Existe um tipo de dor que paralisa, que dá a sensação de que tudo ficou congelado, como se a vida tivesse estacionado em um ponto sem saída. Mas não está. A vida não é estática. A vida é movimento.
Semana passada, sentado à mesa com minha filha estudando geografia, me deparei com uma daquelas informações que a gente aprende na escola. Ela lia em voz alta: a Terra gira em torno de si mesma a aproximadamente 1.670 km/h na linha do Equador. Esse movimento chama-se rotação. É o que faz o dia virar noite. Logo depois, ela leu que a Terra também gira ao redor do Sol a cerca de 107 mil km/h. Esse é o movimento de translação, responsável pelos anos e pelas estações.
Ela me olhou tentando imaginar aquilo tudo. E nós ficamos alguns segundos em silêncio. Porque existe algo quase desconcertante nessa constatação: mesmo quando estamos parados, estamos em movimento. A gente não sente. Não percebe. Mas está acontecendo.
E foi ali, naquela cena simples, que me lembrei de algo que escuto com frequência na clínica. Pessoas que chegam carregando um sofrimento intenso, dizendo: “Eu acho que não vou sair disso”, ou “Minha vida é assim mesmo”. Existe um tipo de dor que paralisa, que dá a sensação de que tudo ficou congelado, como se a vida tivesse estacionado em um ponto sem saída.
Mas não está. A vida não é estática. A vida é movimento.
O problema é que, internamente, muitas vezes tudo parece imóvel. Os pensamentos se repetem, as emoções parecem girar no mesmo lugar, a rotina pesa. E, aos poucos, a pessoa começa a acreditar que aquilo é permanente. Mas não é.
Assim como a Terra continua girando em alta velocidade, mesmo sem que a gente perceba, a vida também segue em movimento, mesmo quando não sentimos. Mudanças silenciosas acontecem o tempo todo. Pequenas decisões, pequenas percepções, pequenos deslocamentos internos que, somados, transformam trajetórias inteiras.
Nem toda mudança é barulhenta. Muitas começam em silêncio.
Na prática clínica, vejo isso com frequência, pessoas que chegam acreditando que nada muda, mas que, aos poucos, começam a se movimentar por dentro. Primeiro na forma de pensar. Depois na forma de se posicionar. E, quando percebem, a vida já não é mais a mesma.
Leva tempo, mas acontece. Talvez o maior engano seja acreditar que, porque hoje parece igual, amanhã também será. O universo não para. A vida também não. E, mesmo quando tudo dentro de você parece imóvel, algo já começou a se mover, porque ninguém está realmente parado. Às vezes, só ainda não percebeu que já começou a sair do lugar.