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Até a Mãe Fazer

Euller Sacramento 12/08/2026 Artigos

O trabalho que não é visto não some, só pesa mais. E quem carrega um peso que ninguém enxerga, um dia cansa de um jeito que ninguém entende

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Assisti a um vídeo essa semana que dizia o seguinte: arrumar a casa, lavar roupa, ensinar a ler, cozinhar, levar, buscar: isso tudo é trabalho. Até a mãe fazer. Fiquei com essa frase por um tempo. Só com ela. Porque tem uma lógica aí que a gente raramente para para questionar de verdade.

Se alguém é pago para cozinhar, é cozinheiro. Se é pago para limpar, é faxineiro. Se é pago para ensinar, é professor. Se é pago para levar e buscar, é motorista. Mas quando a mãe faz tudo isso, e às vezes tudo ao mesmo tempo, a gente chama de obrigação. Ou de rotina, para parecer mais elegante.

E a mãe engole. Porque sempre foi assim. Porque sempre foi ela. É por isso que tanta mãe termina o dia dizendo que não fez nada, quando na verdade passou o dia inteiro fazendo uma família funcionar. Invisível para todo mundo, inclusive para ela mesma.

O maior equívoco que vejo é achar que, porque alguém faz com amor, faz sem esforço. Como se o afeto cancelasse o cansaço. Como se a dedicação deixasse de ser trabalho por não ter salário no fim do mês. O amor não reduz o esforço. Às vezes faz a pessoa se entregar ainda mais, porque é o filho, porque é a família, porque não dá para não fazer.

Cada família tem sua dinâmica. Mas no geral, uma casa só funciona porque, além do trabalho formal que aparece no contracheque, alguém está fazendo uma quantidade enorme de coisas que quase ninguém contabiliza. Planejando, antecipando, lembrando, organizando, cuidando do que os outros nem percebem que precisa ser cuidado.

Esse trabalho não tem hora de entrada nem de saída. Não tem férias. Não tem décimo terceiro. E raramente recebe o reconhecimento mais simples, que seria alguém chegar no fim do dia e perguntar, com calma, sem pressa: você está bem?

Na maioria das vezes, quem carrega tudo isso ainda é a mãe.

Não trago isso para culpar ninguém. Trago porque acho que a gente precisa parar e olhar com mais honestidade para o que acontece dentro de casa. O trabalho que não é visto não some, só pesa mais. E quem carrega um peso que ninguém enxerga, um dia cansa de um jeito que ninguém entende.

Quem cuida também precisa ser cuidado. Quem sustenta também precisa ser sustentado. E às vezes, a única coisa que falta dentro de uma casa não é tempo, nem dinheiro. É alguém que pare, olhe e diga: eu vejo você. E obrigado.


Euller Sacramento | Psicólogo Clínico
Site: eullersacramento.com.br

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