João chegou a Tangará da Serra ainda adolescente
Nos dias atuais, o que mais se ouve são filhos reclamando de falta de contato com os pais que saem para trabalhar e trazer o sustento para casa. Vivendo atualmente em um mundo de correrias, mal sabem eles que este não é o mal desse século. Desde muito tempo, a maioria dos pais é ausente, não por vontade, mas por necessidade.
Essa é a história de João Ferreira de Lima, que conheceu ainda bem cedo a necessidade de trabalhar para ajudar os pais. Em uma família de cinco filhos, toda ajuda era bem-vinda, e, se espelhando no pai, João tomou para si o ensinamento que repassou as cinco filhas Cristina Ferreira de Lima, Selma Ferreira de Lima, Marcia Ferreira de Lima, Cláudia Ferreira de Lima e Roselene Ferreira de Lima.
João foi o caçula e chegou depois de Geraldo Ferreira de Lima, Vicente Ferreira de Lima, José Ferreira de Lima e Jandira Ferreira de Lima.
Nasceu em 02 de junho de 1959, na cidade de Iepê, no estado de São Paulo, onde passou a infância com sua família.
“Na época, o meu avô mexia com sítio”,
relata a filha caçula, Roselene, a vereadora Zi Lima.
Em Iepê João passou boa parte da infância, onde mais trabalhou do que estudou, obtendo apenas o ensino fundamental.
Certo dia, o pai, que já possuía parentes em Tangará da Serra, decide se mudar.
“Devido aos familiares aqui, que já tinham vindo, então, entraram em contato com o meu avô, e foi onde o meu avô veio para Tangará da Serra”.
A mudança se deu no ano de 1971, e João já era um adolescente. Em Tangará a família conseguiu trabalho na Fazenda Santa Rita, no Distrito de Progresso.
Tempos depois, o jovem foi trabalhar na Fazenda Paraíso, onde passou muitos anos e fez importantes amizades. Foi nesse período que conheceu sua esposa, Cleide Antunes de Lima, com quem se casou. Juntos, tiveram cinco filhas: Cristina, Selma, Márcia, Claudia e Zi Lima.
“Meu pai era uma pessoa muito amorosa e muito galanteador”,
sorri Zi Lima, ao revelar que como a mãe era muito nova, houve a necessidade de aumentar a idade para que a união fosse possível.
Depois disso, o casal jamais se separou, construindo uma família sólida e feliz, que passou por diversos revezes, mas jamais soltaram as mãos. O casal, tempos depois, decide se mudar para Tangará da Serra (cidade) onde João trabalhou exercendo diversas funções, mas a que lhe arrebatou o coração foi ser motorista.
Por esse motivo, sua permanência em casa era curta. Com isso, incentivou as seis mulheres que tinha em casa a serem altruístas, determinadas, obstinadas e prontas a aprender e fazer quando não houvesse a quem recorrer.
“Meu pai ensinou a gente a ter atitude e a não depender dos outros. Crescemos fazendo o que precisava ser feito, sem esperar que ele chegasse de uma viajem para resolver”.
“Eu falo que nós somos cinco mulheres e que nós aprendemos a ser homens. A gente aprendeu a se virar no momento que ele não pôde estar junto e presente”.
Por causa de suas viagens, conheceu Castanheira, onde moravam os pais da esposa. Gostou do lugar, e para lá se mudou com a família, retornando a Tangará da Serra em 1995. Com afinco e dedicação, conseguiu comprar sua própria carreta, se tornando empreendedor.
“Meu pai viajava bastante e ficava às vezes uma semana longe de casa, quando as viagens eram mais longas”.
Em Tangará da Serra tornou-se mais conhecido como “João Bode”, e era bastante admirado por sua postura, onde eram claros e destacados os preceitos de caráter e honra familiar.
Em 2018, a vida de João foi impactada por um diagnóstico difícil: ele descobriu que tinha um câncer agressivo, mas, apesar das dificuldades e da luta que a doença trouxe, João nunca desistiu de seus sonhos e continuou a ser uma fonte de inspiração para todos ao seu redor. Sua força e coragem diante do desafio difícil do câncer refletiram seu legado de fé e determinação. Infelizmente, João faleceu em 30 de agosto de 2018, deixando para sua família e amigos um legado de luta, dedicação e amor.
“Ele dizia que a enfermeira podia cuidar de outros pacientes antes de o atender, e dizia sempre que, ‘eu tenho as minhas cinco filhas que cuidam de mim’. Então, a gente pôde ter a oportunidade de viver isso. Ele mostrar essa parte muito humana e dizer que nós não somos ninguém. Meu pai teve a humildade de nos ensinar realmente como é o mundo nos seus últimos 60 dias de vida”.
João é descrito pela filha como bem-humorado, carinhoso, honesto e dono de um coração imenso que as filhas somente conheceram e entenderam já nos últimos dias de sua vida.
“Eu sentia muita falta dele e reclamava muito com ele, mas entendi que ele fazia aquilo, de não estar com a gente, para não nos deixar faltar nada”.
Zi relata que o pai era terno e de expressar amor, o que marcou todas as filhas.
“Porque como ele não ficava muito em casa, então a gente tinha aquela coisa da ausência, do não estar ali presente o tempo todo, conversando com a gente, e não estar mostrando realmente, a grandeza do homem que ele era”.
Assim como dito pela filha caçula, João adoeceu e foi parado pela vida, que lhe cortou as viagens, o nascer e o pôr do sol da janela da carreta, o amanhecer em um lugar diferente do outro e ver o sol se por de onde quisesse. Ali, se despiu do papel de homem forte e que não era abalado, mas se mostrou o pai bondoso e extravasou seu amor pelas mulheres de sua vida.
Através da doença, as filhas conheceram o pai, pois João mostrou que nunca se perde por ser bom e gentil, por ajudar quem ataca e principalmente, que nada se leva da vida além da vida que se vive. João ensinou que nem sempre, quem está na frente, chega primeiro.
João não marcou apenas sua família, mas todos que o rodeavam. Por isso e por ter levado e trazido o progresso para Tangará da Serra nas cargas de seu caminhão e também por ter forjado filhas fortes que alimentam no município todos os dias o seu nome e sobrenome, foi homenageado pela Câmara Municipal de Vereadores através da filha, Zi Lima e teve o nome eternizado na antes Rua Um, no bairro Jardim Tarumã, que passou a ser chamar Rua João Ferreira de Lima.
Além das seis mulheres que mais amou, João recebeu a alegria de ver a sua segunda e o começo da terceira geração que é composta de 11 netos e dois bisnetos.