Não era dada a cargos ou melindres e, para ela, serviço era serviço e não devia ser escolhido
A história que contaremos é mais uma de uma família que contribuiu sobremaneira para o desenvolvimento de Tangará da Serra. Desta família, por serviços relevantes prestados, três pessoas foram homenageadas pelo Legislativo Municipal. Essa, é a história de Anna Piana Gonçalves, nascida na zona rural de Vargem Alta, no Espírito Santo, filha de Lucas Pianna e Victória Tomazine.
Nascida aos 29 dias do mês de setembro, não teve uma infância fácil, pois mesmo ainda nova, iniciou com os pais a trabalhar para ajudar no sustento da família, onde aprendeu valores inegociáveis de caráter e retidão.
Ao lado dos sete irmãos: Florentino, Angelo, Gentil, Augostinho, Antônia, Martina e Cecília cresceu sabendo que a vida não seria fácil se não se tornasse forte.
Entre trabalho e casa, ainda muito jovem conheceu Antenor Gonçalves (história já contada em edições anteriores) com quem construiu uma família numerosa de 10 filhos: Belmiro Pianna Gonçalves, depois Maria da Penha Pianna Gonçalves, seguida de Milton Pianna Gonçalves, José Pianna Gonçalves, Luzia Piana Gonçalves, Iraci Pianna Gonçalves, Irene Pianna Gonçalves, Isabel Pianna Gonçalves, Jonas Pianna Gonçalves, e o caçula Francisco, mais conhecido como Chico Pianna.
O casamento foi em 14 de agosto de 1951.
“Eles eram vizinhos de sítio e participavam de grupo de jovens. Ali se conheceram e começaram a namorar, casando-se depois”,
relata a filha Iraci.
Depois do casamento, o esposo, que era visionário, decidiu se mudar, com vistas a iniciar uma nova vida, e a escolha foi o Mato Grosso. Ao lado da família do esposo, chegou a Aparecida do Leste. Embora tivessem gostado do lugar, o esposo, que estava com o sogro, ouve falar de Tangará da Serra e rumam para conhecer o lugar que ainda estava em formação.
Anna fica com os filhos e outros familiares aguardando o retorno.
Em Tangará da Serra o esposo e os demais permanecem pelo período de seis meses, e retornam após um surto de Malária que matou muita gente.
Quando ficam sabendo que a doença havia acabado, a família inteira se muda para Tangará da Serra. Chegam em 1976, e iniciam amizades e descobertas, o que aos poucos, a faz conhecida na localidade. Como era trabalhadeira e caprichosa, não lhe faltava serviço. A chegada se deu próxima a emancipação política da cidade que se desmembrou de Barra do Bugres, elegendo como primeira prefeita, Thaís Bergo Barbosa.
Anna, assim como toda a família, estreitou laços com a família Barbosa, para quem trabalhou inclusive, como lavadeira.
A família fixou residência na Vila Alta e Anna passou a ser chamada carinhosamente, de Dona Anna e ficou bastante conhecida.
Em uma época em que a energia elétrica era um recurso escasso e água encanada era apenas um sonho, lavava as roupas ‘na mão’.
Como não enjeitava trabalhos, passou a ser solicitada em todas as festas da Igreja Santa Terezinha, que ficava nas proximidades de sua residência.
Não era dada a cargos ou melindres e, para ela, serviço era serviço e não devia ser escolhido. Fazia desde a limpeza até a organização de eventos, sempre de bom grado.
O aprendizado dos pais levou para vida, e, principalmente, para sua casa, sua família, o que foi ainda mais reforçado ao encontrar o companheiro de vida que, assim como ela, fazia de tudo para ajudar, e assim transformavam desconhecidos, em uma parte preciosa da família. A casa estava sempre aberta para acolher aqueles que moravam nas fazendas e careciam de pouso, fosse por uma noite ou mais.
Pessoas de outras regiões também encontravam abrigo na casa de Anna. Ali ela disponibilizava não só uma cama e uma coberta, mas apoio e incentivos. Assim as amizades se fortaleciam e a família crescia com os agregados amados.
Repassou aos seus o que aprendeu e recebeu nos braços com prazer os filhos de seus filhos e os filhos de seus netos, vislumbrando a chegada de sua terceira geração.
A vida seguia seu curso e Anna fazia tudo que podia para servir com amor e dedicação, sem olhar a quem. Era amável e tratava a todos com afabilidade e alegria, uma vez que era bastante extrovertida.
Embora nada tenha sido fácil e já estivesse acostumada com os revezes da vida, talvez, o maior deles foi a perda do esposo no ano 2000.
Como toda mulher de fibra e resiliente, dobrou, mas não quebrou. Viveu seu luto e continuou sua caminhada até o ano de 2012, quando acometida por problemas de saúde, começou a desacelerar sua rotina. Partiu no dia 6 de agosto, prestes a completar 87 anos, por um Acidente Vascular Cerebral (AVC), deixando uma família que chegou sem muito, mas que conquistou demais.
O reconhecimento de sua grandeza e ajuda na construção de uma Tangará da Serra melhor que deixou para os seus e para nós, veio através do vereador Edmilson Porfírio que eternizou seu nome na Rua 22 do bairro Buritis, que desde então se chama Rua Anna Pianna Gonçalves.