A última semana marcou a realização das convenções partidárias e a definição dos principais candidatos tanto no plano nacional quanto no estadual. Nas próximas semanas começam, ou melhor, continuam os embates discursivos com o propósito de capturar corações, mentes e consequentemente os votos dos eleitores. Mas nossa proposta aqui é lançar reflexões sobre a educação em tempos eleitorais.

Com o rescaldo da pandemia de Covid-19 rondando o imaginário das pessoas será muito comum que a pauta da saúde seja muito explorada neste pleito. Nada mais justo para um setor que carece e muito de financiamento e valorização. Outra pauta que se acirra pelos efeitos pandêmicos é a economia e seus sub temas como emprego, renda, desenvolvimento sustentável e industrialização.

Também é possível imaginar um confronto de narrativas sobre as políticas sociais com embate ferrenho entre Bolsa Família x Auxílio Brasil, ou Minha Casa, Minha Vida x Casa Verde Amarela. Mas aí perguntamos: qual papel está reservado para educação na pauta destas eleições?

A educação foi muito impactada na pandemia. As escolas independente de sua estrutura ou preparação prévia tiveram de se adaptar para oferta de componentes curriculares de forma remota. Na universidade ocorreu o mesmo e o retorno das atividades presenciais tem evidenciado lacunas na aprendizagem, evasão escolar e problemas de saúde tanto nos estudantes quanto nos professores.

O educador Demerval Saviani nos ensina que educação é processo complexo e que suas ações não tem a mesma temporalidade dos mandatos eletivos, ou seja, seus resultados demoram a ser sentidos na sociedade o que não costuma agradar muito os governantes ávidos por números que se traduzam em influência político-eleitoral.

Quando vemos a educação na pauta política ela sempre é colocada como futuro, aquilo que se vai alcançar. É comum também mostrar inauguração de escolas, compra de ônibus escolares e às vezes até mesmo algum reajuste aos profissionais da educação. Mas raramente presenciamos um debate de fundo sobre os processos de aprendizagem, a política de formação continuada ou pesquisa científica desenvolvida nas universidades. Esses debates que são processuais não tem espaço na pauta imediatista da eleição.

Ao não tratar dos temas de fundo se perpetua um ciclo vicioso porque continuamos a debater o superficial e tratar como superficial uma área tão complexa e imbricada a outras como a educação.

Nós esperamos nesta eleição que promete ser a mais polarizada dos últimos tempos que a educação possa aparecer de forma diferente. Que o debate não seja sobre quem construiu mais escolas ou comprou mais computadores. Não se trata educação como asfalto ou saneamento básico. Educação é viva e transforma vidas.

Miguel Rodrigues Netto é Jornalista/UFMT, Licenciado em Letras/Unicesumar, Mestre em Política Social/UFMT e Doutor em Ciências Sociais/PUC/SP. Professor Adjunto da Universidade do Estado de Mato Grosso - UNEMAT.