Era conhecido como “Capixaba”, pela simplicidade, responsabilidade
O livro Memória narra histórias de pessoas que chegaram a Tangará da Serra quando tudo ainda era difícil, e, em todas as histórias, os pioneiros deixaram no município sua marca. Os relatos de hoje tratam exatamente desse ponto. Um legado que salta aos olhos dos tangaraenses como, por exemplo, o prédio da antiga Prefeitura Municipal, hoje sede do SINE, o prédio da atual Prefeitura Municipal, que anteriormente abrigou uma universidade, a Escola Estadual Ramon Sanches Marques, a Escola Emanuel Pinheiro, atualmente Escola Militar Tiradentes, a Escola 29 de Novembro, os prédios das Lojas Barateira e do Hotel Delcas, são a herança deixada para os tangaraenses que chegariam ou nasceriam na cidade que encantou Belmiro Pianna Gonçalves e que foi escolhida por ele para construir uma vida ao lado dos seus.
Nascido em uma família numerosa e humilde, liderada por Anna Pianna Gonçalves e Antenor Gonçalves, na cidade de Colatina, Espírito Santo, onde teve a companhia de nove irmãos, dos quais era o mais velho, acabou por ver e acompanhar o pai trabalhando na construção civil, o que lhe rendeu a oportunidade de deixar um legado esplendoroso em Tangará da Serra através de seu dom de construir.
Por isso, tornou-se um ‘Mestre de Obras’ e com isso sustentou a família.
“Ele começou a construir casas, desde menorzinha, até mansões”,
relata a filha Alzeni do Nascimento Gonçalves, ao destacar que apesar de pouco estudo era impressionante em cálculos.
Era conhecido como “Capixaba”, pela simplicidade, responsabilidade e pelo compromisso com tudo o que fazia.
Ao se tornar rapaz, a família resolve desbravar outros cantos, e isso os leva a conhecer a comunidade rural de Aparecida do Leste, em Poxoréu, no Mato Grosso.
Ali conhece a esposa, Eremita do Nascimento Gonçalves com quem inicia sua família. Como as notícias correm, ouve falar de Tangará da Serra e em companhia de alguns homens da família entre eles, o pai e o avô, rumam para conhecer o lugar. Depois de um tempo em terras tangaraenses, cerca de seis meses, se abate sobre a localidade uma febre que causa muitas mortes.
“Eles queriam desbravar o Mato Grosso e conta a história que aqui como estava começando, vieram e nessa época a febre atacou a localidade”,
conta a filha.
O grupo de Belmiro decide então, retornar a Poxoréu. Mas, o coração dos desbravadores que estiveram no pequeno povoado “Tangará da Serra” em formação, já estava cativo, e depois de um tempo e do cessar da mortandade, retornam. Agora com todos da família.
Ao lado da esposa Eremita do Nascimento Gonçalves, chegou no ano de 1970 e já traziam nos braços a primeira filha, Aparecida. Tempos depois o casal recebe Alzeni e Elias.
Com o retorno, a família estreitou laços com a família de Thais Barbosa e com isso, o trabalho na construção civil se alavancou.
“Onde meu pai começou a construir sonhos. Aqui ele construiu prédios que tem nome e renome”.
Alzeni se emociona.
“É gratificante saber que eu posso não estar aqui amanhã, mas quem passar por aquela rua vai ver o nome do meu pai”.
Em Tangará da Serra, Belmiro acompanhou de perto a emancipação político-administrativa, ocorrida em 1976.
Dentre as diversas contribuições, realizou a instalação da antena da primeira emissora de rádio da cidade, a Rádio Pioneira, que era localizada na Vila Nazaré, bem como se prontificou para construir a Igreja Santa Terezinha.
Além dessas importantes contribuições, Belmiro também atuou em grandes empresas do setor da construção civil, como a Lorenzetti, e participou de diversas empreitadas em fazendas, levando seu conhecimento e sua força de trabalho por toda a região. Sua trajetória foi marcada pela dedicação incansável ao trabalho — uma entrega tão profunda que, de forma simbólica e comovente, seu último ato foi justamente fazendo aquilo que mais amava: construir. Belmiro faleceu em uma obra, enquanto erguia a casa de sua própria filha. Sua partida deixou saudade, mas também um legado eterno. Cada parede levantada, cada prédio concluído, cada espaço que ajudou a criar permanece como testemunho vivo de sua história. Belmiro Pianna Gonçalves não apenas construiu obras — ele construiu a história de Tangará da Serra.
A vida, feita de lutas constantes, também trouxe desafios, e com o passar dos anos sua saúde foi se enfraquecendo. Ainda assim, manteve-se fiel ao seu propósito de trabalhar e construir. Pai dedicado, deixou como maior herança sua família: três filhos, sete netos e três bisnetos que não teve a oportunidade de conhecer. Belmiro nasceu no dia 5 de junho de 1950 e partiu em 05 de agosto de 2009, deixando sua marca na cidade que tanto amou e viu do alto das construções que edificou.
Por tão relevante trabalho, foi homenageado pelo vereador Edmilson Porfírio com seu nome dado à rua antes denominada ‘Direita’, no bairro Vila Portuguesa, eternizada como Belmiro Pianna Gonçalves.