Ontem sentei na frente do computador para escrever este artigo. Fiquei encarando o cursor piscar na tela branca por alguns minutos, mas nada vinha. Nenhuma ideia. Normalmente, durante a semana, os acontecimentos vão me visitando aos poucos e quando sento, o texto flui. Desta vez, silêncio absoluto.
Levantei, caminhei pela casa, voltei, e ainda assim, nenhum pensamento surgia. Fiquei preocupado: como assim não tenho o que escrever? Meu ócio criativo estava travado.
Foi só mais tarde que me dei conta do que acontecia. Sou observador, gosto de reparar nos detalhes aos meus arredores. A minha trava não era falta de assunto, era porque eu havia parado de observar. A vida não parou de me dar conteúdo; eu que parei de prestar atenção.
Vocês já pararam para pensar o quanto a gente entra no piloto automático e perde a capacidade de enxergar o que nos sustenta? A gente acha que a verdadeira felicidade acontece nas exceções: numa viagem de férias, numa festa grandiosa. Mentira. A felicidade e a saúde mental acontecem nos pequenos detalhes do cotidiano.
Ela está presente no sorriso da filha logo de manhã; no olhar da esposa no meio de um dia exaustivo; na paz de ler o jornal sem pressa; num cumprimento no meio da rua. A vida acontece o tempo todo. Mas quando paramos de observá-la, as coisas perdem o brilho. Ficamos cegos. Você não enxerga mais o que te anima, o que te faz ser mais empático com a dor do outro.
SE VOCÊ NÃO CONSEGUE OBSERVAR NADA DE BOM NA SUA ROTINA, O PROBLEMA NÃO É O MUNDO. É VOCÊ QUE PERDEU A CAPACIDADE DE OLHAR PARA A PRÓPRIA VIDA.
Nesta segunda-feira à noite, levei minha filha ao Nosso Sushi. Era a última segunda do mês, dia de buffet por preço único, um programa que ela simplesmente ama. Sentamos, comemos e fiquei ali, em silêncio, apenas observando a alegria dela nos pequenos detalhes. No final, já dentro do carro para voltarmos para casa, ela virou para mim, abriu aquele sorriso gostoso que desarma qualquer um, deu-me um abraço bem apertado e disparou:
— Obrigado, papai!
Naquele abraço me veio o texto inteiro. A rotina nos deixa no piloto automático, mas o afeto não. São os detalhes que fazem a vida acontecer, e se você não presta atenção, está deixando escapar grandes momentos dentro da sua própria casa. E você, quando foi a última vez que parou para simplesmente observar a sua vida?
Euller Sacramento | Psicólogo Clínico.
Site: eullersacramento.com.br