Semana passada fui à Casa de Carnes Tangará e uma senhora veio até mim. Tinha algo nela que me lembrou muito a minha avó: o jeito de chegar, o sorriso, a voz. Ela disse que lia meus artigos, que gostava muito, que todos ali liam. Conversamos rapidamente, ela, a filha e eu.
Dias depois encontrei a filha num restaurante aqui na cidade. E ela me sugeriu um tema: cuidar de quem cuida.
A sugestão chegou em boa hora. E o artigo de hoje vai para as duas, representando os leitores e leitoras deste jornal.
Nesses anos de clínica, percebi algo que repete tanto que já não me surpreende, mas ainda me move: quando uma mãe traz o filho para terapia, ela chega preocupada com ele. Com o comportamento dele, com a tristeza dele, com o silêncio dele. E faz sentido. É o filho. É o que ela mais ama.
Mas tem um momento, dentro do processo, em que algo muda.
Quando a criança começa a falar do que sente, quando o adolescente começa a nomear a dor, a mãe que está do lado de fora daquele consultório começa a sentir um peso diferente. Porque olhar para o filho que sofre é, muitas vezes, olhar para um espelho. E no reflexo, aparecem feridas que ela mesma nunca curou. Dores que ficaram guardadas, histórias que nunca foram contadas para ninguém, um passado que ela achava que tinha ficado para trás.
E de repente, ele volta. No corpo do filho. No olho do filho. Na voz do filho.
Esse é um dos momentos mais delicados da clínica. Porque a mãe que chegou para cuidar do filho descobre que ela também precisava de cuidado. Que o desgaste não era só cansaço de rotina. Era o peso de carregar o próprio não resolvido enquanto tentava resolver o do outro.
Cuidar é um dos gestos mais bonitos que existem. E também um dos mais esgotantes, quando feito sem nenhum cuidado de volta.
Quem cuida sem ser cuidado, um dia seca. Não por falta de amor. Por excesso de entrega sem reposição. E quando seca, não consegue mais dar o que quer dar, mesmo querendo muito. O amor continua. Mas a força, não.
Por isso, se você é mãe, pai, cuidador de alguém e a vida tem te cobrado mais do que tem te devolvido, esse artigo é para você, não para te dizer que está errado cuidar, mas para te lembrar que você também merece ser cuidado.
Cuide de quem cuida. Às vezes, esse alguém é você.
Euller Sacramento | Psicólogo Clínico
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