Servidores que viajariam até 12 horas para cobrar concurso público, RGA e cumprimento do orçamento
Horas de estrada, mobilização coletiva e uma pauta que envolve o futuro do serviço público de Mato Grosso. Foi com essa disposição que professores da Universidade do Estado de Mato Grosso (Unemat) chegaram à Assembleia Legislativa (ALMT), na última quinta-feira, 13, para participar da segunda audiência pública sobre a Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) de 2027. No entanto, encontraram a reunião cancelada. Até o final do dia anterior, a audiência ainda constava na agenda oficial da ALMT. Nenhum aviso prévio havia chegado aos docentes que já estavam a caminho da capital.
A situação provocou revolta entre professores de Cáceres, Colíder, Diamantino, Juara, Tangará da Serra e outros municípios. Alguns enfrentaram mais de 12 horas de viagem para participar de uma discussão que deveria justamente garantir espaço para a sociedade acompanhar e influenciar as prioridades do orçamento público.
“Esse descaso da Assembleia em desmarcar agendas que mobilizam todo o Estado e, em cima da hora, não comunicar, é uma falta de respeito enorme”,
afirmou o professor Domingos Sávio da Cunha Garcia, de Cáceres. Para ele, o episódio revela uma relação preocupante entre discurso institucional e prática política.
“A discussão é banalizada, a votação é banalizada e a execução daquilo que é aprovado também é banalizada”,
criticou.
A principal cobrança dos docentes é pela inclusão, na LDO, de recursos para a realização de concurso público na Unemat. A instituição acumula déficit de no mínimo 327 professores e, segundo a categoria, o concurso já foi previsto nas LDOs de anos anteriores, sem que a medida fosse efetivada. A reivindicação também inclui o pagamento dos passivos da Revisão Geral Anual (RGA), acumulados em 18,38%.
“A gente não vai desistir disso. Eles vão precisar nos ouvir”,
afirmou a professora e presidente da Associação dos Docentes da UNEMAT (ADUNEMAT), Dra. Dinairan Dantas Souza. Segundo ela, a categoria está adoecida pela falta de professores e há mais de 13 anos não ocorre concurso público para docentes.
A professora aposentada Maria Ivonete saiu de Colíder e enfrentou 12 horas de viagem para participar da audiência.
“A gente chega aqui e, na última hora, a audiência foi cancelada. Não tem ninguém para dizer nada para nós”,
relatou.
Com previsão de R$42,1 bilhões, a LDO 2027 estabelece as prioridades, metas fiscais e critérios para distribuição dos recursos públicos, fazendo a ligação entre o Plano Plurianual (PPA) 2024-2027 e a Lei Orçamentária Anual (LOA). Por isso, para os servidores, participar dessa etapa não é apenas uma formalidade: significa disputar orçamento para que direitos e serviços públicos saiam do papel.
Até o fechamento desta reportagem, a ALMT não havia anunciado nova data para a audiência. A discussão deverá ocorrer antes da aprovação da LOA. Enquanto isso, os professores afirmam que permanecerão mobilizados. Afinal, quando servidores percorrem centenas de quilômetros para ocupar um espaço institucional de participação e encontram as portas políticas fechadas, o problema deixa de ser apenas o cancelamento de uma audiência. Passa a ser um retrato de como o poder público escolhe, ou não, ouvir quem mantém o Estado funcionando.