Às vezes a vida ensina em silêncio. E, na maioria das vezes, é o simples que dá a primeira lição. Outro dia, cheguei em casa, abri a geladeira e… não tinha água.

Nada. As garrafinhas que sempre estão ali, alinhadas, geladas, quase me esperando, simplesmente não estavam. Eu fiquei parado alguns segundos, olhando para o vazio da geladeira como se aquilo fosse um acontecimento extraordinário. Mas não era. Era só o simples que, pela primeira vez, tinha deixado de acontecer.

E foi aí que eu percebi: a gente só nota o simples quando ele nos falta. Quando está lá, funcionando, servindo, sustentando o nosso dia… a gente apenas consome, vive, segue. Mas basta uma falha no “automático” para a vida dar aquele tapinha no ombro e perguntar: Tá vendo?

Isso aqui sempre existiu, mas você nunca olhou. Pense no gelo. Ninguém celebra uma bandeja cheia de cubinhos. Ninguém agradece. Só pega, usa e pronto. Mas é só acabar para vir aquela sensação incômoda de falta. As roupas? Mais um exemplo. Todo dia você veste, troca, guarda, continua. Mas basta uma semana sem lavar que vira caos. E aí, de repente, o simples vira urgente. O comum vira necessário. O básico vira falta.

E enquanto eu encarava a geladeira vazia, percebi que não era só sobre água. Era sobre tudo aquilo que sustenta a nossa vida e que a gente esquece de enxergar. O abraço que virou rotina. O sorriso que deixou de chamar atenção. O bom dia apressado que um dia foi declaração de amor. As pequenas presenças que construíram nossas relações e que, quando desaparecem, deixam buracos enormes.

O simples é uma benção silenciosa e o ser humano tem a estranha mania de só valorizar quando perde. Vivemos correndo atrás do “grande”, do extraordinário, do raro… enquantoo que realmente sustenta a nossa vida está nasmãos invisíveis do cotidiano.