Diário da Serra

50 ANOS – Dos sonhos dos pioneiros ao nascimento de uma cidade: a história de Thaís Barbosa e José Amando se confunde com a de Tangará

Alexandre Rolim / Especial DS 13/05/2026 Memória

Tangará da Serra carrega nas avenidas, escolas, bairros e famílias a marca daqueles pioneiros que acreditaram em um sonho

Thaís Bergo Duarte Barbosa, Prefeita (1976–1981)

Dos sonhos dos pioneiros  ao nascimento de uma cidade: a história de Thaís Barbosa e José Amando se confunde com a de Tangará

Nesta quarta-feira, dia 13 de maio de 2026, Tangará da Serra celebra 50 anos de emancipação política e administrativa. Meio século de uma cidade construída por mãos pioneiras, sonhos coletivos e histórias que atravessam gerações. Entre essas histórias está a da senhora Thaís Bergo Duarte Barbosa, hoje com 85 anos, mulher que acompanhou de perto o nascimento do município e que mais tarde se tornaria a primeira prefeita da cidade.

Ao recordar o passado, dona Thaís mistura emoção, memória e gratidão. Sua trajetória pessoal se entrelaça diretamente com a de Tangará da Serra e também com a de José Amando Barbosa, ex-prefeito de Barra do Bugres e um dos principais responsáveis pela emancipação do município.

Natural de Goiás, criada em Mato Grosso e com estudos realizados em Minas Gerais, Thaís conheceu José Amando em Dourados, no Mato Grosso do Sul. Na época, ela trabalhava no Hospital Evangélico, onde seu pai era diretor. José Amando atuava como agrimensor e vendedor de terras na região. O namoro virou noivado e depois casamento, mas dona Thaís lembra, em tom bem-humorado, que fez uma exigência ao futuro marido.

“Se você entrar na política, eu separo de você”,

contou ela, recordando as dificuldades que viu a própria mãe enfrentar por causa da vida política do pai.

Mas o destino já preparava outro caminho para os dois.

O casal adquiriu uma área de terra na região de Arenápolis (Santo Afonso) e veio para Mato Grosso com o sonho simples que movia muitos pioneiros da época: plantar café e construir uma vida nova. Eles se instalaram na região da Água Branca, em meio à mata fechada, quando praticamente tudo ainda estava por ser construído.

Foi então que resolveram conhecer a pequena povoação chamada Tangará da Serra.

Naquele tempo, Tangará ainda era distrito de Barra do Bugres. Pequena, distante e sem estrutura, a localidade começava a receber famílias vindas de várias partes do país. Ao chegar ali, José Amando rapidamente criou amizade com pioneiros da região, entre eles Antônio Hortolani. Encantado com o potencial da terra e com o povo que aqui vivia, ele lançou uma ideia que mudaria para sempre a história do município.

“Vamos trabalhar para criar um município aqui”.

Segundo dona Thaís, foi naquele momento que nasceu o sonho da emancipação de Tangará da Serra.

A partir dali, um grupo de pioneiros começou a se organizar politicamente para fortalecer a localidade. O plano era estratégico: eleger José Amando prefeito de Barra do Bugres para que ele pudesse ajudar diretamente no desenvolvimento de Tangará da Serra e criar as condições necessárias para que o distrito se tornasse cidade.

José Amando foi eleito prefeito de Barra do Bugres e iniciou uma série de ações fundamentais para o crescimento de Tangará. Na época, segundo dona Thaís, o município-mãe era pobre, tinha pouca arrecadação e enormes dificuldades financeiras. Mesmo assim, ele começou a estruturar o distrito.

Uma das principais medidas foi a criação do posto fiscal na Serra de Tapirapuã, com o objetivo de demonstrar que Tangará da Serra possuía arrecadação suficiente para se tornar município. Também foi realizado um grande trabalho de ampliação do número de títulos eleitorais, comprovando o crescimento populacional da região.

Ao mesmo tempo, vieram os investimentos na educação.

José Amando trabalhou para a criação do ginásio educacional em Tangará da Serra — algo extremamente importante nos anos 70, quando poucas localidades da região tinham acesso ao ensino além das séries iniciais. Também participou da ampliação da antiga Escola Estadual 29 de Novembro, construindo a primeira parte da unidade escolar que se tornaria símbolo da educação tangaraense.

Com escolas, crescimento populacional, arrecadação e desenvolvimento econômico, Tangará começou a ganhar força política.

Depois do mandato como prefeito de Barra do Bugres, surgiu um novo desafio: eleger José Amando deputado estadual. Segundo dona Thaís, a intenção era clara. Como parlamentar, ele teria ainda mais força para lutar pela emancipação de Tangará da Serra junto ao governo estadual.

E assim aconteceu.

Com grande apoio popular e forte votação em Tangará, José Amando foi eleito deputado estadual. A cidade vivia um clima de união entre os pioneiros, embora ainda existisse um pequeno grupo contrário à emancipação, ligado politicamente a Barra do Bugres.

