a falta de espaço na cama. E é verdade. Porque um dia a cama fica arrumada demais. A casa silenciosa demais. O colo vazio demais. E o que sobra é a memória, doce e dolorida ao mesmo tempo.
Amar um filho é viver essa contradição constante: querer que cresça e, ao mesmo tempo, desejar que o tempo pare. É celebrar cada autonomia conquistada e, em segredo, sentir falta da dependência que um dia existiu.
Enquanto eu a observava dormir, senti um nó na garganta. Não por tristeza, mas por consciência. Consciência de que o agora é o único tempo que realmente temos. De que o amor precisa ser vivido de perto, com presença, com atenção, com entrega.
Um dia ela não vai mais caber no meu colo. Mas hoje cabe. E é hoje que eu escolho aproveitar.
Porque, quando o silêncio chegar, que ele encontre um coração cheio de lembranças e não de arrependimentos.