Há alguns dias, um vídeo do influenciador Felca ganhou milhões de visualizações e mobilizou o país. Nele, a denúncia é clara: nossas crianças estão sendo adultizadas — expostas a um mundo de sexualização precoce, pressões estéticas e responsabilidades emocionais que não lhes pertencem. O assunto foi parar no Congresso, ganhou as manchetes… mas, para mim, como psicólogo clínico há mais de 15 anos e especialista no atendimento de crianças e adolescentes, o alerta não é novidade. É a realidade que vejo todos os dias no consultório.
Adultização não é apenas vestir a criança como adulto. É colocá-la sob expectativas, olhares e experiências que atropelam seu tempo natural de desenvolvimento. É a menina que aprende a posar para likes antes de aprender a brincar sem roteiro. É o menino que, com 10 anos, já se preocupa com “ter um corpo certo” para não ser alvo de piadas. É a infância sendo trocada por curtidas, pela aprovação de estranhos e pela validação instantânea de uma tela.
No consultório, recebo adolescentes com ansiedade, baixa autoestima e crises de identidade. Muitos carregam uma dor silenciosa: a de nunca terem vivido plenamente a infância. E não se trata apenas de culpa das redes sociais — mas também da ausência de mediação adulta. Pais e mães, muitas vezes sem perceber, incentivam essa exposição, seja com fotos e vídeos fofos que viralizam, seja com conteúdos que transformam a criança em produto.
A internet é implacável. O que vai para a rede deixa de ser seu. Por isso, a pergunta que todo pai e mãe deveriam se fazer é: “Estou protegendo ou estou expondo?”. Crianças precisam de tempo para ser… crianças. Para brincar, errar, se sujar, criar histórias sem filtro. Precisam de segurança para amadurecer no ritmo certo — sem queimar etapas que não voltam mais.
Não basta desligar a internet. É preciso estar presente. Conhecer os influenciadores que seu filho segue, conversar sobre o que ele vê, ensinar a diferenciar o que é real do que é encenação. É sobre criar laços de confiança tão fortes que, mesmo diante do bombardeio digital, seu filho escolha contar para você o que está vivendo.
A infância é curta demais para ser desperdiçada com a pressa do mundo adulto. E, quando ela se vai, não volta. Protegê-la é mais do que um dever: é um ato de amor.