Mas a vontade popular falou mais alto. No plebiscito realizado para decidir o futuro do distrito, a população foi às urnas para responder “Sim” ou “Não” à criação do novo município. O “Sim” venceu.

Nascia oficialmente Tangará da Serra. Hoje, ao completar 50 anos de emancipação, Tangará da Serra carrega nas avenidas, escolas, bairros e famílias a marca daqueles pioneiros que acreditaram em um sonho quando aqui ainda existiam estradas de chão, mata fechada e esperança.


José Amando Barbosa: político indispensável no processo de transformação de Tangará da Serra em realidade

No dia em que Tangará da Serra celebra seus 50 anos de emancipação político-administrativa, neste 13 de maio de 2026, um dos nomes mais lembrados na construção da história do município é o de José Amando Barbosa Mota. Visionário, articulador político e defensor do desenvolvimento do interior de Mato Grosso, ele foi uma das figuras decisivas para que o então pequeno povoado de Vila Tangará conquistasse autonomia e se transformasse em uma das cidades mais importantes do estado.

Nascido em Crateús, no Ceará, em 4 de maio de 1932, José Amando chegou ainda jovem a Mato Grosso, onde construiu uma trajetória marcada pelo trabalho e pela vida pública. Empresário, administrador, agrimensor e político, exerceu cargos importantes como prefeito de Barra do Bugres, deputado estadual e deputado federal. Ao longo dos anos, tornou-se conhecido pela forte atuação em defesa do médio-norte mato-grossense e pela capacidade de articular investimentos e projetos para a região.

Na década de 1970, Tangará da Serra ainda era um núcleo em formação. Conhecida inicialmente como Vila Tangará, a localidade vivia o crescimento impulsionado pela agricultura e pela chegada de migrantes vindos principalmente do Paraná, São Paulo, Minas Gerais e Rio Grande do Sul. Mesmo com o desenvolvimento acelerado, a comunidade enfrentava dificuldades estruturais e dependia administrativamente de Barra do Bugres e Diamantino, situação que limitava o avanço da região.

Foi nesse cenário que José Amando Barbosa Mota teve papel fundamental. Como deputado estadual, apresentou na Assembleia Legislativa de Mato Grosso o projeto que resultou na emancipação oficial de Tangará da Serra, concretizada em 13 de maio de 1976. A proposta enfrentou resistência política e debates intensos, já que os municípios de origem não queriam perder território, arrecadação e influência econômica. Ainda assim, prevaleceu a visão de futuro defendida por José Amando, que enxergava na força agrícola e no potencial humano da região a capacidade de construir um município forte e independente.

Cinco décadas depois, a história confirma aquela aposta. Tangará da Serra ultrapassou a marca de 100 mil habitantes, consolidou-se como potência agrícola, polo universitário e referência regional em desenvolvimento econômico. Grande parte dessa trajetória nasceu da coragem dos pioneiros e também da articulação política de líderes que acreditaram no potencial da cidade quando tudo ainda era apenas um sonho em meio ao interior mato-grossense.

Além da emancipação, José Amando teve atuação importante no fortalecimento regional, incentivando a ocupação agrícola e buscando apoio junto ao governo federal para os municípios mato-grossenses. Durante o governo de José Sarney, ganhou destaque em Brasília pela proximidade política e pela defesa dos interesses do interior de Mato Grosso.

A ligação da família Barbosa Mota com Tangará da Serra também se tornou histórica. Sua esposa, Thaís Bergo Duarte Barbosa, entrou para a história como a primeira prefeita do município e posteriormente deputada estadual, ajudando na consolidação administrativa da cidade recém-emancipada.

José Amando Barbosa Mota faleceu em 20 de maio de 2025, em Brasília. Sua partida encerrou a vida de um dos grandes articuladores políticos da história de Tangará da Serra, mas seu legado permanece vivo em cada avenida aberta, em cada bairro construído e em cada família que encontrou na cidade uma terra de oportunidades.

Cinquenta anos após a emancipação, seu nome segue ligado de forma definitiva à origem, ao crescimento e à identidade de Tangará da Serra.


Primeira prefeita de Tangará, Thaís Barbosa relembra desafios, conquistas e emoção ao falar dos 50 anos do município

A história dos 50 anos de Tangará da Serra passa diretamente pelas mãos e pela coragem de Thaís Barbosa, a primeira mulher eleita para administrar o município recém-emancipado no Médio Norte de Mato Grosso. Em entrevista emocionante concedida ao repórter Alexandre Rolim, a ex-prefeita relembrou os bastidores da criação da cidade, os desafios enfrentados no início da administração e as conquistas que ajudaram a estruturar Tangará da Serra nas áreas da saúde, educação, energia, comunicação e infraestrutura.

