A gente costuma olhar para essas cenas com um certo alívio. Ver o filho enturmado, rodeado de amigos, dá a sensação de que ele encontrou seu lugar. Que está protegido. Que não sofre. Mas e se, dentro daquele grupo, ele não for quem sofre… e sim quem faz sofrer?
Outro dia, na saída da escola, fiquei observando uma cena comum. Crianças correndo, mochilas nas costas, risadas soltas. Entre elas, um menino fazia os outros rirem. Falava alto, gesticulava, parecia seguro. De longe, era fácil pensar: “Está tudo bem com ele.” Mas nem sempre está.
A gente costuma olhar para essas cenas com um certo alívio. Ver o filho enturmado, rodeado de amigos, dá a sensação de que ele encontrou seu lugar. Que está protegido. Que não sofre. Mas e se, dentro daquele grupo, ele não for quem sofre… e sim quem faz sofrer?
Quando se fala em bullying, quase sempre pensamos na vítima. E com razão. A dor de quem é humilhado, excluído, ferido emocionalmente, é profunda e merece atenção. Mas existe um outro lado dessa história que muitas vezes evitamos olhar: o de quem agride.
Existe uma tendência de enxergar o agressor como o “vilão”. Como alguém simplesmente maldoso. Mas, na prática clínica, a realidade costuma ser mais complexa. Crianças e adolescentes que machucam outros, muitas vezes, também estão machucados.
Por trás da agressividade, pode existir frustração, insegurança e raiva acumulada. Às vezes, experiências de desrespeito que foram naturalizadas. Outras vezes, uma tentativa confusa de se sentir pertencente, forte, aceito. A agressão, nesses casos, não é força, é desorganização emocional. Isso não justifica o comportamento, mas ajuda a entender.
A família tem um papel central nisso tudo. A forma como se fala em casa, como se resolvem conflitos, como o respeito é vivido, não apenas cobrado, constrói, silenciosamente, o modo como a criança vai se relacionar com o outro.
Na clínica, é comum perceber que, por trás de um comportamento agressivo, existe uma dificuldade de lidar com emoções. E, muitas vezes, falta espaço para falar sobre isso. Por isso, se há qualquer sinal de que seu filho possa estar envolvido em situações de bullying, o caminho não é acusar. É se aproximar, perguntar, escutar, observar.
A escola também precisa assumir seu papel. Não como espectadora, mas como agente ativo na construção de relações mais saudáveis. Trabalhar empatia, limites e convivência não é um complemento da educação. É parte essencial dela.
No fim das contas, o bullying não é uma história de um lado só, é um encontro de dores e toda dor que não é compreendida… encontra uma forma de aparecer.