Eu entendo o que está por trás disso: o desejo real de preparar um filho para o mundo, de criar alguém forte o suficiente para seguir sozinho quando precisar
Tem uma frase que ouço com frequência de pais e mães na clínica, quase sempre dita com orgulho genuíno:
“quero que meu filho seja independente.”
Eu entendo o que está por trás disso: o desejo real de preparar um filho para o mundo, de criar alguém forte o suficiente para seguir sozinho quando precisar.
Só que há uma confusão aí que vale a pena desfazer antes que ela vire método de criação. Independência e autonomia não são a mesma coisa. E essa diferença, pequena no vocabulário, é enorme na prática. Independência é fazer sozinho, sem precisar de ninguém. Autonomia é saber que pode tentar e saber que, se precisar, tem alguém por perto. Uma nasce do isolamento. A outra nasce do vínculo.
A criança não desenvolve autonomia apesar da presença dos pais. Ela desenvolve autonomia por causa dela.
Funciona assim: quando uma criança sente que tem uma base segura, alguém que está lá, que responde, que não some quando ela erra ou quando chora, ela se sente capaz de se afastar, de explorar, de tentar coisas novas, de cair e levantar sem catástrofe. É o paradoxo mais bonito da criação: quanto mais vínculo, mais ousadia. Quanto mais presença do adulto, mais a criança consegue ficar sem ele.
O que vejo na clínica, com frequência, é o caminho contrário sendo tentado. Pais que, querendo criar filhos fortes, se afastam cedo demais. Que não respondem toda vez que a criança chama, porque
“senão acostuma”.
Que deixam chorar porque
“precisa aprender a se virar”.
E a criança, sem base segura, não desenvolve ousadia, desenvolve ansiedade. Não aprende a explorar o mundo, aprende a se proteger dele.
Filho que não tem vínculo não vira independente. Vira filho que parece independente, mas por dentro está sozinho.
A autonomia real, aquela que dura, que sustenta, que permite que um adulto enfrente o mundo sem se despedaçar, nasce de uma infância onde alguém esteve presente o suficiente para que essa presença fosse internalizada. Onde a criança aprendeu, no corpo, que o mundo é um lugar seguro para se arriscar. Que cair não é o fim. Que pedir ajuda não é fraqueza.
Criar filhos autônomos começa por estar perto. A independência não se ensina com distância, se constrói com presença. Antes de soltar, é preciso segurar. E segurar bem, por tempo suficiente, para que o filho carregue esse colo por dentro quando você não estiver mais ao lado.
Euller Sacramento Psicólogo Clínico
Site: eullersacramento.com.br