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QUANDO ELE ACHA QUE ESTÁ DIVIDINDO

Euller Sacramento 24/06/2026 Artigos

A diferença entre as percepções não nasce da má-fé masculina, mas de um ponto cego construído ao longo de gerações. O homem que leva o filho ao médico, que dá banho nas sextas-feiras e aparece nas reuniões escolares acredita, com razão, que está participando. E está. O problema é que participar não é o mesmo que dividir

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Uma pesquisa recente da Ticket, marca de benefícios da Edenred Brasil, trouxe um dado que merece atenção de todo casal com filhos: 90% dos pais afirmam dividir igualmente os cuidados com as crianças. Entre as mães, apenas 53% concordam com essa avaliação. O levantamento ouviu quase dois mil brasileiros entre abril e maio deste ano e revelou algo que, na prática clínica, já se observa há muito tempo: homens e mulheres, muitas vezes, não estão vivendo a mesma família.

Esse número não é uma acusação. É um convite à reflexão.

A diferença entre as percepções não nasce da má-fé masculina, mas de um ponto cego construído ao longo de gerações. O homem que leva o filho ao médico, que dá banho nas sextas-feiras e aparece nas reuniões escolares acredita, com razão, que está participando. E está. O problema é que participar não é o mesmo que dividir.

Dividir implica gestão. Implica carregar, mesmo sem ser lembrado, o peso mental de saber que a vacina vence semana que vem, que o uniforme está rasgado, que a criança está dormindo mal há dias. Essa camada invisível do cuidado raramente aparece nas listas de tarefas, mas consome energia, tempo e atenção de quem a carrega. E, na esmagadora maioria das famílias, quem carrega é a mãe.

Os próprios dados da pesquisa mostram uma piora no cenário. Em 2025, 67% das mães reconheciam divisão igualitária. Em 2026, esse número caiu para 53%. Ou seja, enquanto a percepção masculina segue elevada e estável, a experiência feminina aponta na direção oposta.

Isso tem consequências que vão além do relacionamento conjugal. Mães sobrecarregadas adoecem mais, pedem demissão com mais frequência, abrem mão de promoções, dormem menos e adoecem em silêncio. Não é coincidência que os debates sobre saúde mental feminina e equidade no trabalho estejam crescendo exatamente no mesmo ritmo em que esses dados aparecem.

A solução não é simples e não cabe num artigo. Mas começa com uma pergunta honesta que cada pai pode se fazer: na última semana, você tomou alguma decisão sobre os filhos sem precisar perguntar nada para a sua parceira, ou foi ela quem te atualizou sobre o que estava acontecendo? Se você precisa ser informado para poder agir, então você não está dividindo. Está de plantão. E plantão só funciona quando alguém chama. Pai não é socorrista. É presença contínua.


Euller Sacramento é Psicólogo Clínico
Instagram: @eullersacramento

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