A Delicadeza de Saber que Somos Finitos
Euller Sacramento
Outro dia li uma coluna da escritora Elisama Santos que me paralisou por alguns instantes. Ela falava sobre finitude. Sobre como saber que tudo acaba – inclusive nós – deveria mudar completamente a forma como vivemos. E eu fiquei ali, diante daquela tela, pensando na quantidade de vezes em que a gente passa correndo pela vida como se fosse imortal.
Vivemos planejando o fim de semana, o próximo feriado, o ano seguinte. Pensamos no futuro como se ele estivesse garantido. Postergamos abraços, evitamos conversas difíceis, deixamos de olhar nos olhos de quem amamos porque estamos ocupados demais. É como se o tempo estivesse à nossa disposição, infinito, paciente. Mas ele não está.
A finitude nos assusta porque nos lembra que tudo o que temos pode acabar a qualquer momento. E, ainda assim, ela também pode ser uma grande professora. Porque quando a gente se dá conta de que não temos garantias, passamos a viver com mais presença. Passamos a ouvir de verdade, a dizer mais “eu te amo”, a pedir desculpas, a valorizar o agora.
Na clínica, escuto com frequência arrependimentos sobre o que não foi dito, o abraço que não foi dado, a ligação que não aconteceu. E é sempre depois de uma perda, de uma notícia inesperada, de um vazio que poderia ter sido preenchido. O luto não é só sobre quem partiu, é também sobre aquilo que deixamos de viver ao lado de quem ficou.
Não é sobre viver com medo, mas com consciência. Saber que somos finitos pode nos fazer mais amorosos, mais gentis, mais atentos. Pode nos ensinar a olhar com ternura para os nossos, e a perceber que a rotina também é feita de milagres. A criança que nos chama para brincar, o café dividido na correria da manhã, o silêncio partilhado no fim do dia. Tudo isso importa. Tudo isso é vida acontecendo.
A urgência não deveria estar apenas nos boletos e nas metas, mas em aproveitar a existência com quem se ama. Em ser inteiro nas relações. Em não esperar datas comemorativas para demonstrar afeto. Porque, no fim das contas, o que vai restar de nós são os vínculos que cultivamos, os afetos que nutrimos, as memórias que construímos juntos.
Saber que a vida acaba deveria nos fazer vivê-la com mais delicadeza. Porque o agora é tudo o que temos de verdade.




