Tenho me deparado com um desafio crescente em meu trabalho como psicólogo: a falta de escuta genuína. Muitos adolescentes que atendo se sentem invisíveis, como se suas angústias e emoções não tivessem valor. Recentemente, atendi um jovem que, quando questionado sobre seus sonhos, disse: “Eu não sei, nunca me perguntaram”. Isso me fez refletir profundamente. Como podemos esperar que um jovem se desenvolva, se ele não é escutado nem mesmo nas questões mais simples?
Jeferson Tenório, escritor e ex-professor, aponta que essa crise da escuta é um dos maiores desafios para os jovens hoje. Ele fala sobre como muitos são vistos como um grupo homogêneo, sem espaço para suas individualidades. Como ele disse: “É preciso exercitar mais a escuta do que a visão”. Escutar vai além de simplesmente ouvir as palavras; é entender o que está por trás delas, as emoções não ditas, as inseguranças que nem sempre têm espaço para se expressar.

A falta de escuta vai muito além do que se imagina. Tenório destaca que muitos jovens, especialmente os negros, são forçados a amadurecer cedo demais, lidando com realidades que não são compatíveis com a sua idade. A literatura, a arte e a educação são poderosos caminhos de transformação, mas muitos não têm acesso a isso. Em O Beijo na Parede, Tenório conta a história de um menino de rua que, ao ter contato com os livros, encontra uma chance de mudança. Isso mostra o quanto a educação e a arte podem ser a chave para um novo futuro.

A escola, para Tenório, precisa ser mais do que um local de normas e regras. Ela deve ser um espaço de acolhimento e diálogo, onde os jovens se sintam à vontade para se expressar. Muitas vezes, eles não encontram esse apoio em casa, e a escola precisa ser esse refúgio. Mas, como Tenório aponta, “Se a escola vai mal, é porque a sociedade vai mal”. A falta de escuta é um reflexo disso.

A crise da escuta é, sem dúvida, um dos maiores desafios que enfrentamos. Como sociedade, precisamos aprender a ouvir de verdade os nossos jovens, a reconhecer suas individualidades, suas dores e seus sonhos. Só assim poderemos ajudar a construir um futuro mais saudável e consciente para todos. Se não os ouvirmos, como podemos ajudá-los a se encontrar e a se desenvolver plenamente?

Euller Sacramento é Psicólogo Clínico.
Instagram: @eullersacramento