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A Dor da Presença Vazia no Lar

Euller Sacramento 06/05/2026 Artigos

Filhos que crescem ao lado dos pais, mas sem acesso a eles. Sem abraço. Sem palavra. Sem um “eu te amo” dito de forma inteira. E o mais duro é que, muitas vezes, não é falta de amor. É falta de caminho

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Certa vez, em sessão, um pai me disse algo que me fez observar. Ele falava olhando para o chão, como quem já tinha ensaiado aquela frase muitas vezes: “Eu não sei demonstrar carinho.” O filho estava ali. Quieto. Esperando alguma coisa que não vinha. E, naquele silêncio, dava para sentir. Não era falta de presença. Ele estava ali, sentado, dentro de casa, cumprindo seu papel. Mas, ao mesmo tempo, parecia distante, como se existisse um espaço invisível entre eles que ninguém conseguia atravessar.

Tem pais que não foram embora, mas emocionalmente nunca chegaram.

Ao longo dos anos de clínica, essa cena se repete mais do que deveria. Filhos que crescem ao lado dos pais, mas sem acesso a eles. Sem abraço. Sem palavra. Sem um “eu te amo” dito de forma inteira. E o mais duro é que, muitas vezes, não é falta de amor. É falta de caminho. São homens que aprenderam, lá atrás, que sentir era perigoso, que demonstrar era fraqueza, que ser forte era ser duro, calado, distante. E, sem perceber, vão repetindo isso dentro de casa.

Quando o filho se aproxima, pedindo atenção, o que aparece não é acolhimento. É irritação. É defesa. É uma fala atravessada que tenta afastar o que, no fundo, não sabem como lidar. E o filho sente. Criança percebe ausência mesmo quando o corpo está presente. Vai crescendo tentando entender o que fez de errado, buscando migalhas de atenção, tentando conquistar um olhar que nunca vem inteiro.

Isso não vira apenas memória. Vira marca.

Na vida adulta, aparece como insegurança, dificuldade de se relacionar, um vazio difícil de explicar. E, no meio disso tudo, existe uma pergunta silenciosa: por que é tão difícil demonstrar amor para quem mais importa? Talvez porque ninguém ensinou. Talvez porque, para alguns homens, amar ainda parece um risco.

Mas o que a clínica mostra, com o tempo, é que não existe força na ausência. Não existe proteção no silêncio. Não existe cuidado na distância. Porque filho não precisa de um pai perfeito. Precisa de um pai que consiga chegar. Mesmo que seja aos poucos. Mesmo que seja aprendendo.

Porque, no fim, o que marca não é só quem foi embora. É quem ficou… mas nunca conseguiu estar. A boa notícia é que ainda dá tempo de reescrever essa história. Um abraço ou um simples ‘estou aqui’ começam a erguer uma ponte sobre esse abismo. Não deixe que o silêncio seja a sua herança. Dê o primeiro passo.


Euller Sacramento é Psicólogo Clínico
Instagram: @eullersacramento

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