Dia desses, mãe sentou-se na minha frente e suspirou. Um suspiro carregado, daqueles que resumem uma vida inteira de esperas. Ela me contava sobre a rotina da casa, o crescimento quase invisível dos filhos e a cadeira vazia na mesa do café. O marido, engolido por aeroportos e reuniões intermináveis, era uma presença bissexta. Um homem bom, justificava ela, que trabalhava de voo em voo para garantir que nada faltasse. Um padrão de vida alto, mas pago com a moeda mais cara: o tempo.
Ouvindo aquela mãe, fui remetido aos meus anos de escuta clínica. Essa cena se repete no consultório com uma regularidade que assusta. Homens exaustos, cujos filhos aprenderam a conjugar o pai no tempo verbal da ausência. O mais perturbador não é a distância em si, mas a forma dócil com que normalizamos essa barbárie cotidiana. Fomos colonizados pela ideia de que a produtividade é a forma suprema de afeto. Se eu providencio muito, logo amo. Se faturo alto, sou um bom provedor e, portanto, um bom pai.
O mecanismo de mercado é de uma CRUELDADE silenciosa com a família. Ele inverte as prioridades com uma lógica implacável: primeiro você vende seu tempo, esgota suas reservas de paciência e consome sua energia vital; depois, com as migalhas que sobram no fim do mês, você tenta ser pai, tenta ser parceiro. A família fica permanentemente na sala de espera, aguardando um feriado ou a aposentadoria para finalmente existir junta.
Na clínica, acolho os destroços dessa engrenagem. Há um sofrimento profundo de ambos os lados. De um lado, a família vivencia um abandono não intencional, criando buracos afetivos que nenhum objeto caro preenche. De outro, o homem aprisionado na armadilha do sucesso. Ele carrega a culpa de não estar lá, misturada ao pavor de diminuir o ritmo e ser visto como um fracasso. A sociedade perdoa o pai ausente, mas pune quem desafia as regras do enriquecimento.
Como repensar isso? Precisamos, urgentemente, subverter essa métrica. Talvez o verdadeiro “alto padrão de vida” seja a possibilidade de rir de uma bobagem numa tarde de terça-feira, de ouvir a história antes de dormir, de simplesmente habitar o cotidiano. Reduzir a marcha não é um atestado de fracasso profissional, mas sim um ato de bravura. É resgatar a presença no seio familiar, nosso único bem que, de fato, é profunda e indiscutivelmente insubstituível.




