Diário da Serra
Diário da Serra

Autoridade sem empatia: o erro que quase cometi como pai

Euller Sacramento 18/03/2026 Artigos

Ser pais não nos dá o direito de invadir. Nos dá a responsabilidade de ensinar. Respeito não se impõe na força. Se constrói na relação.

Artigos

Outro dia, saí de casa cedo e peguei o celular da minha filha. O meu estava quebrado há semanas e naquele dia eu só precisava resolver o básico: usar o PIX. Peguei e fui. Sem avisar.

Aqui em casa, conversamos sobre tudo. Principalmente sobre o que pode ser difícil. Mas naquele dia eu não falei nada. Achei que não teria problemas.

Quando ela acordou e percebeu, chorou. Desabafou com a mãe e conseguiu dizer o que estava sentindo sobre eu ter pego seu celular. Não era birra. Era sentimento.

Quando fiquei sabendo, a primeira reação veio na hora. RAIVA. Pensei: “Como assim? Eu sou o pai. Faço tudo. E ela com ciúmes de um celular que eu só ia usar para resolver situações da casa?” Na minha cabeça, PARECIA ABSURDO.

É assustador como, no calor do momento, a nossa autoridade fala mais alto do que a nossa empatia. Quantas vezes nós, adultos, atropelamos os sentimentos dos filhos simplesmente porque achamos que a nossa posição de provedores nos dá o direito inquestionável de ignorar o espaço deles?

Exigimos obediência irrestrita dos nossos filhos, mas esquecemos que o respeito precisa ser uma via de mão dupla.

Naquele momento, não era sobre o celular.

Era sobre o lugar que eu achei que ocupava.

Existe uma ideia silenciosa que muitos pais carregam: a de que, por sermos pais, nossos filhos não deveriam sentir certas emoções em relação a nós. Como se amor anulasse ciúmes. Como se cuidado impedisse a raiva.

Mas não impede.

Filhos também sentem.

Sentem tudo.

Na clínica, vejo o quanto isso pesa. Crianças que aprendem, cedo demais, que certos sentimentos não são bem-vindos. E quando não podem sentir, começam a se calar. Ou explodem.

Ao longo do dia fiquei pensando. Percebi que, se eu tivesse seguido o impulso, teria tirado o celular dela e dito coisas que não ensinariam nada. Só aliviariam a minha frustração.

Quando cheguei em casa, fiz diferente. Sentei com ela e pedi desculpas por ter pegado algo que era dela sem avisar. Expliquei que eu estava sem celular e que, em alguns momentos, eu realmente precisaria usar o dela. Ela não gostou, mas entendeu.

E tudo bem não gostar.

Ser pais não nos dá o direito de invadir.

Nos dá a responsabilidade de ensinar.

Respeito não se impõe na força.

Se constrói na relação.

Afinal, é sobre aprender que até no amor existe espaço para sentir tudo. E que educar também é saber parar… antes de machucar.


Euller Sacramento é Psicólogo Clínico
Insta: @eullersacramento

Diário da Serra

Notícias da editoria