Com mais de 600 júris, ele encerra carreira nesta quinta, 12, na Comarca de Tangará da Serra
Uma paixão de quase meio século faz qualquer ser humano sentir o peso da despedida. Roberto Carlos canta que as paixões são impossíveis de esquecer.
“Das lembranças que eu trago na vida, você é a saudade que eu gosto de ter”.
Talvez essa estrofe transite pela mente do advogado criminalista Valter Caetano Locatelli, que fará nesta quinta-feira, dia 12 de março, sua última atuação no Tribunal do Júri, encerrando, em janeiro último, uma trajetória de 46 anos na advocacia, 40 deles exercidos em Tangará da Serra.
O júri, que acontece a partir das 8h30 na Comarca local, simboliza o encerramento de um ciclo profissional iniciado no Rio Grande do Sul e consolidado em Tangará da Serra, onde construiu a maior parte de sua história na advocacia criminal, demarcando uma das trajetórias mais conhecidas da área em Mato Grosso.
Neste último desafio, atuará como advogado de defesa em um caso de homicídio ocorrido no início dos anos 2000. Como em todos os processos dessa natureza, caberá ao criminalista sustentar que a defesa não existe para proteger o crime, mas para assegurar o cumprimento da Justiça.
Valter Caetano Locatelli é natural de Passo Fundo. Nasceu na década de 1960, em uma família de 13 filhos, de “seo” Orestes e dona Verônica. Trabalhou como engraxate na infância e ingressou no seminário com a intenção de se tornar padre. Posteriormente, cursou Técnico em Contabilidade e atuou na área por alguns anos.
A decisão pelo Direito surgiu após assistir a um filme cuja cena central retratava um embate entre advogado e promotor no Tribunal do Júri. Matriculou-se na Faculdade de Direito de Cruz Alta e colou grau em 1979, iniciando a carreira em Seberi, no Rio Grande do Sul.Em maio de 1985, visitou Tangará da Serra a convite de um amigo. Em janeiro de 1986, estabeleceu-se definitivamente na cidade, onde mantém, desde então, escritório na Avenida Brasil, nº 144.
Ao longo da carreira, participou de mais de 600 júris, atuando na maioria das comarcas de Mato Grosso e em outros sete estados brasileiros. A presença constante no plenário tornou-se marca de sua atuação profissional.
Nas petições e manifestações, Locatelli costuma registrar reflexões sobre o papel do advogado criminal. Entre as expressões recorrentes está a afirmação de que
“a advocacia criminal não é profissão para covardes”
e de que o defensor atua como porta-voz dos direitos constitucionais de quem ocupa o banco dos réus, culpado ou não.
Também recorre a ensinamentos de Ruy Barbosa, citando a defesa como função essencial à Justiça e à sociedade. Sustenta que o advogado deve permanecer ao lado do réu até o último momento processual.
Sobre o encerramento da carreira, resume:
“Hoje morre meu lado jurídico, mas levarei esses momentos para sempre guardados dentro do meu coração. Minha maior glória seria morrer no Tribunal do Júri”.