Hoje morando em Brasília, perto das filhas, dona Thaís falou com emoção sobre a trajetória construída ao lado do esposo, José Amando, um dos nomes fundamentais no processo de emancipação política do município. Ela também recordou a luta de pioneiros, agricultores, lideranças políticas e moradores que ajudaram a transformar um pequeno povoado em uma das cidades mais importantes do interior mato-grossense.

Segundo Thaís Barbosa, a criação de Tangará da Serra exigiu intensas articulações políticas na Assembleia Legislativa de Mato Grosso. Na época, áreas pertencentes a Diamantino e Barra do Bugres precisariam ser reorganizadas para a formação do novo município, o que gerou resistência de deputados estaduais que representavam essas regiões.

Ela destacou que houve pressa para aprovação do projeto de lei e que muitas áreas acabaram ficando fora do território de Tangará para garantir a aprovação dentro do prazo legal.

“Foi aprovado do jeito que o Amando conseguiu, porque o tempo era curto para que a lei fosse aprovada”,

lembrou.

Thaís também relembrou que o então governador Garcia Neto fez questão de ir pessoalmente até Tangará da Serra para sancionar a lei de criação do município já dentro do território emancipado, marcando oficialmente o nascimento da cidade.


A mulher que nunca pensou em entrar para a política

Thaís contou que jamais imaginou disputar uma eleição. Segundo ela, sequer desejava que o marido ingressasse na vida política. Porém, o grupo político ligado à antiga Arena decidiu que ela deveria ser candidata à prefeitura.

A eleição histórica terminou com uma vitória expressiva: 84% dos votos.

“Eu nunca sonhava entrar na política. Mas as coisas mudam e o tempo faz com que as coisas aconteçam de uma maneira diferente”,

afirmou.

Ela lembra que enfrentou desafios por ser mulher, jovem e mãe de três filhos pequenos em uma época em que a participação feminina na política ainda era muito limitada.

“Naquela época não era fácil, mas fui muito compreendida pela população”,

disse.

A cerimônia de posse da primeira prefeita de Tangará da Serra entrou para a história. Sem prédio público, sem prefeitura e sem estrutura administrativa, tudo precisou ser improvisado.

A posse aconteceu em 1º de fevereiro de 1977, em um palanque montado ao ar livre, com a Bandeira do Brasil ao fundo.

“Não tínhamos salão, não tínhamos nada. O povo queria participar e foi tudo feito no palanque”,

recordou.

Ela também destacou a participação do advogado Pedro Ávila, recém-chegado ao município, responsável pela redação da ata de posse da prefeita e dos vereadores.

Thaís Barbosa revelou que o primeiro ano de administração foi extremamente difícil financeiramente. Como o município acabava de ser criado, ainda não havia legislação aprovada para cobrança de IPTU e alvarás.

Mesmo sem arrecadação, a administração começou a estruturar Tangará da Serra praticamente do zero.

A prefeitura tinha apenas um secretário e funcionava dividida em setores como contabilidade, educação, assistência social e finanças. Segundo Thaís, o advogado Valdomiro Rodrigues teve papel importante na organização administrativa inicial do município.

“Não tínhamos condições de ter vários secretários porque o município não tinha recursos”,

explicou.


A abertura da Avenida Brasil e a mudança da igreja

Outro episódio marcante lembrado por Thaís Barbosa foi a abertura da Avenida Brasil.

Na época, a antiga igreja católica estava fora do alinhamento urbano planejado e precisava ser transferida para permitir a continuidade da avenida e a organização do centro da cidade.

A prefeitura negociou diretamente com a Igreja Católica e ofereceu opções de áreas para construção do novo templo.

Com apoio da própria prefeitura, que realizou aterros e serviços com caminhões, a nova igreja foi construída e a Avenida Brasil pôde ser aberta definitivamente.

O prédio da prefeitura:

“o ápice da administração”

Thaís Barbosa considera a construção do antigo prédio da prefeitura uma das maiores realizações da sua gestão.

A obra foi construída lentamente, praticamente com recursos próprios e muita economia. Segundo ela, o governo estadual enviou apenas uma pequena parte dos recursos necessários.

“Foi feito com muito esforço”,

relembrou.

O prédio foi inaugurado em 13 de maio de 1982 e passou a abrigar também sessões da Câmara Municipal.

“Foi uma alegria muito grande conseguir construir com recursos tão minguados”,

disse emocionada.

Na entrevista ao especial dos 50 anos, Thaís Barbosa também deixou uma mensagem de incentivo à participação feminina na política.

Ela criticou situações em que mulheres são lançadas candidatas apenas para preencher cotas partidárias, sem apoio real das siglas.

“Essa luta deve ser vencida. Depende de nós, mulheres, enfrentarmos e conseguirmos o nosso lugar na política”,

afirmou.

Thaís relembrou ainda que, além de prefeita, também foi deputada constituinte eleita em Mato Grosso, reforçando que sua trajetória deve servir de inspiração para outras mulheres.



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