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Liberdade ou Autorização? Um Olhar Clínico Sobre o Limite do Discurso de Ódio

Euller Sacramento 01/04/2026 Artigos

A violência começa no discurso, preparando o terreno até que o corpo entre em cena

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Certa vez ouvi um relato que marcou para sempre a minha forma de entender a violência. Uma mulher sentou-se à minha frente e descreveu o momento exato em que foi agredida. Mas o que mais me chamou a atenção naquela sessão não foi a descrição do soco, foi o que veio antes: “Ele já vinha me diminuindo, me tratando como nada”. Quem trabalha com o sofrimento humano aprende rápido uma verdade difícil: a agressão física quase nunca é o começo. Ela é o desfecho trágico de um processo.

Ao longo da minha prática clínica, vi esse roteiro se repetir. Primeiro vem a palavra, o deboche, a ideia de que a mulher vale menos. A violência começa no discurso, preparando o terreno até que o corpo entre em cena. Por isso o recente avanço do PL 896/2023, que inclui a misoginia na Lei do Racismo, provocou tanto debate. A proposta reconhece que o ódio às mulheres não é apenas “opinião”, mas a própria estrutura da violência.

Os números exigem respostas. No Brasil, choramos cerca de quatro feminicídios por dia. Em Mato Grosso, 32% das mulheres já sofreram violência doméstica, muitas com o primeiro episódio ainda na adolescência. Não falamos de exceções, mas de um padrão adoecedor. Ainda assim, parte da ala conservadora critica o projeto, argumentando que a lei é vaga e ameaça a liberdade de expressão.

Como psicólogo clínico, compreendo o receio em torno da linguagem. Mas, do ponto de vista clínico e social, é preciso clareza: quando não há limite imposto ao discurso de ódio, o que se instala não é liberdade, é autorização. Quando a violência simbólica é naturalizada, a palavra abre caminho para o ato. A ausência de limite comunica permissão.

Isso não significa que a lei resolva tudo sozinha. Nenhuma lei dá conta da complexidade humana, mas ela delimita, nomeia e estabelece um contorno. O enfrentamento real e a prevenção primária começam antes do crime. Começam na educação, nas piadas que deixamos de normalizar e no ato de ensinar aos jovens que respeitar não é apenas “não bater”, é não desumanizar.

A maior reflexão não recai apenas sobre o texto da lei, mas sobre o que permitimos circular como “normal” no nosso convívio. O corpo ferido quase sempre começa com uma palavra aceita. E toda palavra que não encontra limite, um dia, encontra um corpo.


Euller Sacramento é Psicólogo Clínico
Instagram: @eullersacramento

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