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João Ferreira de Lima – o motorista que transportou o progresso na carroceria de caminhões

Rosi Oliveira / Especial DS 10/07/2026 Memória

João chegou a Tangará da Serra ainda adolescente

Nasceu em 02 de junho de 1959, na cidade de Iepê

João Ferreira de Lima, o motorista que transportou o progresso na carroceria de caminhões

Nos dias atuais, o que mais se ouve são filhos reclamando de falta de contato com os pais que saem para trabalhar e trazer o sustento para casa. Vivendo atualmente em um mundo de correrias, mal sabem eles que este não é o mal desse século. Desde muito tempo, a maioria dos pais é ausente, não por vontade, mas por necessidade.

Essa é a história de João Ferreira de Lima, que conheceu ainda bem cedo a necessidade de trabalhar para ajudar os pais. Em uma família de cinco filhos, toda ajuda era bem-vinda, e, se espelhando no pai, João tomou para si o ensinamento que repassou as cinco filhas Cristina Ferreira de Lima, Selma Ferreira de Lima, Marcia Ferreira de Lima, Cláudia Ferreira de Lima e Roselene Ferreira de Lima.

João foi o caçula e chegou depois de Geraldo Ferreira de Lima, Vicente Ferreira de Lima, José Ferreira de Lima e Jandira Ferreira de Lima.

Nasceu em 02 de junho de 1959, na cidade de Iepê, no estado de São Paulo, onde passou a infância com sua família.

“Na época, o meu avô mexia com sítio”,

relata a filha caçula, Roselene, a vereadora Zi Lima.

Em Iepê João passou boa parte da infância, onde mais trabalhou do que estudou, obtendo apenas o ensino fundamental.


A mudança de cidade, estado e de vida

Certo dia, o pai, que já possuía parentes em Tangará da Serra, decide se mudar.

“Devido aos familiares aqui, que já tinham vindo, então, entraram em contato com o meu avô, e foi onde o meu avô veio para Tangará da Serra”.

A mudança se deu no ano de 1971, e João já era um adolescente. Em Tangará a família conseguiu trabalho na Fazenda Santa Rita, no Distrito de Progresso.

Tempos depois, o jovem foi trabalhar na Fazenda Paraíso, onde passou muitos anos e fez importantes amizades. Foi nesse período que conheceu sua esposa, Cleide Antunes de Lima, com quem se casou. Juntos, tiveram cinco filhas: Cristina, Selma, Márcia, Claudia e Zi Lima.

“Meu pai era uma pessoa muito amorosa e muito galanteador”,

sorri Zi Lima, ao revelar que como a mãe era muito nova, houve a necessidade de aumentar a idade para que a união fosse possível.

Depois disso, o casal jamais se separou, construindo uma família sólida e feliz, que passou por diversos revezes, mas jamais soltaram as mãos. O casal, tempos depois, decide se mudar para Tangará da Serra (cidade) onde João trabalhou exercendo diversas funções, mas a que lhe arrebatou o coração foi ser motorista.

Por esse motivo, sua permanência em casa era curta. Com isso, incentivou as seis mulheres que tinha em casa a serem altruístas, determinadas, obstinadas e prontas a aprender e fazer quando não houvesse a quem recorrer.

“Meu pai ensinou a gente a ter atitude e a não depender dos outros. Crescemos fazendo o que precisava ser feito, sem esperar que ele chegasse de uma viajem para resolver”.

“Eu falo que nós somos cinco mulheres e que nós aprendemos a ser homens. A gente aprendeu a se virar no momento que ele não pôde estar junto e presente”.


De viagens em viagens, um novo pouso

Por causa de suas viagens, conheceu Castanheira, onde moravam os pais da esposa. Gostou do lugar, e para lá se mudou com a família, retornando a Tangará da Serra em 1995. Com afinco e dedicação, conseguiu comprar sua própria carreta, se tornando empreendedor.

“Meu pai viajava bastante e ficava às vezes uma semana longe de casa, quando as viagens eram mais longas”.

Em Tangará da Serra tornou-se mais conhecido como “João Bode”, e era bastante admirado por sua postura, onde eram claros e destacados os preceitos de caráter e honra familiar.


Quando o tempo fica curto, mas o aprendizado é grande

Em 2018, a vida de João foi impactada por um diagnóstico difícil: ele descobriu que tinha um câncer agressivo, mas, apesar das dificuldades e da luta que a doença trouxe, João nunca desistiu de seus sonhos e continuou a ser uma fonte de inspiração para todos ao seu redor. Sua força e coragem diante do desafio difícil do câncer refletiram seu legado de fé e determinação. Infelizmente, João faleceu em 30 de agosto de 2018, deixando para sua família e amigos um legado de luta, dedicação e amor.

“Ele dizia que a enfermeira podia cuidar de outros pacientes antes de o atender, e dizia sempre que, ‘eu tenho as minhas cinco filhas que cuidam de mim’. Então, a gente pôde ter a oportunidade de viver isso. Ele mostrar essa parte muito humana e dizer que nós não somos ninguém. Meu pai teve a humildade de nos ensinar realmente como é o mundo nos seus últimos 60 dias de vida”.

João é descrito pela filha como bem-humorado, carinhoso, honesto e dono de um coração imenso que as filhas somente conheceram e entenderam já nos últimos dias de sua vida.

“Eu sentia muita falta dele e reclamava muito com ele, mas entendi que ele fazia aquilo, de não estar com a gente, para não nos deixar faltar nada”.

Zi relata que o pai era terno e de expressar amor, o que marcou todas as filhas.

“Porque como ele não ficava muito em casa, então a gente tinha aquela coisa da ausência, do não estar ali presente o tempo todo, conversando com a gente, e não estar mostrando realmente, a grandeza do homem que ele era”.

Assim como dito pela filha caçula, João adoeceu e foi parado pela vida, que lhe cortou as viagens, o nascer e o pôr do sol da janela da carreta, o amanhecer em um lugar diferente do outro e ver o sol se por de onde quisesse. Ali, se despiu do papel de homem forte e que não era abalado, mas se mostrou o pai bondoso e extravasou seu amor pelas mulheres de sua vida.

Através da doença, as filhas conheceram o pai, pois João mostrou que nunca se perde por ser bom e gentil, por ajudar quem ataca e principalmente, que nada se leva da vida além da vida que se vive. João ensinou que nem sempre, quem está na frente, chega primeiro.


Uma trajetória reconhecida e homenageada

João não marcou apenas sua família, mas todos que o rodeavam. Por isso e por ter levado e trazido o progresso para Tangará da Serra nas cargas de seu caminhão e também por ter forjado filhas fortes que alimentam no município todos os dias o seu nome e sobrenome, foi homenageado pela Câmara Municipal de Vereadores através da filha, Zi Lima e teve o nome eternizado na antes Rua Um, no bairro Jardim Tarumã, que passou a ser chamar Rua João Ferreira de Lima.

Além das seis mulheres que mais amou, João recebeu a alegria de ver a sua segunda e o começo da terceira geração que é composta de 11 netos e dois bisnetos.



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