Minha filha não acorda calculando se o dia vai ser bom. Ela acorda e decide que vai brincar. Ela não precisa de contexto para ser feliz. Um sofá vira montanha, uma colher vira microfone, eu fazendo bobeira vira o maior espetáculo da tarde. Para ela, a alegria é o estado padrão. A tristeza é que precisa de explicação
Dias atrás eu estava sentado no sofá, cansado, com o celular na mão e aquela lista mental de coisas pra resolver que a gente sempre carrega. Contas, reuniões, compromissos, mensagens não respondidas. O peso comum de ser adulto.
Aí minha filha chegou.
Ela simplesmente apareceu do nada na minha frente, me olhou nos olhos e sorriu. Um sorriso daqueles que não precisa de motivo. Um sorriso que não quer nada em troca. Eu sorri de volta, quase no reflexo. E ela caiu na risada.
Por quê? Porque eu fiz uma careta boba, nem sei explicar direito o que foi. Mas ela achou a coisa mais engraçada do mundo. Rolou no sofá. Ficou vermelha de tanto rir. E ali, naquele momento bobo e perfeito, eu fiquei olhando para ela pensando: quando foi que eu perdi isso? Quando foi que rir ficou difícil?
Quando foi que a alegria passou a precisar de justificativa, de motivo, de merecimento, de uma pausa no calendário pra acontecer?
Minha filha não acorda calculando se o dia vai ser bom. Ela acorda e decide que vai brincar. Ela não precisa de contexto para ser feliz. Um sofá vira montanha, uma colher vira microfone, eu fazendo bobeira vira o maior espetáculo da tarde. Para ela, a alegria é o estado padrão. A tristeza é que precisa de explicação.
E com os adultos, a gente vai invertendo isso sem perceber. A alegria vira exceção. Algo que acontece quando tudo estiver resolvido, quando pagar as contas, quando terminar o projeto, quando tirar férias, quando o filho crescer um pouco mais. Aí sim, a gente vai ser feliz. Mas enquanto isso, a gente fica sério. Ocupado. Responsável.
Os problemas existem, e pesam. A vida adulta tem um custo real que nenhuma criança tem que pagar ainda. Mas a questão é: quando foi que começamos a confundir seriedade com ausência de alegria? Quando ser adulto passou a significar não rir à toa?
Somos anestesiados pelo excesso de responsabilidade, pela pressa, pela cultura do desempenho. O presente vira lugar de passagem. A leveza vira frescura.
E a criança, que ainda não aprendeu a troca, continua ali, te puxando pelo braço, pedindo para brincar, te convidando de volta.
Ela não sabe que quando cai na risada por causa da minha careta boba, me lembra que ainda tem uma versão de mim que sabe ser leve.
Que essa versão não morreu. Só foi sendo empurrada para baixo das responsabilidades.