Nos últimos meses, dados sobre saúde mental de adolescentes me chamaram muito a atenção: os atendimentos por depressão e ansiedade aumentaram de forma assustadora no sistema público de saúde. Isso não é apenas uma estatística, é o reflexo de um sofrimento silencioso que vem crescendo dentro das casas, das escolas e das telas que fazem parte do cotidiano dos jovens.

A depressão na adolescência não surge do nada. Ela é alimentada por uma combinação de fatores: pressão escolar, cobranças familiares, exposição intensa às redes sociais e a sensação constante de não ser bom o suficiente. Em consultório, ouço frases como “não aguento mais”, “não vejo sentido em nada” ou “parece que minha vida nunca vai melhorar”. São falas carregadas de dor em uma fase que deveria ser marcada por descobertas e alegrias.

Vivemos uma era em que o adolescente está sempre conectado, mas paradoxalmente cada vez mais desconectado de si mesmo. O excesso de tempo diante das telas gera comparações destrutivas com padrões inalcançáveis, produz um senso de urgência irreal e rouba a capacidade de lidar com frustrações básicas. A vida digital, tão intensa, tem dificultado a construção da vida real.

É preciso lembrar, porém, que o aumento dos atendimentos também revela algo positivo: estamos falando mais sobre saúde mental. Se antes adolescentes sofriam em silêncio, hoje eles buscam ajuda com mais frequência. Esse movimento é valioso e mostra que, apesar do aumento nos números, existe também uma crescente consciência de que depressão e ansiedade não são frescura, mas doenças sérias que precisam de cuidado.

Como pai e psicólogo, insisto sempre: presença faz diferença. Não é apenas sobre levar ao médico ou ao psicólogo quando o problema explode, mas sobre estar atento aos pequenos sinais. Mudanças bruscas de comportamento, isolamento, irritabilidade e queda no rendimento escolar podem ser pedidos de socorro disfarçados. Precisamos aprender a escutar com paciência, sem julgamentos e sem lições de moral prontas.

O SUS tem feito sua parte, ampliando o acesso a atendimentos, mas saúde mental não é responsabilidade apenas de hospitais e clínicas. É responsabilidade das famílias, das escolas, da comunidade. Cada gesto de acolhimento é uma barreira contra a desesperança. Cada escuta atenta é uma chance de resgatar um adolescente do silêncio.

Euller Sacramento é Psicólogo Clínico.
Instagram: @eullersacramento